Natal: Subversão de Deus

José Barbosa Junior, no Crer é também é pensar

As músicas de Natal (e eu gosto muito delas!) sempre nos pintam um quadro majestoso do nascimento de Jesus. Dá para ver os anjos enchendo de luz o céu, uma estrela mais brilhante que o normal, parece que o clima era todo propício para O acontecimento, quase numa perspectiva hollywoodiana dos fatos. Muita luz, muita festa, gente importante, afinal, era ninguém menos do que o próprio Deus que ali encarnava… não poderia haver quadro mais rico e belo!

Porém, ao me deparar com as narrativas com que o texto sagrado nos brinda, um sorriso maroto me vem e a expressão sai com uma naturalidade assustadora: “Deus é um brincalhão!” Toda a lógica de um “mega evento” é subvertida pelas “personagens” desse acontecimento que toda a cristandade comemora: o Natal!

Em primeiro lugar, um anjo aparece a um velho sacerdote. Engraçado isso: o primeiro a saber é alguém que em breve “perderá seu posto”. O anúncio da vinda do messias é o fim do sacerdócio como até então se conhecia. Santa ironia! O sacerdote emudece, sua esposa engravida, o filho saltitante desde o ventre será aquele que anunciará o fim da velha ordem. Sua mensagem será simples, mas demolidora: O Reino de Deus chegou! O velho sacerdote já não será mais a ponte entre Deus e o povo. Sua alegria é saber do fim do seu ofício!

Entra em cena uma jovem, provavelmente uma adolescente. Seu nome: Maria! Como cantaria bem mais tarde o poeta, “Maria, Maria é um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta… quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida!” No quadro muitas vezes visto em presépios, pinturas e imagens, está uma adolescente grávida, ainda não casada… e com um “noivo” prestes a deixá-la por causa dessa gravidez. Uma adolescente disposta a enfrentar tudo por causa de uma “revelação”. Mas não deixa de ser, para quem vê, uma simples adolescente grávida sem estar casada. Nada bom!

O homem que pensava em deixar a adolescente também não  era um sujeito importante. Morava em Nazaré, pequena aldeia da Galiléia, lugar de gente pobre, que saiu de sua terra para tentar a vida no pequeno povoado. Mesmo sendo descendente do grande Rei Davi, era na terra pobre e de onde nada se esperava que morava e trabalhava este rapaz. E ainda pior, por conta de um decreto do então imperador, ainda teve que viver momentos de “retirante”… com sua noiva adolescente, grávida, à tiracolo. Um pobre carpinteiro, trabalhador braçal, morador do “fim do mundo”. Eu não o convidaria para fazer parte da grande história da humanidade!

O lugar. Não é uma personagem, mas o lugar onde a cena se dá há de ser mencionado: um estábulo! Lugar de animais, fétido, rústico, pobre também. A história que até agora já envolveu um sacerdote prestes a perder seu ofício, uma adolescente grávida e um retirante pobre tem como pano de fundo uma estrebaria… como imaginar algo bom de um “quadro” desses?

Mas nada há de tão ruim que não possa piorar: o menino nasceu! Ali, envolto em faixas, foi colocado sobre uma manjedoura (isso mesmo, um cocho para se dar comida aos animais). E os anjos (personagens divinos da história) diziam que o tal menino era o cumprimento de toda a profecia que permeava o povo: o Messias havia chegado! Deus fazendo morada entre os homens. O verbo se fazia gente, disse um outro poeta.

E, como se não bastassem todas essas pessoas pobres, toda essa cena insólita, a quem mais foi anunciado o “acontecimento”? A uns pobres pastores, que, de madrugada, guardavam seus rebanhos. Os pastores eram gente da “base da pirâmide” social. Gente desqualificada para ser testemunha de um grande acontecimento, muito mais na presença de um “Rei”. Provavelmente analfabetos, tinham como companheiras as ovelhas e alguns outros animais. Não deviam entender nada de profecias, de religião, de rituais. Gente mais “do povo” impossível! E lá foram eles, convidados pelos anjos para testemunharem A cena!

Algum tempo mais tarde, outros visitantes apareceram. Tudo indica que o cenário já era outro, mas as pessoas eram as mesmas: a adolescente, agora mãe; o jovem carpinteiro da cidade do interior e o menino, que crescia e mal sabia que já era motivo de inveja e planos de assassinato. Esses visitantes tinham algo de muito estranho em toda essa história: não eram da mesma religião! Não esperavam o  “messias”! Nem sequer sabe-se se adoravam ao “Deus verdadeiro”. Eram magos! Estudavam as estrelas… sim… astrólogos! Do oriente! Há algo de muito errado nestes visitantes! Como assim? Homens que não conhecem “a verdade” podem adorar aquele que é A verdade? Será que A verdade revelada em uma pessoa era maior que a verdade até então revelada em meras palavras? De qualquer forma, mais uma vez há uma subversão no quadro: homens de outros povos, de outros “deuses”, de outras “práticas” estão ali, adorando o menino, dando-lhe presentes. E voltam para as suas terras, ainda magos, ainda estudiosos das estrelas…

Um sacerdote em processo de “des-sacerdotização”; um bebê que se agita desde a barriga da mãe; uma adolescente grávida; um pobre carpinteiro do “fim do mundo”; um lugar fétido e pobre; uma criança indefesa; a ralé da sociedade; e, por fim, magos astrólogos do oriente. Se quisesse ainda poderíamos colocar um casal de velhos: ele, que só esperava ver o menino para morrer, e ela, viúva de 84 anos, que nada mais fazia na vida a não ser ficar no templo…

Sinceramente, continuo sorrindo diante do absurdo que é o “quadro” do nascimento de Jesus. Pura subversão de um Deus que pouco se importa com a “apresentação” e ama gente que provavelmente eu e você não convidaríamos para tal espetáculo! O Reinado de Deus chegou, porque seu Rei desembarcou em e por meio de tanta gente desqualificada e despreparada. O Reino é subversivo, o quadro é subversivo, o Evangelho é a subversão!

Natal é Deus quebrando paradigmas, dogmas, leis, ritos, fronteiras, barreiras. Natal é Deus na sua mais pura e bela subversão… seu amor!

Feliz Natal!

Comentários

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1 Comentário

  1. Aff, “natal” é uma festa pagã e uma data comercial como todas as outras, mais nada. Jesus não nasceu dia 25/12 e não ficaria nada contente com toda essa hipocrisia institucionalizada. Feliz natal? #NOT!

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