Fundamentalistas

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Texto de Zeca Baleiro publicado originalmente na IstoÉ

Todo fundamentalismo é perigoso, seja quando se trata de religião, política, economia, nacionalismo ou até em temas “prosaicos” como futebol e música.

Não creio em Deus. Pelo menos não da mesma forma que um cristão ou um muçulmano. Tenho apreço pelos ritos católicos e curiosidade por vidas de santos, isso por ser um amor aprendido na infância – e amores da infância são (quase) eternos. O “Deus” que me interessa é um Deus mais “filosófico” (ou mesmo “teológico”) que um Deus santíssimo. Aí está a grande questão. A filosofia é, grosso modo, a possibilidade de relativizar as coisas, e para as religiões não há relativização possível. Ou é céu ou inferno, ou pecado ou virtude, ou Deus ou diabo, bem ou mal.

Seja como for, religião é um assunto que me interessa. E que ultimamente me preocupa. Porque noto que as religiões estão todas se tornando um tanto fundamentalistas (e não só o islamismo, como já é sabido). Todo fundamentalismo é perigoso, seja quando se trata de religião, política, economia, nacionalismo ou até em temas “prosaicos” como futebol e música (conheço alguns “fundamentalistas de mesa de bar”, aqueles sujeitos de opinião irredutível que têm a convicção dos crentes e a falta de humor dos fanáticos).

Os fundamentalistas querem a volta à barbárie, querem subtrair da humanidade todas as suas conquistas, quando o único futuro possível do mundo – se é que há um – parece ser o culto à civilidade, a busca da democracia (mesmo que esta seja uma busca utópica) e o respeito e a tolerância às escolhas dos outros. Um mundo próximo do ideal seria um mundo onde todos pudessem vivenciar seus credos e convicções sem o barulho insano e cego das urbas, sem a sanha fundamentalista dos grupos e doutrinas. Mas isso parece cada vez mais longe.

Entre os anos 60 e 70, muitos americanos se converteram ao islamismo, entre eles personalidades pop como o lutador Classius Clay e o cantor Cat Stevens. Isso ajudou bastante a difundir a doutrina islâmica mundo afora. Era charmoso, com uma certa tinta contracultural até. Naquela altura, ninguém imaginaria que a religião islâmica seria a máquina de morte em que se transformou hoje.

Hoje também evangélicos às pencas, dispostos a carregar mais ovelhas para seu rebanho, invadem a internet como pragas no Egito para difundir seu pensamento moral totalitário em comentários nem sempre felizes ao pé de blogs e sites de notícias. E os católicos buscam, com a Renovação Carismática e sob o comando de um papa sem carisma, a volta dos fiéis pela espetacularização da fé através da missa-show e do sermão-palestra motivacional.

A falência das liturgias e o avanço de uma visão fundamentalista do mundo são sintomas do que Nietzsche, não por acaso um filósofo, decretou bem antes de nós, com a certeza de um crente: “Deus está morto.” Com esses questionamentos acerca da fé, me indago: estarei eu sendo um fundamentalista também?

foto: 94 FM

Comentários

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5 Comentários

  1. “… e as pedras clamarão…”

  2. Franco disse:

    Grande Zeca!!!
    Exijo o meu direito, apesar de ser evangélico e o Zeca ser ateu, ouvir suas músicas e sua poesia maravilhosa,kkkkkkk
    Bem melhor do que ficar ouvindo essas músicas gospel com essa mesmice de letras e arranjos pasteurizados. 
    Zeca baleiro para ministro da cultura!!

  3. Railson Oliveira disse:

    Tenho temores similares ao do autor, mas penso que minhas convicções estão muito mais próximas de conceitos fundamentalistas (comumente chamados de preconceitos, a meu ver incorretamente, porquanto dificilmente não repisados e debatidos diligentemente com os mais flexíveis/progressistas). Exemplo: pra mim, relativizar algumas claras premissas cristãs é tão perigoso quanto querer impor ao outro nossa crença ou o padrão de conduta que consideramos aceitável. E eu ainda creio muito mais em descrições bíblicas de Deus como alguém que pune com a morte do que em frases adocicadas de Nietzsche, como “Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”.

  4. Abel B. disse:

    Zeca Baleiro parece coerente, mas é totalmente o contrário… Qualquer cristão evangélico conhece a diferença teológica entre cristianismo e islamismo. Alguns podem se ofender com o que eu digo, mas a verdade é medida pelos frutos evidentes neste século. Considero-me um cristão fundamentalista, sim, pois sou fundamentado em Cristo e busco seguir sua Palavra a cada dia. Mas sou um fundamentalista bem diferente da generalização do referido compositor. Defendo aquilo que confio e conheço, por isto meu discurso é totalmente divergente dos que desconhecem Deus. Neste ponto, a única esperança de que minha visão seja entendida por um ateu reside na possibilidade dele conhecer o que eu conheço. E quem já conhece, sabe que Jesus é o único caminho.

  5. Fabiola Rocha disse:

    Prezado Abel,não estou defendendo o zeca  mas também não concordo com sua opinião, que parece bem arrogante, ao dizer “que a única esperança de que minha visão seja entendida por um ateu reside na possibilidade dele conhecer o que eu conheço” querido, como crer se não há quem pregue? Os Evangelicos,(me incluo)  Muitas vezes são tão contraditórios quanto a opinião do Zeca. você conhece, eu conheço mas… somos tão metidos a “santos” que atrapalhamos tudo. Jesus Cristo sempre se mostrou humilde, mesmo sendo Filho de Deus, mesmo sendo dono de todo saber. Nos coloquemos nesta posição, se todas as vezes que formos atacados, devolver com a mesma moeda, ora, não estamos fazendo como Jesus ensina. Quem convence o homem do pecado é o Espirito santo. A oração pela humanidade e a pregação do evangelho de Cristo, faz toda diferença! Há momentos em que as palavras não resolvem, a conduta do cristão, o nosso testemunho pessoal, falam mais  que encher paginas de comentários em “nossa” defesa. Esse é o papel de Jesus Cristo, Ele sim, nos defende. Chegará a vez do Zeca, calma, assim como chegou a hora e a vez de Saulo, lembras? Tenhamos paciência, Ele nos escolheu primeiro!
     

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