Michel Teló, melhor não tê-lo?

Tom Fernandes, no “pequenos dramas”

O brasileiro é fã duma repressão. Diria que é tarado numa ditadura, mas o trocadilho é fácil e a patrulha começaria logo nas primeiras linhas. Mas vá lá, eu nasci em 1976, em plena ditadura. Vi de perto em Goiânia todo o florescer do movimento Diretas Já e o escarcéu todo que se formou e se avoluma até hoje. Pois bem, nada disso parece ter resolvido nosso problema com a liberdade alheia. Somos taradinhos em vigiar a vida da janela ao lado. Em vigiar só não, em vigiar e dizer que não presta, que é feio e que devia morrer!

Somos também especialistas numa terrível arte: a autossabotagem. Enquanto as editoras enchem o cofrinho de tanto vender livros de autoajuda, com receitas mágicas para melhorar nossa autoestima, nós rasgamos o outro cofrinho em surtos de autodesprezo. Tudo o que fazemos deve necessariamente ser pior do que alguém em algum lugar do mundo em alguma época da humanidade faria. A gente gosta é de ser ruim, de não prestar, de não conseguir. A gente é tão ruim que o bom só acontece quando falhamos em ser ruim. O carro, a roupa, a literatura, a música, a teologia, tudo aqui é ruim.

Aí me chega aos ouvidos um melô, uma música bobinha, despretensiosa, feita para divertir, cantada por um cara loirinho, bonitinho, arrumadinho que tem um sorriso de quem está muito de bem com a vida. Com urgência máxima, nossas novas levas de patrulheiros formados nos DOI-CODIs culturais e sociológicos soltam o alarme: um meliante intelectual está à solta. Atirem primeiro e perguntem depois. Não é MPB! A letra é pobre! O arranjo é fraco! O cabelo dele é oxigenado! Ele nem é baiano pra fazer música chiclete! O franco atirador vem e diz: É um produto da indústria fonográfica capitalista!

Tenho que confessar, com risco de ser cúmplice do meliante e preso junto: me divirto com Michel Teló. Assim como me divertia com o “bom xibom xibom bom bom” e até hoje me controlo pra não cantarolar sempre que alguém pergunta “tá com sede”? Mas somos um país tão carente de ser sério, tão necessitado de ser adulto, de vestir calças compridas e comer com garfo na mesa que qualquer sinal de galhofa é reprimido. O que Michel Teló faz com “Ai, se te pego” é o mesmo que o filho faz com uma colher de sopa quente: ruído engraçado.

Você não gosta do Michel Teló? Problema meu, com certeza, que não me escondo dos risos provocados pelo meu filho de quase dois anos tirando a chupeta pra cantar “ai xitipego”. Mas não me é permitido, compreendo, ouvir Rossini numa noite e Teló no dia seguinte. Pega mal para inteligentes e cultos admitir que não vivem de ouvir Caetano e Gadú. No máximo, fazem aquela blague blasé: Quem é Michel Teló? Como se o desprezo ao popular o tornasse melhor pessoa. Aos censores dele fica o inevitável conselho de Chico Buarque: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta!”

Comentários

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1 Comentário

  1. O Corneteiro disse:

    Faça me o favor,
    Não precisa ser da elite intelectual para saber o que é música boa ou ruim.
    O problema destas novas gerações de hoje é que se “consomem” tudo sem querer pensar no conteúdo e estão engolindo lixo pensando que é a coisa mais gostosa do mundo… é tudo sem um sentido… como diz a música, “deixa a vida me levar…”
    E a música evangélica também está nesta onda de montão… a reboque da Teologia da Prosperidade e do Triunfalismo… SIC

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