Menos convencional

Ricardo Gondim

Deixe de ser tão convencional. Aposente as gravatas e calce as chinelas. Leia mais livros desnecessários. Na mesa dos otimistas, pergunte por que Florianópolis inundou e só morreram pobres. Quando estiver entre pessimistas fale de como a criação de Deus lhe deslumbra, pois enquanto os robôs andam desengonçados, sobram contorcionistas na China.

Deixe de ser tão convencional. Na assembléia do partido que vai escolher o candidato a prefeito, vote contra. Se vista de preto e acompanhe seu filho adolescente na festa “dark” e cite o Cazuza para a turma dele: “a burguesia fede, mas tem os seus encantos”.

Deixe de ser tão convencional. Defenda os patrões na assembléia do sindicato, mas seja o primeiro a levantar a mão na hora de votar pela greve por melhores salários. Na igreja, no culto dos empresários da segunda-feira, cite o texto da Bíblia: “Ouçam agora vocês, ricos! Chorem e lamentem-se, tendo em vista a desgraça que lhes sobrevirá. A riqueza de vocês apodreceu, e as traças corroeram as suas roupas. O ouro e a prata de vocês enferrujaram, e a ferrugem deles testemunhará contra vocês e como fogo lhes devorará a carne. Vocês acumularam bens nestes últimos dias. Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que vocês retiveram com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Vocês viveram luxuosamente na terra, desfrutando prazeres, e fartaram-se de comida em dia de abate. Vocês têm condenado e matado o justo, sem que ele ofereça resistência” – Tiago 5.1-6.

Deixe de ser tão convencional. Quando seus amigos discutirem jazz, diga que gosta de pagode, mas deixe claro que a bossa-nova lhe fascina. Leia tudo o que puder sobre o Chico Buarque de Holanda e comente suas letras com certa freqüência. No barzinho, pergunte se alguém gosta de canto gregoriano, mas reclame com o pároco que as músicas da igreja não atraem a moçada.

Deixe de ser tão convencional. Durma cedo e acorde de madrugada. Vá nadar, pedalar, correr enquanto seus amigos dormem, depois, na hora do almoço, peça a sobremesa mais calórica que puder e deixe todo mundo babando o guardanapo. Quando estiver entre atletas, converse sobre o Fim da Modernidade segundo o pensamento de Gianni Vattimo. Elogie o “bicho-grilo-naturalista-vegetariano-protetor do meio ambiente”, depois peça para explicar por que ele fuma. Aplauda os que fazem passeata contra o aborto, depois pergunte por que defendem a pena de morte.

Deixe de ser tão convencional. Leia o que Jacques Ellul escreveu sobre anarquismo cristão e proponha uma maturidade humana que torna desnecessário leis, instituições e governos. Mas não deixe de pagar seus impostos, não abandone sua comunidade de fé e se emocione na hora de cantar o hino nacional.

Deixe de ser tão convencional. Se algum religioso lhe acusar de relativista, incoerente ou mal resolvido, escandalize logo de uma vez e retruque com Raul Seixas: “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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