Piada x grosseria: a diferença entre o humor e o bullying

Rafinha Bastos e a americana Sarah Silverman
Rafinha Bastos e a americana Sarah Silverman ((Dedoc e Matt Carr/GettyImages)

Paula Reverbel, na Veja Online

Não é o tom politicamente incorreto que separa Danilo Gentilli e Rafinha Bastos dos bons – e consagrados – comediantes stand-up. É a qualidade das piadas, tão baixa que dá a impressão de que Gentilli e Rafinha estão simplesmente proclamando ofensas como quem pratica bullying, sem qualquer conteúdo crítico sobre a atualidade.

Mesmo que acertem numa piada ou outra – especialmente Bastos, que já provou ter mais talento que Gentili –, eles ainda estão longe dos comediantes inteligentes e ousados o suficiente para brincar com religião e racismo e, ao mesmo tempo, lançar ataques ácidos contra o preconceito e a intolerância.

Fazer piadas com famosos é parte do ofício do humorista – e dos próprios famosos. Estão aí Silvio Santos e Lula, e seus milhares de imitadores, para provar. Mas, quando a piada se limita a dizer que fulana é feia ou que sicrana é “otária”, é de se perguntar se é de fato piada, já que não tem graça, ou mera grosseria. Os comediantes do stand-up-bullying usam com frequência do exédiente para atrair fãs (vide as batatadas ao lado). Os textos falham em sua proposta de ser piada e os artistas do humor são criticados. E se defendem acusando o público de careta.

“O politicamente correto está virando uma ótima desculpa para humorista ruim. Qual dessas últimas polêmicas se deu em torno de uma piada realmente aproveitável?”, questiona o cartunista Arnaldo Branco. “Quando a Sarah Silverman fala que sente pena das crianças etíopes subnutridas (mas com barrigões de vermes) porque são crianças de um ano grávidas de nove meses, ela está fazendo um personagem idiota para criar um jogo de palavras e uma associação de ideias inteligente. Você ri no limite do prazer culpado. Os nossos amigos stand ups não trabalham com camadas, na hora de imitar seus colegas gringos acham que só precisam de um microfone, uma roupa casual e as bobagens que entendem por insight.”

Para se divertir com piadas de qualidade, confira uma breve seleção de comediantes que se valeram da liberdade de expressão e da ousadia para boas apresentações.

(Colaborou Rodrigo Levino)

Exemplo de stand-up de bom gosto

Bill Hicks (1961-1994) começou a fazer comédia stand-up aos 16 anos e apareceu pela primeira vez em um dos programas do apresentador David Letterman, aos 24. Fazia piadas relacionadas a sociedade, religião e política. Em uma de suas apresentações, critica o fundamentalismo religioso e a interpretação ao pé da letra que os radicais cristãos fazem do mundo.

Veja outros vídeos aqui.

Comentários

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2 Comentários

  1. CowboysquedizemLOL disse:

    A ironia é que o “sofisticado” humor do Bill Hicks também foi censurado no programa do Letterman…

    O problema não é ter humorista fazendo piada ruim (ou boa), politicamente correta ou incorreta. O problema é censurarem piadas ou humoristas, seja o tipo que for a piada (ou o humorista).

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