A solução

Tony Bellotto, na Veja On-line

O casal toma café enquanto lê os jornais. Ela lê O Globo, ele, a Folha de São Paulo. Entre um gole de suco e a mordida no pão, comentam sobre as estatísticas: cada vez há mais divórcios e os casamentos duram menos tempo. Esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei…ele cantarola.

Exatamente um ano antes, depois de vinte anos casados, durante o rotineiro café conjunto, com os filhos já crescidos e tendo conquistado uma boa situação financeira, o casal havia tomado uma decisão: realizar o velho projeto de ter cada um o seu quarto. Assim, acreditavam, permaneceriam juntos para sempre, livres dos pequenos desgastes do convívio promíscuo.

Passa a geléia?, ele diz. Não amavam, não passavam, ela cantarola, enquanto pega a geléia,Aquilo que já passei…

Após a reforma, que como sempre deu um trabalhinho e gerou algum desgaste, finalmente inauguraram os quartos separados. Resultado: continuaram dormindo juntos – agora revezando os quartos, uma noite dormem no quarto dela, outra no dele – poisdescobriram que o grande barato do casamento é justamente dormir juntos (tomar juntos o café da manhã é apenas uma decorrência feliz de dormirem juntos).

Bom, o queijo, ela afirma. Orgânico, ele diz. E cantarola: Por meus olhos, por meus sonhos, Por meu sangue, tudo enfim…

Foi só há menos de seis meses que eles descobriram que a solução para o casamento, e a garantia de longevidade do mesmo, não eram os quartos, mas os banheiros separados.

Brindam com as xícaras de café, e cantarolam juntos, como num filme musical americano da década de 40: É que peço a esses moços que acreditem em mim…

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for A solução

Deixe o seu comentário