Batismo do silêncio

Laion Monteiro, no Celebrai!

Existem silêncios pesados, outros que são inteligentes, aqueles que acolhem, silêncios pacientes, outros que são pura ignorância, outros de prudência ou perspicácia, há o silêncio de conveniência, aquele de consentimento, silêncio de paz e silêncio de guerra, o silêncio da ternura e o silêncio do ódio, o da prece e também o da acusação e ainda outros que abrigam apenas estupidez.

Silêncios grossos e finos, leves e insustentáveis, grávidos de palavras ou de ausências, todos porém têm em comum sua própria finalidade: dizer alguma coisa. Era o estranho daquele encontro. Os dois, naquela despedida, viviam um silêncio sem nome.

O sol morria no horizonte e a escuridão chegava imponente, altamente inevitável. Nem o barulho das ondas quebrando nas pedras, muito menos a selvageria das palmeiras na praia falavam mais alto que aquele silêncio que existia, sem nome, dentro deles. Nas despedidas, não somos muito mais do que reféns.

Escolher é também preterir. E a vida é assim: feita de despedidas. Ali, descabida na imensidão do cais, levantou o olhar, Quando você volta? Por favor, me diz. A vontade dela era parar os movimentos da Terra e fazer ali o mundo terminar. Ele, Não sei. Um pássaro cortou o céu alaranjado e gritou como se fosse o rei do universo. E tudo o que aconteceu ali foi fraqueza, trêmula existência de corpos sem fim.

Inventa comigo uma nova palavra? – ela insinuou desatando o laço do vestido.
Invento se você fizer comigo um novo significado.
Para o quê?
Pra alguma palavra.
Qual?

O olhar dela o fez esquecer a resposta. Conversavam, sim, mas sem palavras. O vestido escorreu do corpo exibindo a realidade de sua pele. E porque azul, o vestido fazia parecer brotar da madeira do cais um recente oceano. Águas que o vento era incapaz de levar pra longe. Ele a beijou. Envolveu-a num abraço salvando o corpo dela de ter peso.

Atravessou aquela geografia de carne com inúmeras paradas. Perdia-se nas diversas linhas enquanto ela fitava o céu achando que o mar agora estava suspenso. Loucura. Ternura. Desconheciam-se a cada avanço e, nos recuos, buscavam o ar. Um rio quente ia nascendo dentro deles. E encontrados um no outro eram assim: duas biografias perdidas na liquidez.

Afastaram-se. Fitaram um ao outro, olhos nos olhos. Buscavam as palavras e não lhes vinha uma sequer. Eram banhados agora não pela água, mas pelo silêncio. Este, terrivelmente inexplicável. Os dois, no cais, em corpos derrotados, confundiam qualquer um que por ali passasse. Ninguém saberia dizer se eram eles ou se era ninguém.

Até hoje se desconhece o nome desse silêncio que nos invade e fala por nós quando estamos diante de quem nos entende. Silêncio que nos despe. Silêncio que nos mostra.

Silêncio que nos convence, sobretudo, a nos exibirmos – independente se limpos ou imundos. Silêncio do bebê, talvez, no colo da mãe; dos amigos que se reencontram e se deixam resumir num abraço; do instante antes do primeiro beijo; da lágrima que sulca nosso rosto quando sentimos o peso da vida e da liberdade que nos pede escolhas; diante do túmulo fechado do pedaço que se nos foi.

Resiste até hoje essa fragilidade: a de um silêncio sem nome. Órfão de definição, ele espera até hoje ser batizado. Desconfio que não passamos a vida inteira fazendo outra coisa senão tentando dar nome às nossas saudades, ao que nos foge, e falta.

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