Missão: Salvar crianças-bruxas


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A música Baba Yetu é do compositor americano Christopher Tin (2009), cantada na língua Swahili pelo Coral Gospel de Soweto. E a letra é a oração do Pai Nosso.

O sol: dono da África, da pele, dos peixes, da feira!

Não chove aqui. Nem uma gota. O Sol também não brilha.
Onipresente, cinicamente disfarçado sob um manto cinza-amarelado que se debruça violento sobre tudo e todos. Estamos numa estufa. Os sentidos fervem. O sol africano entorpece a razão e deixa a paisagem e os rostos parecidos com ele próprio: secos, rígidos, hostis e à or da pele.

A região é petrolífera, o ar cheira a querosene e, no horizonte, as re narias cospem o fogo que jamais se apaga. Mas a vegetação é teimosamente vigorosa! Cresce sem restrição! Para cima, para qualquer lado… Para todos os lados! A mata se joga sobre as ruas. Não há calçadas, somente um tapete esburacado de asfalto estreito, sobre o qual des la uma infinidade de motos, carros e gente.

Tantas motos quantas nem São Paulo nunca viu! Tanta gente sobre as motos como nunca se pensou no Brasil: são sempre de 3 a 6 pessoas; e todos seguem numa caravana completamente destituída de sinais de trânsito, faixas de pedestres, capacetes, limites de velocidade, vias preferenciais e qualquer outra coisa minimamente orientadora.

O caos se auto-organiza. A bagunça é harmoniosamente regulada pelas buzinas que tocam o tempo todo. Ganha quem buzina mais, melhor, antes, sei lá… Há uma orquestra de buzinas sem maestro algum comandando a rural-urbanidade do lugar.

As casas comerciais são baixas, pequenas, escuras e têm suas placas comidas pela ferrugem. Mas nada é mais peculiar do que as feiras livres.

***

Meio dia. A sauna seca foi ligada lá fora!

Dentro do carro, estou suando mais que em toda a vida, transpiro sal. O ar entra quente pelas narinas e mal posso abrir os olhos. Evito me mexer… Vejo tudo ao redor: O carro não anda. Não tem espaço para circular. Estamos en ados no meio da feira e as barracas invadem a rua no meio dos carros. O povo também invade a rua, carregando, sobre a cabeça, os sacos, as lenhas, o mundo! Não há miséria onde estamos. Ninguém passa desnutrido. E só há negros mesmo; não vi um branco ainda. Não há muitos idosos tampouco. Morrem antes. A vida é dura!

Eu olho para tudo. As coisas aparecem diante de mim como ashes, quadros, retratos amarelados, pinturas envelhecidas encardidas de tempo e sol…

Tem um porco inteiro sobre a bancada. O rasgo fundo no pescoço é a única marca que o distingue do animal vivo. Daqui a pouco ele estará deformado a gosto do cliente, fatia por fatia. No chão, blocos de carne vermelha vão sendo defumados. O sol dá conta de tudo. As moscas dão conta da carne. Moscas. Tantas moscas como motos.

Mas a melhor exposição é a dos peixes. Mal podemos identificá-los. Não tem peixe fresco… Estão todos carbonizados, parecem de plástico enegrecido, torraram completamente, viraram esculturas mumificadas com olhos de vidro.

No demais, há muitas especiarias de sarcófago e gritos de briga. Ninguém leva desaforo para casa. Ninguém guarda desaforo no coração. Tudo segue… Todos falam alto e ao mesmo tempo. O tempo que nem parece o mesmo, aliás… Pareço ter iniciado uma viagem ao passado. Lembro-me dos lmes de época que retratam os mercados a céu aberto nas cidades europeias da Idade Média. Há um frenético “zanzar” para buscar o pão de cada dia, o arroz e os grãos todos, que aqui se comem com as mãos.

Até onde percebi, não há sanitarismo algum, pelo menos aqui em Akwa Ibom. Não existe rede de esgoto, existem fossas. E nem um único cesto de lixo. E o lixo… O lixo vai sendo socado contra a areia do chão à medida que se caminha sobre ele. Não demora a virar uma coisa só… Pisado! O chão e o lixo. O solo e seu “adubo”. Areia e plástico.

O motorista segue. Sinto o vento quente entrar pela janela. O sol pousa no carro e abre as asas sobre nós. Fecho os olhos, escondido…

(Confesso que a gente nunca se entendeu muito bem! Mas dessa vez, ele está me perseguindo! Só pode!) Vou fingindo que não é comigo! Logo mais, fim da tarde, o sol – ele mesmo – também vai se cansar da própria fúria e exibir-se, lindo, como uma imensa bola laranja escondendo-se no horizonte! Então virá a noite de candeeiros, sem luz elétrica nem nas ruas nem nos lares.

Minha pequena caravana segue adiante. Procurando o futuro.

Marcelo Quintela, em Missão: Salvar Crianças-Bruxas. Toda a renda proveniente da venda dos livros será investida nesse projeto social importantíssimo. Visite o site e saiba +.

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