Cristo no Octógono

João Carlos Assumpção, no Lance!NET

Publiquei ontem minha coluna no LANCE! sobre o “uso” de Cristo no esporte. Antes notório no futebol, agora também faz parte do octógono com a febre do MMA. Como alguns leitores sugeriram, reproduzo o texto em meu blog, lembrando que o que escrevi é apenas uma reflexão pessoal, não focada em A, B ou C. Uma reflexão e uma série de indagações que queria compartilhar com os internautas. Então lá vai:

“Durante a Copa de 2010 viajei a Israel com três amigos, que também foram aos territórios palestinos, a fim de fazer um documentário para discutir os problemas na região tendo o futebol e o Mundial como pano de fundo.

Na ocasião cheguei a acompanhar do Oriente Médio uma polêmica entre Juca Kfouri, jornalista que admiro muito, e Kaká, uma das esperanças do Brasil na Copa passada. Divergiam sobre o marketing religioso que tanto Kaká como outros jogadores da Seleção costumam fazer, provocando até reação da Fifa por conta dos excessos na comemoração da Copa das Confederações que os brasileiros venceram em 2009, derrotando os Estados Unidos na final.

Kaká fazia proselitismo de uma igreja a qual, pelo que me consta, acabou abandonando depois, o que não quer dizer que tenha deixado de ter fé em Cristo. Somos um país laico e a crença religiosa é um direito de todo cidadão que deve ser respeitado, como Juca sempre respeitou. E eu respeito também. Mas há algumas coisas que não entendo.

Toco no assunto porque não é só no futebol que os atletas, principalmente os brasileiros, reverenciam Cristo ao anotar um gol. Direito legítimo, mas que levanta algumas questões. Eu, que sou cheio de dúvidas e tenho poucas certezas na vida, fico indagando aos meus botões se Jesus estaria tão preocupado assim com um jogo de futebol. Com um gol. Com um título. Ou se não teria preocupações maiores, como as enchentes na região serrana do Rio, a fome na África, as guerras, catástrofes e desastres pelo mundo que nem precisamos enumerar.

Agora, além dos campos de futebol, virou moda também no octógono os brasileiros festejarem suas vitórias louvando Cristo e atribuindo a ele os murros, cotoveladas, pancadas na cabeça e todo o sangue que tiram de seus adversários.

O sujeito quebra o maxilar do rival, arrasa seu rosto, abre a testa, tira sangue da orelha, faz o adversário dormir e sai comemorando e agradecendo Jesus, dizendo que o mérito foi dele. Por ter apagado o outro? Teve o dedo de Cristo aí?

Ganha quem treina melhor, aprimora a força física e mental, está num dia mais propício quando sobe ao octógono, desenvolve técnicas de nocaute e finalização, não quem reza mais. Ou quem Cristo quis escolheu.

As religiões são usadas para tudo. Para justificar guerras (e isso não é de hoje), preconceitos e discriminações, “explicar” as injustiças e desgraças da vida, mas agora, além de jogar bola, parece que Jesus entrou no octógono e partiu para a pancadaria. Colocaram Cristo neste papel. Acho curioso e tento entender o fenômeno. Como tento entender como é que deixaram abrir um templo perto do Aeroporto de Guarulhos, o principal do país, prejudicando centenas e centenas de pessoas no primeiro dia do ano e ainda prometendo mais confusão ao já caótico trânsito paulistano. Ônibus estacionados no meio da Dutra impedindo a circulação, uma situação lamentável e boa parte dos fiéis, em vez de se comportar como cidadãos, mais preocupada em orar.”

dica do Rogério Moreira

foto: Jornal do Brasil

Comentários

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2 Comentários

  1. “Apartem-se de mim, que eu nunca os conheci”

  2. hernan pimenta disse:

    Os evangélicos têm tanto medo do “orgulho” que preferem creditar a Cristo seus feitos dignos de orgulho. Afinal, o orgulho foi o motivo da queda de Satanás, e nenhum evangélico em são juízo aceita a derrota e a humilhação, que são o castigo para quem se orgulha e não dá “glória a Deus”. Creditar as vitórias a Deus é uma tentativa de precaver-se da derrota.

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