Jean Wyllys: ‘Religiosos são livres para dizer no púlpito de suas igrejas que a homossexualidade é pecado’

Fernando Rodrigues entrevista Jean Willys

Fábio Brandt, na Folha.com

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), ganhador do Big Brother de 2005, afirmou em entrevista ao UOL e à Folha que padres e pastores devem ser sancionados por atacarem homossexuais em seus programas de TV e rádio e por promoverem programas de “recuperação” ou “cura” da homossexualidade. Segundo ele, a punição deve ser estabelecida em lei.

“A afirmação de que homossexualidade é uma doença gera sofrimento psíquico para a pessoa homossexual e para a família dessa pessoa”, disse.

“Eu acho que tem que haver uma sanção. Eu quero que a gente compare, simplesmente, com outros grupos vulneráveis para saber se é bacana. Alguém que chegue e incite violência contra mulheres e contra negros, ou contra crianças ne sse país… Vai ser bem aceito?”.

Jean Wyllys falou sobre o assunto no programa “Poder e Política – Entrevista”, conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues no estúdio do Grupo Folha em Brasília. O projeto é uma parceria do UOL e da Folha.

O deputado afirmou que os religiosos “são livres para dizerem no púlpito de suas igrejas que a homossexualidade é pecado”. O problema seria o uso de concessões públicas para “demonizar e desumanizar uma comunidade inteira, como é a comunidade homossexual”.

Wyllys também criticou mudanças feitas pela senadora Marta Suplicy (PT-SP) à ao Projeto de Lei 122 de 2006, que propõe tornar crime atitudes homofóbicas -como já ocorre com o racismo no Brasil. Segundo ele, o texto apresentado por Marta “foi redigido pelo senador Demóstenes Torres [DEM-GO], que não é homossexual e, muito pelo contrário, não tem muita simpatia pela comunidade homossexual”.

Folha/UOL: Olá, deputado. Muito obrigado por ter aceitado o convite. Eu começo perguntando sobre o projeto de lei que, se aprovado, vai tornar crime atitudes homofóbicas, como já ocorre com o racismo no Brasil. No ponto em que está tramitando o projeto agora, o sr. acha que ele está com um texto adequado?
Jean Wyllys: Bom, primeiro eu quero agradecer o convite também e saudar os internautas. Eu acho que da maneira como ele se encontra [o projeto], nesse ponto da tramitação, o substitutivo apresentado pela senadora Marta Suplicy [do PT-SP] ao projeto e foi redigido pelo senador Demóstenes Torres, do Democratas de Goiás, não agrada à Frente Parlamentar LGBT, nem agrada a setores do movimento LGBT. Da maneira como esse substitutivo foi apresentado… E o próprio texto cria um novo tipo penal e reduz a homofobia a uma mera questão de agressão e assassinatos, né. Como se a homofobia se expressasse apenas e tão só nessa forma letal. E essa forma letal da expressão da homofobia, ela já é tratada no Código Penal. Ou seja: qualquer pessoa que cometa lesão corporal ou assassinato, o Código Penal já prevê penas para o assassinato e para a lesão corporal. O que o Código Penal não prevê é um motivação homofóbica. E aí o projeto, o parecer anterior que é da senadora Fátima Cleide [do PT-RO] é muito mais amplo, porque ele contempla, ele prevê a motivação homofóbica, mas ele trata de outras expressões da homofobia, como a injúria por exemplo.

Folha/UOL: O sr. poderia descrever o que seria adequado que esse projeto de lei estabelecesse como crime de homofobia?
Jean Wyllys: Primeiro é preciso promover o discernimento, né. Tem muito preconceito em relação a esse projeto, muita distorção, muitos equívocos sendo divulgados em relação a esse projeto. A ideia, por exemplo, de que se o projeto for aprovado ninguém vai poder chamar o outro de veado numa partida de futebol, torcidas rivais não vão poder fazer piadas nesse sentido.

Folha/UOL: Isso não é o caso?
Jean Wyllys: Não é o caso. A intenção de divulgar e de espalhar esse tipo de equívoco é de jogar a sociedade civil, a opinião pública, contra o projeto. O projeto prevê a proteção da comunidade LGBT contra a injúria e contra o impedimento do acesso ao direito. Por exemplo: é um direito meu expressar publicamente meu afeto no teatro, no shopping center e não ser banido desses lugares por conta disso.

Folha/UOL: A relatora [do projeto de lei que criminaliza a homofobia] é a senadora Marta Suplicy.
Jean Wyllys: Sim.

Folha/UOL: Em quais aspectos o sr. acha que ela deveria mudar de opinião para fazer alguma adequação ali? O sr. teria como dizer especificamente algo que ela deveria fazer?
Jean Wyllys: Eu acho que o texto da senadora, o substitutivo da senadora Marta Suplicy, que foi redigido pelo senador Demóstenes Torres [do DEM-GO], que não é homossexual e, muito pelo contrário, não tem muita simpatia pela comunidade homossexual, esse texto é defasado por exemplo no que diz respeito à própria discussão da matéria penal. Ou seja, nós, militantes dos direitos humanos, a gente trabalha muito na direção do direito penal mínimo. Então, não nos interessa penas de prisão de muito tempo de reclusão na sociedade como forma de justificar ou de se dizer que se está enfrentando a homofobia. Eu penso por exemplo que as penas alternativas e as multas e as prestações de serviço têm que ser pensadas no caso das penas no caso das injúrias praticadas contra homossexuais em programas de televisão, quando isso acontece, por pessoas públicas, com funções públicas, por estabelecimentos, donos de estabelecimentos comerciais que permitem essa discriminação. Então esse é um ponto do texto que me incomoda bastante, a criação de um novo tipo penal e não a dilatação dos tipos já previstos, como no caso, todo o arcabouço aí do Código Penal que protege a comunidade judaica e protege a comunidade negra, incluir nesse arcabouço aí a discriminação por orientação sexual e por… Porque é uma coisa que é preciso se dizer e não se diz nunca, claro, trata-se de jogar a opinião pública contra o projeto de lei, é que o projeto de lei, o PL 122 [de 2006], ele inclui entre essas discriminações por religião e por etnia a discriminação a pessoas com deficiência física, a idosos e homossexuais que são grupos vulneráveis.

Folha/UOL: Vamos num caso concreto. No shopping está um casal homossexual trocando carinhos e por algum motivo alguém da administração do shopping center retira essas pessoas de dentro do shopping center. Que tipo de pena caberia nesse caso na sua avaliação?
Jean Wyllys: Uma multa com dinheiro revertido para programas sejam públicos ou de Organizações Não Governamentais que promovem a cidadania gay, por exemplo. No caso de adolescentes, por exemplo, que injuriam… Quando pegos em flagrantes, claro, porque tem que ter o flagrante… Injuriando ou atacando, como acontece muito, talvez você não saiba disso, mas acontece bastante, de adolescentes ou pós-adolescentes passarem de carro e jogarem pedras e ovos nas travestis, quando pegos essas pessoas poderiam prestar serviços à comunidade por exemplo. Talvez em organismos que tratem exatamente desse grupo aí que eles atacaram, as travestis e transexuais.

Folha/UOL: No relatório da senadora Marta Suplicy é tratado o caso de cultos religiosos. E há uma certa leniência em relação ao que acontece dentro de templos religiosos. Como ficou essa parte e o que o sr. acha dessa abordagem.
Jean Wyllys: Eu acho que as religiões, elas têm liberdade para propagar da maneira que elas melhor escolheram, definiram, os seus valores. A sua concepção de vida boa. Isso é uma coisa garantida na Constituição e que a gente tem que defender. As religiões são livres para isso. E os pastores são livres para dizer no púlpito de suas igrejas que a homossexualidade é pecado, já que eles assim o entendem. Entretanto, eu não acho que os pastores que estão ali explorando uma concessão pública de rádio e TV tenham que aproveitar esses espaços para demonizar e desumanizar uma comunidade inteira, como é a comunidade homossexual.

Folha/UOL: Como tratar isso?
Jean Wyllys: Isso é uma injúria. É uma injúria contra um coletivo. E essa injúria motivada pela homofobia, ou seja, a promoção da desqualificação pública da homossexualidade e da dignidade, e ferindo a dignidade dos homossexuais, ela tem que ser enfrentada.

Folha/UOL: O texto, tal como está neste momento no Senado, não trata disso?
Jean Wyllys: Não trata disso. Muito pelo contrário. O texto inclusive… Eu até admiro e louvo os esforços da senadora Marta Suplicy, que é uma pessoa que eu admiro bastante, de tentar uma negociação com a bancada conservadora do Senado. Nesse intuito de manter essa negociação ela colocou, inclusive, um parágrafo em que ela salvaguarda a liberdade de crença e de opinião de religiosos. Que é uma coisa que deixou, inclusive, a comunidade negra assoberbada e a comunidade judaica também assoberbada. Porque foi uma conquista do povo judaico e da comunidade negra, uma conquista muito grande de proteger esse coletivo da injúria praticada inclusive por religiões. Então quando a senadora inclui esse parágrafo, ela ameaça conquistas já feitas.

Folha/UOL: Os pastores, os padres que tratarem de homossexualidade em seus cultos, sobretudo na televisão. Eles, se referirem-se de maneira agressiva em relação [aos homossexuais]…
Jean Wyllys: Se incitarem a violência, se justificarem as violências todas praticadas no país contra homossexuais por meio de um entendimento que a homossexualidade é uma degeneração, para usar a palavra que eles costumam usar, que é uma abominação, que é uma degeneração, que a homossexualidade é uma doença, que a homossexualidade é um pecado grave e mortal, aí sim eu acho que isso tem que ser enfrentado. E tem que ter uma lei que preveja esse tipo de crime.

Folha/UOL: Enfrentado, criminalizado?
Jean Wyllys: É. Enfrentado é criminalizado. Criminalizado. E quando eu falo criminalizado é entender isso como injúria a um coletivo. Uma atitude difamatória de um coletivo, que merece o respeito.

Folha/UOL: Um padre, um pastor que na televisão disser: “Homossexualidade é incorrer num pecado mortal. Deve ser combatida”. Quem disser isso nesse caso mereceria qual punição?
Jean Wyllys: Nesse caso específico, dizer “homossexualidade é pecado”… Não, eu não vejo porque ele tenha que ser combatido porque ele vai inclusive justificar essa afirmação dele. Com base em que ele diz que a homossexualidade é pecado.

Folha/UOL: Como seria uma frase inaceitável?
Jean Wyllys: É. Por exemplo, sabe o que é inaceitável? São as igrejas, por exemplo, financiarem programas de recuperação e de cura de homossexualidade. E o pastor promover esse tipo de serviço nos seus cultos e dizer: “Vocês, homossexuais, venham para os nossos programas de terapia e de cura de homossexualidade”. Homossexualidade não é uma doença. E afirmação de que homossexualidade é uma doença gera sofrimento psíquico para a pessoa homossexual e para a família dessa pessoa.

Folha/UOL: Nesse caso, que tipo de punição poderia ser aplicada?
Jean Wyllys: Olha, eu não sei assim…Você fica me perguntando punição em especial… Eu não me sento à vontade para dizer que punição…

Folha/UOL: Mas deveria haver alguma sanção?
Jean Wyllys: Eu acho que tem que haver uma sanção. Eu quero que a gente compare, simplesmente, com outros grupos vulneráveis, para saber se é bacana. Alguém que chegue e incite violência contra mulheres e contra negros, ou contra crianças nesse país… Vai ser bem aceito? O PL 122 da maneira como estava antes, no parecer da senadora Fátima Cleide, ele era muito eficaz no sentido de proteger a dignidade da pessoa humana da população LGBT brasileira que, oficialmente, corresponde a 19 milhões de pessoas. Da maneira como ele estava ele enfrentava os números assustadores de homicídio de homossexuais no Brasil. Até novembro deste ano [2011] foram mortos 233 homossexuais. E no ano passado [2010] foram mortos 266.

Os homossexuais além de serem vítimas da violência urbana que você é vítima, que todos nós somos vítimas independentemente da orientação sexual, eles são vítimas de uma violência específica que só se abate sobre eles. E essa violência se abate pela condição deles. Pela orientação deles, pela existência deles. Essa violência tem que ser enfrentada. Isso não é uma coisa só do Brasil. A Hillary Clinton, secretária de Estado [dos EUA] americana se posicionou na ONU, recentemente, dizendo que os Estados Unidos iriam colocar como condição para a ajuda internacional o país proteger os direitos dos homossexuais. Então esse é um grupo considerado vulnerável não só por nós aqui da Frente LGBT. Esse é um grupo considerado por outros organismos de proteção aos direitos humanos do mundo inteiro.

Folha/UOL: O limite para esse tipo de discurso do qual estamos falando aqui, o discurso condenável sob a ótica dos argumentos que o sr. apresentou, por parte de religiosos… Quando a gente fala da televisão, estamos falando de um meio de comunicação de massa. Aparece um pastor, um padre falando algo dessa natureza. Convidando homossexuais para entrarem em programas de recuperação ou sei lá como eles chamam isso. E quando eles falam isso no ambiente do templo, da igreja deles. É a mesma coisa na sua opinião?
Jean Wyllys: Não. Na minha opinião não é a mesma coisa.

Folha/UOL: Aí é diferente?
Jean Wyllys: Eu acho que, nos púlpitos das igrejas, os padres têm o direito de falar o que eles quiserem para sua comunidade de fé e justificar da maneira…

Folha/UOL: Dentro da igreja?
Jean Wyllys: É. Eu só acho que nas concessões públicas de rádio e TV isso não poderia ser feito. Porque a concessão pública é uma concessão de nós como sociedade. E nós como sociedade temos uma Carta Magna como princípio que nós rege. O princípio soberano da Constituição Federal de 1988, a Constituição Cidadã, é o princípio da dignidade da pessoa humana. Então conceder uma exploração, dar o direito de exploração a um grupo, ou a uma igreja, ou a uma pessoa que fere os princípios constitucionais não é a coisa mais certa. Leia +.

foto: Lula Marques/Folhapress

Comentários

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3 Comentários

  1. Adriano disse:

    E eu achando que a constituição me garantisse liberdade plena de expressão em qualquer lugar, olha! Mas é só nó púlpito da igreja…

    Que bom podermos contar com estes iluminados vencedores de reality show, pra o esclarecimento geral da sociedade brasileira a respeito de seus direitos. Uma maravilha mesmo.

  2. Ele é indiscutivelmente um grande idiota, defensor de uma “causa” totalmente perdida. Existem homossexuais e degenerados assim como ele. Os homossexuais, são pessoas que, por um motivo alheio ao meu conhecimento, desenvolveram sentimentos e desejos carnais por pessoas do mesmo sexo. Esses, são pessoas que não se jogam à vista de todos, fazendo engolirem à força sua condição. Os degenerados como esse artista e deputado (tentam a todo custo), levantar a bandeira de que isso é normal e que o mundo deve aceitar TUDO (mas tudo mesmo), que eles quiserem fazer. Clodovil Hernandez era homossexual e sempre teve meu respeito… Jean é um oportunista, criador de polemica que merece meu desprezo.

  3. Ap. P. Pardim disse:

    Eu acho que o problema não  contra os gays e sim contra as lei que estão sendo criadas sobre o pretexto de proteção que na verdade não passa de favorecimento a uma minoria que querem botar uma amor dassa não nos evangélicos mas em toda sociedade, para então sobre o aparo da lei ficarem livres para fazerem o que bem querem inclusive impor aos nossos filhos as praticas absurdas que ferem os valores familiares da nossa sociedade.
    E isto sem mencionarmos o que Deus acha sobre isto pois Deus abomina totalmente esta pratica, aponto de destruir duas cidades por causa disso ( Sodoma e Gomora).  
    E para a vergonha nossa ainda há pessoas que votam neste tipo de políticos de ocasião.
    AP. P.Pardim Teólogo e Bacharel em Teologia.    

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