Confessionário

Paulo Brabo

– Me perdoe, padre, que eu pequei.

– Você de novo aqui, meu filho?

– É sobre a minha confissão de ontem, padre. Preciso me confessar.

– Sobre a sua confissão?

– Pois é, tenho de confessar sobre a minha confissão. Era mentira. Confesso que confessei em falso.

– Mentira? Você está querendo dizer que veio aqui ontem se confessar e pedir perdão por algo que não fez?

– Exatamente.

– Mas esse também é um pecado muito grave, homem de Deus!

– É por ser grave que estou aqui. Pra confessar sobre a minha confissão.

– Ah, meu filho, com essas coisas não se brinca. Esse seu pecado de confessar uma mentira é tão sério que chega a ser quase mais grave do que se você tivesse feito mesmo o que confessou ontem que fez. Mas me diga, homem, por que você fez uma coisa dessas? Por que confessou uma mentira?

– Porque sou covarde, padre, e fico com vergonha de não ter nada de grave pra confessar. Achei que confessar uma barbaridade que eu nunca tinha feito, como aquela que confessei, pudesse me dar uma aura, assim, romântica. Minha vida é totalmente sem graça, mas com a minha confissão pelo menos o senhor ia pensar em mim como um personagem dramático, um sujeito atormentado pela culpa.

– Pois você querer isso é pecado também, meu filho, e precisa ser confessado.

– E não estou confessando? Mas confesso também que vim me confessar só por ostentação, sem fé.

– Pois eu preciso confessar que já imaginava isso, meu filho.

– É mesmo?

– Sim, só pelo seu jeito. Como você há muitos, que vem aqui confessar uma mentira só pra que ninguém fique pensando que eles são santos, frouxos, covardes. Mas fique sabendo que é pecado sério permanecer santo e se fazer de pecador, e pecado mais grave ainda não acreditar na eficácia da confissão!

– Pois tenho coisa mais grave pra confessar, padre, e desse pecado estou mesmo arrependido.

– Mais grave ainda? E qual é, meu filho?

– Veja, padre. Quando vim ontem confessar para o senhor que tinha feito aquilo que eu disse que fiz, era mentira. Era mentira, mas ontem.

– E hoje não é mais?

– Não. Confesso que fiz hoje hoje aquilo que confessei ontem que fiz mas não tinha ainda feito.

– Ah, penitência! Eu é que tenho de confessar que nunca vi uma coisa dessas! Se você não tinha cometido o pecado quando confessou ontem, por que resolveu cometer esse pecado justamente hoje?

– Porque o senhor me perdoou, padre! Pensei que como o senhor já tinha providenciado perdão para o meu pecado, não fazia mais diferença deixar de cometer ou não. Fui lá e fiz. Está vendo, padre, que cafajeste que eu sou? Que homem desgraçado!

– Não precisa chorar, não, meu filho, que somos todos pecadores. Deus vai certamente lhe perdoar.

– Eu não mereço perdão, padre. Desculpe tomar o seu tempo. Tenho de ir embora logo que não quero estar dentro da igreja quando for tirar a própria vida.

– Que é isso, meu filho, guarde essa arma! Que pecado mais terrível esse seu! Você pensar em suicídio já é muito ruim, mas você me trazer um revólver pra dentro da casa de Deus…

– Eu sei que é coisa grave, mas sei também como usar esse 38 aqui. Por isso vou acabar logo com essa agonia e apagar de vez esse pecador desgraçado que sou eu mesmo. Dessa vez eu não me escapo! Estou indo, seu padre, e desculpe alguma coisa.

– Espere, espere. Sente aqui só mais um minutinho, meu filho. Espere. Você sabe que o suicídio é pecado que não tem perdão, não sabe?

– Sei muito bem. É por isso que vou fazer. Confesso que não acredito que mereça perdão.

– Pois se você confessar esses maus pensamentos, o perdão é coisa que se arranja…

– Sem essa, padre. Não confessei isso ainda, mas já matei muito cafajeste por menos, e seria injusto com eles se eu não matasse o maior de todos, que sou eu. Isso é que seria imperdoável.

– Não, meu filho, não se mate, por favor. Não faça uma loucura dessas, não depois de se confessar comigo. Se você se matar sou eu que vou me sentir eternamente culpado, por não ter conseguido fazer nada para evitar.

– O senhor, culpado, padre? E por causa de um traste como eu? Vai por mim, padre: o senhor nunca fez nada de errado, Deus com certeza vai lhe perdoar.

– Pois eu não sou o santo que você está pensando, meu filho. Só vou me abrir com você pra ver se você esquece essa ideia abominável de tirar a própria vida. Sabe aquele pecado que você confessou ontem sem ter feito e cometeu hoje por já ter confessado? Aquele pecado particularmente grave?

– Sei.

– Pois eu confesso que cometo o mesmo pecado, meu filho. E com frequência.

– Verdade mesmo, seu padre?

– Verdade verdadeira. Está vendo? Agora guarde essa arma.

– Pois eu guardo sim e na hora, mas tenho uma última coisa a confessar. Deus me perdoe, mas não sou quem dei a entender que era. Sou na verdade um enviado do Vaticano, e se falei todas essas mentiras e ameacei me matar foi só pra investigar esses boatos que estavam correndo a seu respeito, padre. Pra levar o senhor a confessar.

– E eu também tenho uma confissão a lhe fazer, meu filho. Eu não sou padre, sou um anjo do céu disfarçado, enviado para testar a sua capacidade de perdoar.

– Ah, você também é anjo? E eu aqui, perdendo o meu tempo!

E foram, anjo para um lado, padre para o outro.

fonte: A Bacia das Almas

Comentários

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1 Comentário

  1. Ana Karina disse:

    Simply magnificent!

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