Teletransporte

Helena Beatriz Pacitti

Estava fazendo a minha peregrinação de dona de casa pós viagem, que inclui a passagem pelo banco, correios, loja de consertos e supermercado, aproveitando para matar a saudade das coisas do Brasil.  Por exemplo, aqui no Rio [de Janeiro], o pessoal do comércio tem o costume de colocar como som ambiente uma rádio local.  Acho que era a MPB FM, que só toca música brasileira.

Então, no corredor do supermercado, ouviu-se um grito repentino: “Ai meu Deus!”  exatamente no momento em que entrou o refrão da música “Você não me ensinou a te esquecer”, interpretada pelo Caetano Veloso*:

‘Agora que faço eu na vida sem você
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo…’

Todos se voltaram assustados, inclusive eu.  Vai que algum cliente passava mal, dor no peito, etc…(A gente que é médico pensa primeiro uma coisa assim).  Só que voz  era de uma senhora, nem tão nova nem tão velha, cabelos grisalhos, coque, vestido florido.  Corri para acudir, ela deu um passo à frente, levantou os braços em direção as caixas de som e continuou: “Ai meu Deeeeuuus… não posso ouvir essa música… que me lembro do grande amor da minha vida!”

Voltou-se para a turma do corredor, fazendo um volteio e  suspirou novamente: “ah, o amor da minha vida,agora eu viajei…”

Não dava para não sorrir.  Ninguém a reprimiu.  Um sentimento terno pairava nas adjacências, entre os legumes da feirinha e o setor de congelados.  Afinal, todo mundo já teve um grande amor, com ou sem música para lembrar.

Fiquei feliz duplamente: pela alegria daquela mulher e por conhecer pessoalmente o autor da letra que tanto a comovera.  Mas não disse nada a ela, claro, para que não tivesse um colapso de tanta felicidade.  Também me lembrei daquele texto delicioso do Rubem Alves (pois é, não me canso de repetir para todo mundo) sobre como surgem as nossas memórias: uma só palavra, feito um punhal,  é capaz de nos levar em segundos  a milhares de quilômetros ou a décadas de um tempo ou lugar.

A letra da música havia feito isso.  Quando o refrão começou, a senhorinha se transportou não sei para onde e para os braços de não sei quem.  O que tenho por certo é  o poder que tem a palavra que sai da boca e do coração.  Poder maior – e mais impressionante – que qualquer máquina de teletransporte já imaginada.

*Nota: A autoria original da canção é de Fernando Mendes, José Wilson e Lucas.

fonte: Timilique!

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