As muitas faces do escritor

Ricardo Gondim

Há algum tempo afirmei que trato a literatura como a mais completa de todas as artes. Ainda penso assim. Para mim, o autor suplanta músico, escultor, cineasta, pintor. Não seria exagero chamá-lo de melhor fiandeiro, artesão, parteiro, despenseiro dos mistérios eternos. A Revelação dependeu de homens e mulheres ousarem grafar o imperceptível.

Gosto de tratar o escritor como um encantador, hipnotizador de serpentes. Ou talvez, feiticeiro – sua arte seduz. O escritor é especialista em magia, hábil na prática de criar  mundos fantásticos. Do seu condão, realidades inefáveis se tornam plausíveis. Ele é mestre no dom de misturar fato e mistério.

Escrever requer mais que técnica, carece de disciplina, mais que disciplina, exige talento. Alguns se debruçam sobre o texto e basta um átimo para nascer uma peça imortal. A maioria (eu, principalmente) argumenta, mas patina e não sai do lugar;  sua em bicas para compensar o pouco talento, mas acaba devendo a beleza inebriante da melhor literatura.

Em “Cartas a um jovem poeta”, Rainer Maria Rilke ensina o escritor a ser artista  e a aproximar-se de sua “vivência sexual”. Ele diz que escrever dá prazer sensual, erótico. Semelhante a qualquer intimidade, o literato se expõe a dor e prazer. Mas, teimoso, se arrisca. Galanteia, corteja, seduz.

Rilke concorda com o discípulo quando o admoesta a viver e escrever no “cio”. Que a tinta vire sêmen que fertiliza ouvidos e corações. Que de sua paixão venha à luz o imarcescível. Às vezes apaixonado e de tão enamorado, bem diagnosticou Álvaro de Campos, não passa de um ridículo.  Mas ele só ama o ato de redigir.  E tudo vira para o bordador de pensamentos, uma carta de amor ridícula: “Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”.

Hemingway, por sua vez, aconselhou que se cravasse a pena como quem espeta o touro na arena. Ao sentir vida e morte na espreita, sobre os ombros, o toureiro das metáforas, sente a verdade como imperativo. Redigir se torna sacerdócio vicário – ele se imola junto com a presa para salvar a vida.

Alberto Caeiro o igualou a um pastor de rebanhos. “Sou guardador de rebanhos./ O rebanho é os meus pensamentos/ E os meus pensamentos são todos sensações”. Redator de toda espécie zela pelo que acabou de compor com afeto campestre. Quem se despeja no que grava sempre se biografa, pois é sua vida que sangra. Se íntimos não conseguirem reconhecer o dono dos verbos logo no primeiro parágrafo, a página é apócrifa.

Vinicius de Moraes recomendou: “Troquem-se tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é poesia”. Escrever cria e dá forma ao fugaz; faz o inimaginável, próximo; traz o contraditório, que perambula no vazio, para perto do espírito. “O material da poesia”, diz o Poetinha, “é a vida”. E se é vida, então quem se aventura, considere seu ofício “a lenha preferida para a lareira do alheio”.

Escrever não se resume a organizar frases, nem a manter-se preciso. O escritor quer misturar-se ao anônimo que o devora. Eduardo Galeano narra em “O livro dos abraços” a experiência do pastor Miguel Brun durante uma missão evangelizadora entre os índios no Chaco paraguaio. “Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram esperando. O cacique levou um tempo. Depois, opinou: -Você coça. Coça bastante, e coça muito bem. E sentenciou: – Mas onde você coça, não coça”.

A palavra falada tem asas, a escrita, raízes. Uma vez anotada, ela permanecerá serva de quem a depura com os filtros de sua subjetividade. Traumas, alegrias, expectativas, decepções, fantasias, ódios fazem aquele que se apropria do artigo apaixonar-se ou desdenhar o que tenta compreender. Todo livro está sentenciado a infinitas interpretações – e quanto mais a página sobreviver ao tempo, mais complexo o desafio de decifrá-la.

Quem é escritor? Rilke responde: “Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse impedido de escrever”. Para conhecer os ungidos do Panteão das Letras: “Pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa da madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples ‘Preciso‘, então construa sua vida de acordo com tal necessidade”.

O redator deseja a graça de não rabiscar nada por encomenda. Ele sabe que em poucas linhas, narrativa, argumento ou poesia, ganha vida própria. Nunca é bom produzir boas argumentações como tarefa. Escrever é deixar-se conduzir a fins inesperados. Daí o autor buscar certo ócio, pois nota a importância de ser inútil para continuar essencial. Literatura se basta em si mesma.

Escrever e humilhar-se são quase sinônimos.  No ponto final, o texto merece suplantar o criador em excelência. E aquele que outrora se  considerava onipotente se regozijará em ver que seu esforço se tornou eterno – enquanto os dedos encarquilharam.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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