Tempo de depuração

Ricardo Gondim

Peguei a contramão das festas no meu aniversário. Não acendi velas, não parti bolo e pedi que não se cantasse parabéns. Preferi transformar o dia em tempo de depuração, um tempo drummondiano de ler e repetir: “E agora José,/  (Ricardo), a noite esfriou,/ 
o dia não veio,/
 o bonde não veio,/
 o riso não veio,/
 não veio a utopia/
 e tudo acabou/ 
e tudo fugiu/ 
e tudo mofou,/  e agora…?”

A poucos anos de aterrissar na terceira idade, vi a urgência de depurar-me dos ideais que resistiram às sessões de quimioterapia que prometiam curar o câncer de se sentir útil. Eu precisava abolir, definitivamente, as utopias. Tarefa cruenta. Imolar utopias significa despedir-se do torvelinho de “fazer a vida valer”, de “ser responsável por esta geração”, de “não decepcionar quem depositou tanta confiança em você”.

O mundo das competências brita a alma, tritura o espírito, esmaga o coração. Eu havia arquitetado e me desgastado para construir uma Roma imperial, que agora devia provar o gosto amargo do colapso. A afoiteza de perpetuar-me em gestos heróicos, verdadeira Babel, só ruiria se eu abraçasse outras linguagens; idiomas que transcendem o racionalismo.

Eu precisava desprezar o paladino que me dominou – sempre almejando um coração de leão. Vi que devia dizer adeus ao D’Ártagnan que caricaturizei em arroubos cênicos. Chegava a hora de exorcizar a casta que me prometeu renome e glória. Eu devia escolher a trilha da discrição.  De costas ao rufo dos tambores dos hinos marciais, retomar a vida e seguir.

Faz oito anos, nove talvez, que tento explicar-me a religiosos. E por mais que me esforce, permaneço na boca miúda de gente espantada. Chegou a hora de esclarecer: não me considero herege na acepção real da palavra. Herege é desviante que altera as lógicas internas de algum paradigma. Existem hereges em todas as áreas. Na natação, John Weissmuller quebrou a marca de um minuto para cem metros ao ousar dar braçadas de cara enfiada na água, respirando de lado. Werner Heisenberg revolucionou a física mecânica ao propor a imprevisibilidade dos elementos quânticos. Pablo Picasso reinventou a pintura ao desejar transcender o retrato. Todos, entretanto, permaneceram em suas áreas.

Serei cândido: não quero mais fazer parte da subcultura evangélica. Não me considero cismático. Abandonei as lógicas do teísmo, simplesmente. Não partilho do pessimismo antropológico ou ontológico, chão da teologia ocidental. Não cabe dentro de meu sentido ético o mundo dependente de intervenções pontuais de Deus – ou esperando salvamentos particulares que aliviam as agruras da existência. Não concordo com a teleologia escatológica que engrena o mundo a propósitos inescrutáveis.  Tornei-me o lutador que não gosta mais de boxear; esgrimista que guardou a espada porque anseia passear no bosque. Desci do prédio das disputas doutrinárias para desfrutar o vento selvagem.

Antecipo-me aos apologetas. Não me interesso pela defesa das verdades escolásticas. Também, não me importo em ser contradito ou demolido em meus argumentos. A verdade que abraço não carece de explicação, refutação ou contradição. Estou satisfeito em degustá-la. Sou apofático. Se não tenho competência para escrever tese que a razão exige, podem dizer que sou louco – chamaram o Nazareno de louco, estou em boa companhia.

Não proponho nova doutrina; não elaboro tese sobre o mistério.  Menino, eu perguntava ao vovô se ele podia explicar-me a eternidade. Respondia como típico cearense: “Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. Ando me sentindo parecido com ele, sem paciência para explicações que nada explicam e sem ânimo para elucidar o que não pede para ser desvendado.

Com o abalo de minhas utopias ruíram certos sonhos de amizade que, ingenuamente, preservei. Passei anos e anos iludido com pessoas que rasgavam seda e, ao mesmo tempo, odiavam. Mal sabia que elas parasitavam em minhas frágeis conquistas. No dia em que alguém alardeou a minha derrocada, rápidos como ratos que abandonam o navio, procuraram jogar uma pá de cal. Não guardo mágoa. Só não posso deixar que novos aduladores se valham de minha credulidade.  Não há dor mais atroz que sentir-se abandonado no meio de bárbaros. E, notar, ao invés de mãos estendidas, unhas. Procuro amigos leais. Sei que eles existem. Oferecerei a mão a quem não trata companheirismo como um jogo de interesses.

No dia seguinte ao meu aniversário, notei que o rio de Heráclito seguia intocado. Mas eu amanhecia com a sensação de que precisava nadar muito. Além disso, a bílis do fígado emocional me deixou com o humor sensível.

Volto a escrever; ofício que me enche de prazer. Mas sinto o texto nascer temeroso. Ainda me vejo cercado de fantasmas. Tenho medo de parecer pessimista. Vou e volto: devo teimar em ser bom? Não capitulo ao pieguismo? Hesito: talvez precise de mais solitude para não extravasar indelicadeza. Falo sozinho: Quem sabe, se insistir, consigo vazar um filete do bem que ainda resta.

Ando cansado de tudo. Não passo de menino que implora:  “Parem a roda gigante, quero descer”. Se me tornei adulto,  não passo de homem que não encontra santuário para cultivar o silêncio. Persigo a caverna de refúgio do profeta. Preciso da cela do místico. Caço a hospedaria do Samaritano.

Quando não encontro a companhia que o coração pede, contento-me em ler e rabiscar poesia; e não me importo se ela brota trágica. Não fujo do salmista que, sem ânimo, sem acreditar nas pessoas, sem afeto, sem conexão, sonhou navegando nos raios da alvorada.  Sem libido, sem tesão, não o julgo por arriscar abrir túnel ao redor da cama e chegar ao Hades.

No tempo de depuração, aprendo a recusar o limbo das emoções, o inferno dos relacionamentos e a cadeia dos compromissos. Cara a cara com a duríssima tarefa de reinventar-me, não desisto. Álvaro de Campos afirmou que “temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância,/ E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;/ A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,/ Que é a prática, a útil, / Aquela em que acabam por nos meter num caixão”. Introspectivo, silente e contemplativo, prefiro desocupar a alma da vida prática para reencontrar a que sonhei na infância – antes que seja tarde demais.

Soli Deo Gloria

foto: Rio Tietê – Barra Bonita

Comentários

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2 Comentários

  1. Fabiano Bohi Goulart disse:

    O triste é que esse caminho do Gondim já podia ser vislumbrado a uns seis ou sete anos atrás. Boa pessoa, mas definitivamente me parece claro que perdeu a fé. Lamento.

  2. francijane disse:

    Meu Deus me ensina a ser assim também!

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