Nem da Rocinha não vai pro inferno porque lê a Bíblia

Hélio, no blog O contorno da sombra

A entrevista do traficante Nem à jornalista Ruth de Aquino, da revista Época, às vésperas de sua prisão e da ocupação do seu “território” – a favela da Rocinha – por forças da Polícia, do Exército e da Marinha, é uma daquelas matérias épicas da imprensa brasileira, que merecem ser elogiadas e comentadas pela visão que ela permite que as pessoas – de fora dessa realidade – tenham da, digamos, “cultura” que impera nesses pequenos reinos do poder à margem do Estado brasileiro.

São alguns pontos tão contraditórios que só a esquizofrenia, individual e coletiva, poderia – talvez – fornecer alguma resposta plausível a essa confusão de valores tão gritante. Tá tudo dominado, só não se sabe por quem.

Segundo relata a jornalista, quando encontrou o traficante, ele conversava com um pastor sobre um rapaz viciado de 22 anos: “Pegou ele, pastor? Não pode desistir. A igreja não pode desistir nunca de recuperar alguém. Caraca, ele estava limpo, sem droga, tinha encontrado um emprego… me fala depois”, disse Nem. Abaixo, alguns trechos da entrevista:


Drogas “Não uso droga, só bebo com os amigos. Acho que em menos de 20 anos a maconha vai ser liberada no Brasil. Nos Estados Unidos, está quase. Já pensou quanto as empresas iam lucrar? Iam engolir o tráfico. Não negocio crack e proíbo trazer crack para a Rocinha. Porque isso destrói as pessoas, as famílias e a comunidade inteira. Conheço gente que usa cocaína há 30 anos e que funciona. Mas com o crack as pessoas assaltam e roubam tudo na frente.”
.
Tráfico “Sei que dizem que entrei no tráfico por causa da minha filha. Ela tinha 10 meses e uma doença raríssima, precisava colocar cateter, um troço caro, e o Lulu (ex-chefe) me emprestou o dinheiro. Mas prefiro dizer que entrei no tráfico porque entrei. E não compensa.”
.
Ídolo “Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha. Cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinham trabalho e futuro na construção civil.”
.
Religião “Não vou para o inferno. Leio a Bíblia sempre, pergunto a meus filhos todo dia se foram à escola, tento impedir garotos de entrar no crime, dou dinheiro para comida, aluguel, escola, para sumir daqui. Faço cultos na minha casa, chamo pastores. Mas não tenho ligação com nenhuma igreja. Minha ligação é com Deus. Aprendi a rezar criancinha, com meu pai. Mas só de uns sete anos para cá comecei a entender melhor os crentes. Acho que Deus tem algum plano para mim. Ele vai abrir alguma porta.”
.

Este último trecho, em que Nem fala sobre religião, mostra como o “inchaço” da igreja evangélica no Brasil está produzindo distorções terríveis na maneira como as pessoas, digamos, “captam” a mensagem que lhes é pregada. “Pastores” convivem e se envolvem com traficantes – sobre os quais pesam crimes os mais terríveis – como se fosse algo absolutamente normal e corriqueiro. Afinal, imagina-se, os fins justificam os meios.
,
Só que a gente não sabe mais quais são os fins nem os meios desse “evangelho” pela metade. Não se prega mais arrependimento, mudança de vida, mas uma série de práticas esotéricas que podem, de alguma forma, garantir uma certa “salvação” ilusória a quem a pratica ou, pelo menos, repete os mantras que lhe são ensinados. Nada muito diferente do que reza a versão popular brasileira do catolicismo.
.
O sincretismo religioso impera no país. Não é surpresa, portanto, que o líder do tráfico na favela da Rocinha, recentemente preso numa batida policial, tenha essa concepção dos “crentes” e do “evangelho” que ele ouve na sua própria casa, já que chama alguns “pastores” para fazerem “cultos” por lá. Algo deve estar muito errado se é este o “evangelho” que está sendo pregado no Brasil.
.
A excelente reportagem de Ruth de Aquino pode ser lida na íntegra no site da Época.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Nem da Rocinha não vai pro inferno porque lê a Bíblia

6 Comentários

  1. Jeremias Barretobispo disse:

    Sabe Sr. você generalizou algo em seu pensamento quando você se refere à igreja Evangélica no Brasil, peço em nome de todos que o Sr. pense bem antes de criticar, vá em uma Igreja Evangélica autentica que tenho certeza que  verás com outros óculos.
    Eu acho incrível como ainda existem pessoas que gostam de generalizar tudo para chamar a atenção.. você fez um Ctrl+c e colou no seu blog..e para dar uma ”incrementada” colocou seu pensamento  para tipo ” ME OLHEM AQUI ESTOU FALANDO DE ALGO POLÊMICO” também não sou cego sei que acontece  muitas coisas erradas..mas respeite que estar no ”trilho” certo.

    • Eliezio disse:

      Jeremias, agente precisa aprender ao olhar as pessoas, os fatos e as circunstancias, com o olhar de Cristo, e questionar o que Cristo faria se subisse a Rocinha e encontrasse o Nem por lá, lendo a Bíblia, realizando cultos domésticos e outra práticas.
      A coisa não é instiitucional ela é pessoal. Instituições não herdarão o Céu, mas as pessoas; essas sim são eternas!

  2. maicon disse:

    nem da rocinha ele é foda esse kara queria eu ganhar o que ele ganha por ano , vereador , roba ,prefeito roba , govenador ,roba , presidente roba , ele só tava fazendo o que todos esses cachorros fazem , quatos cachorros grande não finaciavam o trafico pq tanta justiça , e só agora veram prender ele , pra cima de mim irmão ai tem gente dos grande e ele vai morrer la na cadeia mesmo , e niguem vai lembrar mais dele , e os cahorrão grandes vão ser apagados do processo , esse pais é um país de merda , sem futuro , mais tenho fé pq até no lixão nascer flor , nem vc só era apenas mais um que robava e tem que meter o bicho mesmo , quanto um vereador ganha pra roubar , quanto ganha um prefeito , pra roubar , e um pai de familia servente de pedreiro , ganha , quanto ganha um professor de escola , Esse País vai é explodir …. 

  3. mas onde abundou o pecado superabundou a Graça! (Rm. 5:20)
    bom, o nosso lance é que classificamos e muito os pecados, um pastor que minta ou roube mas afirma que vai pro céu nós relevamos bem mais do que um bandido que mata e afirma a mesma coisa. mas o pecado é igual, nós de acordo com nossa cultura que achamos que um merece menos do que o outro e tudo mais. achamos até mesmo um absurdo… mas não se impressionem se verem toda essa galerinha no céu mesmo, porque Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades.. todas elas, e ao meu ver (mesmo que eu não veja muito bem) os pastores estão certos, se relacionando com os bandidos como se relacionam como qualquer um, pecador da mesma forma, isso pra mim é uma forma de amar 🙂

Deixe o seu comentário