Homofobia não é crime

João Pereira Coutinho, na Folha de S.Paulo

É um erro comum: alguém escreve sobre o julgamento de Oscar Wilde em 1895 e o apresenta como o momento infame em que a sociedade vitoriana resolveu reprimir “o amor que não ousa dizer seu nome”.

Admito que essa versão faça as delícias das patrulhas, para quem Wilde virou mártir, ou santo. Mas, ironicamente, a perdição de Wilde não começou com a intolerância da sociedade vitoriana.

Começou quando o próprio decidiu limpar o seu nome das acusações “homofóbicas” do marquês de Queensberry, pai do seu amante Lord Alfred “Bosie” Douglas.

Se Wilde tivesse ignorado um mero cartão pessoal do marquês, onde este tratava o escritor por “sodomita”, jamais teria ido parar na prisão de Reading Gaol.

Mas Wilde, em gesto inusitado para seu temperamento irônico, não gostou que se dirigissem a ele como homossexual. Partiu para a Justiça, processando o marquês.

Foi no decurso do julgamento que o jogo virou e Wilde, de alegada vítima, passou a réu. Sobretudo quando a defesa do marquês resolveu arrolar como testemunhas alguns rapazes que tinham sido, digamos, íntimos de Wilde.

A Justiça não gostou e condenou o escritor. Não porque ele era homossexual, entenda-se -a “buggery”, mais do que um desporto, era até uma forma de iniciação entre “gentlemen” nos colégios de Eton ou na Universidade Oxford. Mas porque agitara as águas de forma demasiado ruidosa numa sociedade que gostava de manter os seus vícios em privado.

Hoje, a condenação de Wilde pode parecer-nos de uma hipocrisia sem limites. Não nego. Mas existe uma outra moral na história: valerá a pena criminalizar a homofobia, como Wilde tentou fazer ignorando os conselhos dos seus amigos próximos, quando se despertam no processo outros abusos inesperados?

Marta Suplicy entende que sim e, em artigo nesta Folha, defende lei para criminalizar o “delito”.

Infelizmente, a sra. Suplicy confunde tudo na discussão do seu projeto: homofobia; crime homofóbico e medicalização da homossexualidade. Como diria um contemporâneo de Wilde, Jack, o Estripador, vamos por partes.

Começando pelo fim, ninguém de bom senso defende que a homossexualidade é uma doença mental. Não é preciso consultar a Organização Mundial da Saúde para o efeito. Basta olhar para a história da espécie humana -e, mais ainda, para a diversidade do mundo natural- para concluir que, se a homossexualidade é loucura, então boa parte da criação deveria estar no manicômio.

De igual forma, ninguém de bom senso negará que persistem crimes medonhos contra homossexuais, seja no Brasil ou na Europa, porque os agressores, normalmente homossexuais reprimidos, não gostam de se ver no espelho.

O problema está em saber distinguir o momento em que uma aversão se converte em crime público. Porque a mera aversão não constitui, por si só, um crime.

Por mais que isso ofenda o espírito civilizado de Marta Suplicy, é perfeitamente legítimo que um heterossexual não goste de homossexuais. Como é perfeitamente legítimo o seu inverso.

Vou mais longe: no vasto mundo da estupidez humana, é perfeitamente legítimo não gostar de brancos; de negros; de asiáticos; de portugueses; de brasileiros; de judeus; de cristãos; de muçulmanos; de ateus; de gordos ou de magros. A diferença entre um adulto e uma criança é que o adulto entende que o mundo não tem necessariamente de gostar dele.

O que não é legítimo é transformar uma aversão em instrumento de discriminação ou violência. Não porque isso seja um crime homofóbico. Mas porque isso é simplesmente um crime.

E os crimes não têm sexo, nem cor, nem religião. Se Suplicy olhar para a estátua da Justiça, entenderá que os olhos da figura estão vendados por uma boa razão.

Pretender criminalizar a homofobia porque não se gosta de ideias homofóbicas é querer limpar o lixo que há na cabeça dos seres humanos. Essa ambição é compreensível em regimes autoritários, que faziam da lavagem cerebral um método de uniformização. Não deveria ser levado a sério por um Estado democrático.

foto: Pipoca de Bits

Comentários

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9 Comentários

  1. Cristiano disse:

    Perfeito…

  2. Robson Lelles disse:

    Excelente este trecho: 

    “Pretender criminalizar a homofobia porque não se gosta de ideias homofóbicas é querer limpar o lixo que há na cabeça dos seres humanos. Essa ambição é compreensível em regimes autoritários, que faziam da lavagem cerebral um método de uniformização. Não deveria ser levado a sério por um Estado democrático.”A menos, é claro, que se queira capitalizar votos a partir dos desequilibrados que apóiam a idéia. Aí passa a ser bandeira desfraldada, tingida com o sangue das vítimas dos próprios capitães – no caso, capitã MS – políticos do movimento.

  3. João Pereira Coutinho raciocina (sic) que ” é perfeitamente legítimo que
    um heterossexual não goste de homossexuais. Como é perfeitamente
    legítimo o seu inverso.”. Não posso deixar de pensar que racistas pensem
    de forma semelhante. Oras, porque não posso odiar negros? Porque não
    posso odiar mulheres? Porque não posso odiar índios? Do ódio para a
    ação, para a violência e o assassinato não resta sequer um passo. Se
    pretender criminalizar a homofobia é errado, porque não gostar “deles” é
    aceitável, então vamos logo legalizar o Partido Nazista e importar a
    Klu Klux Klan, afinal, ter ódio é legítimo e somos todos “adultos” para
    entender a diferença entre odiar e agir baseados pelo ódio… Não?

  4. Claudemir Gonçales disse:

    Lamentável essa “publicacação”, como pode existir um meio de comunicação que possa se dar ao luxo de desinformar, promover o preconceito e a discriminação e ainda mais fazer apologia ao ódio , esse jornal já pareceu beeeem mais sério! Lixo da cabeça? que tal limpar o lixo do jornal???   

  5. A criminalização da homofobia decorre de uma equiparação de direitos em relação às discriminações já tipificadas como crime referentes a negros, idosos, mulheres, religiosos, etc… não se está tentando privilegiar uma casta social em detrimento de outra, pelo contrário, tenta-se, diante do sabido sucesso de políticas contrárias ao preconceito, minimizar os efeitos danosos deste. Falacioso é o discurso que tenta disfarçar a necessidade urgente de criminalizar os atentados a que tantos estão sendo submetidos diariamente apenas pela orientação sexual, essa que, conforme o texto acertadamente afirma não é doença alguma. 

  6. ytse dino disse:

    Texto reducionista e falacioso. Partindo da sua lógica, se a homofobia não deve ser criminalizada, e que eu posso “não gostar” (leia-se reproduzir violências ideológicas pela rua e templos) de gays, automaticamente vc está defendendo que o racismo ou a intolerância religiosa também não são crimes. Ué, posso não gostar de negros e dizer que são inferiores aos brancos, posso dizer que todo muçulmano é terrorista, do mesmo jeito que (de acordo com vc) posso sair por aí dizendo que gay é tudo pervertido e depravado, simplesmente usando o suposto argumento de que “eu tenho o direito de não gostar, de achar errado”. Patético. Seu texto é inconsistente e sua argumentação é inválida.

  7. Mariaeduardarch disse:

    Ridiculoo, não sei como alguem com essa menTalidade possa escrever pra Folha. Voce deveria escrever pra algum jornal religioso, ou apoiar as ideias do jair 0bolsonaro. Vai estudar um pouco antes de ficar escrevendo merda.

  8. Anônimo disse:

    Se eu conhecer um gay que diga que não goste de heterossexuais, eu me corto. Gay não gosta de homofóbico e o mesmo, como apontado pelo texto, pode muito bem ser gay.

    Apesar de começar bem o texto a conclusão João Pereira Coutinho é fraca, não queremos “limpar o lixo que há na cabeça dos seres humanos”, queremos proteção legal contra o lixo que os outros pensam de nós.

    Outra falha é sobre o crime já ser crime. O crime contra a vida de uma pessoa é, logicamente, crime. O que se quer é torná-lo hediondo com penas mais brandas por basicamente ferir alguém sem motivo “real”.

  9. Ytse Dino,

    Não gostar de X é uma coisa, usar violência contra X é outra. 

    O Luiz Mott, a rainha dos militantes GLS, disse em entrevista ao Jô Soares que ele gosta dos heterossexuais porque quanto mais filhos eles tiverem, mais potenciais gays e lésbicas poderá ter no seu barco…

    Ou seja, ele tem todo direito de manifestar sua heterofobia, desde que não queira impôr sua visão particular aos outros, por meio da escola ou de outro aparato estatal. 

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