Só umas palmadinhas: evidências contra castigos físicos (sobre a ‘Lei das palmadas’)

Daniel M. Barros, no Psiquiatria e sociedade

Quando soube do projeto de lei que ficou conhecido como “Lei da palmada”, minha primeira reação foi negativa: a forma de educar deveria ser privada, responsabilidade dos pais e livre da ingerência do Estado, pensei. Além do mais, não adianta nada fazer um lei em que as pessoas não acreditam – segundo pesquisa do Datafolha, 54% dos brasileiros são contra essa lei.

O que se faz nessas situações? Pesquisa. São nesses temas em que existe um conflito entre direitos individuais e dever do Estado que dão margem a mais confusões, proliferando as opiniões destituídas de embasamento.
E como é comum acontecer em ciência, a pesquisa desbancou minha hipótese, e mudei de opinião: agora sou favorável a lei. Explico.

Em 2002 foi publicada a maior revisão sistemática da literatura científica sobre o tema, na qual mais de 300 artigos e teses foram estudados, buscando correlacionar o uso de castigos físicos na educação infantil com 11 parâmetros comportamentais, 7 nas crianças (obediência imediata, internalização moral, agressão, comportamento delinquente, qualidade da relação pais-filho, saúde mental, vitimização de violência física) e 4 nos adultos (agressão, comportamento criminoso, saúde mental e violência contra filhos e esposa).

O resultado é que os castigos físicos de fato aumentam a obediência imediata nas crianças (que é exatamente o objetivos das palmadas – ou seja, “funciona”), mas às custas de piora em todos os outros fatores: maior agressividade, mais comportamentos deliquentes, piora da saúde mental, piora no relacionamento, além de maiores riscos de espancamento, violência doméstica e comportamentos criminosos por parte dos pais. E ainda: menor internalização moral, ou seja, não educa.

Ok, o tema continua polêmico, pois se as evidências sugerem que o saldo das palmadas é ruim (e mais de 300 estudos pode ser considerado evidência suficiente), resta a dúvida se o Estado teria o direito de ferir a autonomia dos pais.

De saída me parece que sim, já que fere-se um direito (autonomia) em prol de um bem maior (saúde mental, proteção, melhor educação etc). Mas mais do que isso, um estudo sobre os países que aboliram legalmente os castigos físicos publicado esse ano, mostra que as 24 nações que assim procederam obtiveram ganhos interessantes: embora as leis sobre o tema sejam heterogêneas, em todos os lugares a população reduziu a tolerância aos castigos físicos após sua proibição oficial, o que se refletiu um maior proteção à integridade das crianças, melhores índices de saúde mental e melhora nos relacionamentos pai-filho. Ou seja, no geral é uma lei que muda a forma das pessoas pensarem, em benefício da sociedade.

Conclusão: mesmo que os brasileiros sejam contra a lei nesse momento, sua promulgação pode ajudar numa mudança cultural de menor aceitação dos castigos físicos; isso é interessante porque há evidências de que menos palmadas é melhor para todos. Ergo, mudo de opinião.

ResearchBlogging.org

Gershoff, E. (2002). Corporal punishment by parents and associated child behaviors and experiences: A meta-analytic and theoretical review. Psychological Bulletin, 128 (4), 539-579 DOI: 10.1037//0033-2909.128.4.539
Zolotor, A., & Puzia, M. (2010). Bans against corporal punishment: a systematic review of the laws, changes in attitudes and behaviours Child Abuse Review, 19 (4), 229-247 DOI: 10.1002/car.1131

“Lei da Palmada” Projeto de lei nº 2654 /2003 (Da Senhora Maria do Rosário)

dica do Leon Monteiro Sampaio ‎

charge: Humor da Terra

Comentários

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11 Comentários

  1. Petala28bh disse:

    Acredito q há uma busca por leis q acho poderia ser resolvido de outra maneira, a punição no caso de castigos físicos existe, num país onde pessoas interpretam leis da forma que lhes convém (p.ex. o caso do delegado q enquadrou o jogador por estupro por este tentar beijar a sua irmã força). precisamos educar as pessoas e não amarrá-las a um amontoado de leis e regras…

  2. Jorge Luiz disse:

    Continuo sendo contra essa lei. Recebi castigos físicos dos meus pais quando merecia e nem por isso tornei-me um delinquente ou mesmo alguém com problemas psicológicos. Conheço pelo menos umas 300 (fazendo referência aos 300 estudos sobre o caso) pessoas que também são gratas pelas palmadas. O que eu vejo hoje, na maioria dos casos, são crianças e adolescentes mal comportados, sem limites, que não respeitam a autoridades dos pais e que são frutos dessa pedagogia “filosófica” porém ineficiente. Infelizmente autoridade requer punição, e o Estado que o diga! Não sou a favor de torturar, espancar ou violentar uma criança, mas acredito que certas palmadas salvam nossas crianças de um futuro onde apanharam dos cacetes da policia. Essa lei é ridícula e fere a liberdade individual dos país educarem seus filhos da forma que considerarem a mais correta. O Estado que unificar nossas acoes e opiniões de uma maneira que já extrapolou os limites da liberdade.

  3. Esse projeto é realmente errado. Malditos regimes socialistas querendo dizer como devemos educar os nossos filhos!

  4. Gilberto Moreira disse:

     
    Todo mundo sabe que o diálogo é sempre melhor que a violência, mas não é essa a questão. Os pais que amam os seus filhos, ou seja, a maioria esmagadora, batem nos seus filhos somente quando é necessário e a contragosto. Uma lei que proíbe os pais de corrigirem seus filhos da única maneira que eles sabem, aprendida com os seus pais, é privar essas crianças da única fonte de educação familiar que elas têm. Afinal, essa lei não cria uma escola para ensinar a todos os pais do Brasil a educarem os seus filhos utilizando apenas a psicologia, aliás esse projeto seria inviável numérica e economicamente. Por isso o Estado não pode exigir dos pais um comportamento que para eles é desconhecido. Se assim o fizer, o Estado conseguirá o efeito inverso, uma geração de crianças mal-educadas, verdadeiros monstrinhos sem medo de qualquer autoridade, como já estamos começando a ver pelas ruas.

  5. Taty disse:

    Ótimo texto Daniel!
    Eu também era favorável às “palmadas educativas”, até ter minha filha e verificar que a longo prazo era extremamente prejudicial. Mudei completamente minha opinião e a forma de agir e vejo hoje os inúmeros benefícios de uma educação sem palmadas. E sim, é perfeitamente possível a imposição de limites sem palmadas. Uma criança que obedece por medo de palmadas é absolutamente diferente de uma criança que obedece por princípios morais e por satisfação em colaborar. E esta criança (sem palmadas) com certeza se tornará um adulto infinitamente melhor.
    Sem contar que as crianças ditas “problemáticas” (agressivas, violentas, ou extremamente passivas, com dificuldades de aprendizado, que se tornam adultos com transtornos de ansiedade e outros transtornos de personalidade) são crianças que apanham (mesmo que simples palmadas).
    As professoras convivem claramente com esse problema na escola, pois, uma vez que em casa o limite é a palmada e na escola, não é possível aplicar o mesmo “limite”, há uma bagunça generalizada na escola.
    Bjs!

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