Nem injustiça, nem racismo: o mundo é assim

Ester Cesário, 19, que acusa chefe de ter mandado que ela alisasse os cabelos crespos para trabalhar

André Forastieri, no R7

Ester tem dezenove anos e um mês de emprego. Começou dia primeiro de novembro. A estudante de pedagogia é estagiária de marketing em uma escola particular. Parte da sua função era receber os pais interessados em matricular os filhos, responder suas perguntas, mostrar o colégio.

Mas teve problemas logo no primeiro dia. Segundo Ester, a diretora da escola reclamou de uma flor presa em seu cabelo. Pediu para prender os cachos. Dias depois, reclamou de novo do cabelo de Ester. Disse que ia comprar camisas mais longas, para que Ester escondesse seus quadris.

Como você pode representar nosso colégio com esse cabelo crespo, perguntou a diretora?

Ester é negra. Foi à polícia. Registrou BO na Delegacia de Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. “A discriminação me afetou de tal forma que eu não consigo mais me olhar no espelho e mexer no meu cabelo. A diretora mexeu com meu emocional. Estou triste e choro a todo instante”, disse aos jornais.

Esta semana, Ester divulgou o caso na internet. Pegou fogo. Muita gente indignada. Acusações de racismo. Absurdo. Ester foi transferida para o arquivo, em uma sala em frente à direção. “Agora só arquivo documentos e carimbo carteiras dos alunos”, reclama a moça. A direção do colégio diz que ela não mudou de função.

É chato para Ester? Certamente. É raro? Claro que não. É injusto? Bem, quem trabalha representa a empresa onde trabalha. Mais ainda se é a face pública da empresa, lida com atuais ou potenciais clientes. Butique fina de shopping tem vendedoras magrinhas e elegantes. Recepcionista de academia não pode ser gordeta. Médico usa branco. Advogado usa gravata. Executivo americano usa camisa azul e calça cáqui de sexta-feira, dia casual.

Principal: é racismo da diretora do colégio? De longe, não me parece. Estivesse Ester dentro dos padrões estéticos que a tal diretora considera os ideais para fazer os pais abrirem a carteira e matricularem os filhos, não seria problema nenhum ela ser negra. Os padrões estéticos são idiotas? Bem, empresas de cosméticos ganham rios de dinheiro vendendo alisador para negras. Cirurgiões plásticos no mundo todo faturam forte corrigindo narizes, peitos, bundas e tudo mais de mulheres de todas as cores, todas procurando se aproximar do padrão hollywoodiano. Se os padrões são bobos, somos todos.

Soube esses dias de um jovem recém-formado em jornalismo. Estagiava em um grande jornal. Foi convocado para fazer uma entrevista em vídeo com um executivo. Foi e fez – de jeans, tênis e camiseta. A direção do jornal decidiu não colocar o vídeo no site. O jovem jornalista espumou. Mandou email coletivo, indignado, como o jornal podia fazer uma coisa dessas com ele? Que importa se estava de jeans? Ele fez seu trabalho ou não?

Não fez não. E dançou, merecidamente. Meu trabalho não é o que eu acho que é. É o que a empresa onde eu trabalho diz que é. Se o jornal exige que os profissionais que aparecem no vídeo usem terno, parte do trabalho é usar terno.

Ester está no final da adolescência. Como o cara do caso acima, deve se sentir no direito de vestir o que quer, ter o cabelo que quer, orquídea no cabelo – ué, contanto que eu faça meu trabalho, porque não? Porque não, querida. O mundo não funciona assim. Triste? Verdadeiro. Coisa mais útil que você poderia aprender em um estágio.

foto: Jefferson Coppola/Folhapress

Comentários

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12 Comentários

  1. hernan pimenta disse:

    Há verdade nisso. O mundo é assim. Mas a minha pergunta: poderia ser diferente?

  2. Discordo do autor. Penso que ele justifica e reforça um preconceito generalizado muito comum no Brasil, que é de julgar as pessoas pela aparência. No meu primeiro dia de trabalho no Canadá, conheci um rapaz negro de chinelo de dedos. Era o dono da empresa. Milionário. O buraco é mais embaixo, senhor André. No Brasil muitas pessoas usam a aparência como arma não apenas para ostentar status mas para perpetuar a pura Lei de Gérson.

    • O dono da empresa vai até de cueca pra empresa se ele quiser, isso não é exemplo que se dê, cara!

      • Adriana Abreu disse:

        Sempre tem gente disposta a distorcer o que alguém fala com boa intenção. Tsc, tsc, tsc pra vc, Isaías.
        Sim, eu concordo que o autor do texto foi infeliz, confundindo modo de se vestir com tipos naturais de cabelo.
        Como já foi dito, pedir que seu empregado alise o cabelo é demais! Pedir coerência entre o cargo/função e o vestuário, ok.
        Pior: ele apenas reforça a ideia de que não se deve fazer nada contra os padrões de beleza absurdos impostos pela indústria do entretenimento. Ah, me poupe!

    • Marcio disse:

      Vai de chinelo de dedo para vc ver se o seu patrão não te finca o pe na bunda !
      minha mãe sempre falou
      manda quem pode obedece quem tem juizo ! acho que foi o maior redemoinho em copo dagua do mundo ela devia manter a postura teve uma oportunidade unica o tanto de pessoas andariam de armany para poder conseguir um estagio ! e essa besta fazendo um papel desses ! acho que se ela tivesse amarrado o cabelo da primeira vez e corrigido suas roupas a diretora teria parado os comentarios nisso !
      inocentes são aqueles que acham que aparencia não conta, as pessoas avaliam o primeiro contato uma ma primeira impressão faz as pessoas perderem os clientes e seu vestuario e seu cartão de visita !

  3. Sou pedagoga e concordo integralmente, que é preciso discrição no vestuário. É natural que durante o expediente, os quadris devem chamar menos atenção que a competência. Talvez a blusa não estivesse indiscreta; mas fosse recomendável uma blusa que cobrisse mais.

    Mas alisar o cabelo, já é demais. Acho que uma profissional ser destratada no ambiente escolar por ter cabelos crespos, é a prova de que os valores disseminados às nossas crianças (alunos e filhos) estão podres desde o lar, até a formação educacional, organizacional e por aí vai… 

  4. Correto. Talvez não seja o suprassumo da perfeição, mas é o correto. Seguranças devem ter “jeito de segurança” e não de palhaço, executivos devem parecer executivos, crentes devem parecer crentes e blogueiros devem parecer blogueiros ‘-‘

    • O Corneteiro disse:

      O que você quis dizer com crentes devem parecer crentes?
      Os homens devem ir para igreja só de terno com a Bíblia debaixo do suvaco com aquele calorão?
      As mulheres não devem raspar nem o couro cabeludo e “ostras cositas mais” e usar vestidos até o calcanhar?
      Sai dessa lama cara, isso não “rola”… essa coisa de gueto e camisa de força uniformizada de ceertas igrejas é tão fajuto e preconceituoso (opressor) e me parece que isso vai dar na intolerancia… Ou você deve estar de gozação mesmo!
      Quanto ao texto, realmente pegou mau o cara confundir o cabelo crespo com a justificativa preconceituosa sutil da boa aparencia. Cada pessoa tem suas características especiais. Infelizmente estamos num tempo em que a ditadura de certos moldes é prevalecente como o tipo anglo-saxão… Olhemos para todos nós para ver como temos um pézinho na cozinha. Não temos nada haver com os gringos… temos é complexo de vira-lata e é uma pena em não se perceber como a nossa raça misturada é linda pra caramba.
      Infelizmente, a gente não tem alta estima para perceber isso e este caso não será o último incidente… A luta continua, todos contra o preconceito e o racismo.

      O Corneteiro

  5. Luana disse:

    O rapaz do exemplo tinha a opção de ir vestido socialmente… Em nenhum momento fala-se que a estagiária estava com os cabelos mal arrumados… Os cabelos eram crespos… Não era uma questão de trocar de roupas ou enfeites de cabelo, mas sim de “mudar o tipo” de cabelo que ela tem… Completamente preconceituoso e marcado por um estereótipo branco vigente em nossa sociedade…

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