Fui pastor de um ex-BBB

Mário Freitas, no blog Fé Ativa

Entre 2002 e 2005, fui pastor da Igreja Presbiteriana da Silva Jardim,em Curitiba. Em nossa equipe pastoral, tive a honra de trabalhar com o Pr. Jorginho Batista, que fundou a Associação de Surfistas de Cristo do Paraná e o ministério urbano GodXtreme, e que servia a equipe como pastor de jovens.

O BBB4 aconteceu entre janeiro e abril de 2004, e um de seus participantes foi Edílson Buba, empresário da noite curitibana. A primeira vez que vi ou ouvi falar de Buba foi através da própria TV. Ele era sócio de uma casa noturna na capital paranaense, e há quem diga que seu ingresso no BBB teve duas intenções: promover seu estabelecimento e seus negócios, e estabelecer-se como candidato a cargos políticos no futuro. Não houve tempo para atestar a veracidade dessas intenções.

Buba foi eliminado do programa nas primeiras semanas. Pouco depois, foi envolvido num escândalo de proporções nacionais: foi preso no aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, por portar considerável quantidade de ecstasy.

Passados alguns dias, fui procurado pelo Pr. Jorginho. Ele me trouxe uma informação que eu desconhecia: Buba era seu amigo de infância, e ele queria visitá-lo na prisão. Autorizei imediatamente. O resultado foi favorável: Jorginho visitou o amigo, orou com ele, e voltou testemunhando que o ex-BBB estaria bem disposto a ouvir mais sobre o evangelho.

Após alguns meses, Buba saiu da cadeia, e imediatamente começou a freqüentar a Igreja Presbiteriana da Silva Jardim. Ele visitava nossos gabinetes pastorais durante a semana, pedindo oração e apoio. Ao sair da cadeia, seus negócios haviam ruído, ele estava desempregado e contraíra muitas dívidas. Buba estava à beira de uma depressão.

Curiosamente, mesmo em meio a todas as suas dificuldades, o ex-BBB iniciou na ocasião uma ONG chamada “VIDA LIMPA, VIDA LIVRE”, visando apoiar jovens no processo de libertação das drogas. A proposta era linda, mas suas preocupações financeiras eram maiores que seus planos. Por vários meses, Buba sobreviveu de cachês avulsos de programas de TV, como o de Gilberto Barros, com jogos e entrevistas envolvendo supostas “celebridades”, cantores decadentes e sobreviventes de reality shows.

Certo dia, fui visitado por Buba em meu gabinete. Ele estava decidido: queria entregar em definitivo seu coração a Jesus. Chamei Jorginho para participar daquele momento. Foi lindo, oramos juntos e celebramos aquela vitória. Ele disse que queria ser usado por Deus dali por diante, e que sua história até o momento não havia sidoem vão. Masmesmo aliviado e sentindo-se acolhido por Cristo e pela igreja, Buba não escondia seu desespero financeiro.

Poucas semanas depois, recebi um telefonema de Jorginho: “Nosso amigo Buba acaba de fazer uma grande bobagem”, ele dizia. Referia-se ao fato de que Buba havia posado num ensaio fotográfico de uma revista de conotação homossexual. Seu desespero financeiro vencera.

Saí de Curitiba em dezembro de 2005, indo pastorear a Terceira Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte. Já em BH, recebi a triste notícia da morte do ex-BBB, acometido de um câncer que o consumiu com extrema rapidez.

Não acredito na teologia punitiva do castigo, pois pessoas que nunca posaram nuas ou participaram de reality shows também morrem de câncer todos os dias. Também não posso julgar a sinceridade da conversão de Buba, que eu presenciara, mas que tornara-se questionável mediante sua decisão posterior. No entanto, se eu já não suportava a idéia de um programa de TV naqueles moldes, minha aversão pelo BBB só fez aumentar após conhecer Buba.

Nesses tempos pré-BBB, principalmente considerando a promessa de que haverá participantes “evangélicos” na próxima edição, creio que a igreja precisa posicionar-se com clareza contra esse tipo de entretenimento, que tem por princípios e “chamarizes filosóficos” a imoralidade, a pressão psicológica, a promoção intencional de intrigas e a instabilidade emocional dos participantes. Sem contar que as “oportunidades” geradas com o BBB não costumam ser as melhores: basta observar que os ex-BBBs costumam tornar-se capa de revistas pornográficas, animadores de festas e raves, coadjuvantes em programas irrelevantes de TV e militantes políticos por causas amorais.

Pense nisso. É possível viver sem precisar dar qualquer espiadinha.

Mário Freitas (@prmariofreitas) é presidente da MAIS – Missão em Apoio à Igreja Sofredora (@MissaoMAIS), que trabalha no Haiti, Burundi e Sudão ajudando a comunidade cristã. É casado com Giovana, e pai de Pietra e Chiara. Vive em Vila Velha, ES.

Comentários

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5 Comentários

  1. Regina Farias disse:

    Que viagem…
     
    E se o autor não crê na tal teologia citada, para quê esse texto tendencioso, essa ‘mensagem subliminar’?
     
    Sinceramente, tal depoimento me passa, de maneira muito forte, um desfilar de vaidades. Atente-se para quantas vezes foi empregada a primeira pessoa do pronome pessoal do caso reto, a começar pelo título da postagem (ainda que oculto)
     
    Ufa, ainda bem que a salvação independe de relatos pessoais de certos pastores.
    E ainda bem que ninguém precisa de gabinete pastoral para se entregar a Jesus.
    E ainda bem que Deus trata cada um de forma estritamente individual, independentemente de quem tenha sido ‘meu’ pastor aqui na terra.
    E ainda bem também que não precisamos de nenhum pastor para nos dissecar, traçando perfil psicológico, sociológico e histórico ‘post mortem’ e então deixar nas entrelinhas um achismo recheado de sutilezas preconceituosas como regras de conduta para se ganhar o céu. E aqui vale o emprego da primeira pessoa do dito pronome, pois ainda bem que EU, honestamente, não acredito MESMO na teologia punitiva do castigo.
     
    Que alívio só existir UM ÚNICO e JUSTO JUIZ!!!
     
    Toda essa apelação emocional apenas para mostrar-se desfavorável a um programa de entretenimento?  Para impor um ponto de vista?
     
    E ainda querer que ‘a igreja’ se posicione para impedir que suas ovelhas assistam ou participem desse tipo de programa?
     
    Ora, me poupe! O único controle que o bom senso me diz para usar quando algo não me convém na TV é o ‘controle remoto’ da mesma.
     
    O mais é mera pretensão.
     
     

  2. Diógenes disse:

    Penso que em alguns casos deveríamos ousar quanto á nossa capacidade de nos organizarmos. Por que não uma ação de contraponto claro, definido e exposto nas redes sociais e outras mídias? Parece que as redes de tv aberta estão babando nesse novo “mercadão gospel” (cambada de inúteis manipulados e vendidos por seus líderes) tanto quanto esteve Roma babando sobre a igreja primitiva e…viram no que deu. Essa crentaiada voyeur não seria capaz de resistir a tal “espiadinha”.

  3. Robson Lelles disse:

    Quem já enfrentou o cancer sabe como é.
    Quem já teve alguém próximo enfrentando o cancer sabe como é.
    As origens biológicas do cancer são várias e deságuam todas na multiplicação desmedida de células alteradas de um determinado órgão ou do sangue.
    Mas a origem psicológica do cancer é bem conhecida: tristeza não extravasada, recolhida. Chega uma hora em que o pote transborda e o corpo é que paga, na forma de cancer.
    Certas pessoas não tem ferramental psicológico e espiritual para lidar com reveses e fracassos – não extravasam, não choram, não gritam, não socam a mesa, enfim, recolhem suas frustrações e tristezas em algum recondito. E seguem acumulando aquela toxicidade psicológica e espiritual até que o reservatório transborda ou rompe. As consequencias, já sabemos quais são.

  4. Alessandrosilva disse:

    Gostei das palavras do caro colega alertando a nossa comunidade evangelica, para uma realidade que nos cerca tão de perto. Mas também dou o admiro pela sensatez e equilibrio, pois infelismente muitos ” colegas” pegariam esse fato para alto promoção.
    Parabens pela postura etica e que Deus continue lhe usando.
    Pr Alessandro Silva Barueri São Paulo.

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