Deus é zero

Tony Bellotto, na Veja On-line

Outro dia, no táxi a caminho do Galeão, passou por mim um carro vermelho em alta velocidade. O motorista parecia um rapper latino de filme independente americano, com boné virado pra trás e imensos óculos escuros. O interior do carro emanava um funk ensurdecedor que ajudava a compor a barulhenta sinfonia da Linha Vermelha às 8h30 da manhã, em que buzinas, roncos de motores e turbinas de avião se misturam numa música que nem John Cage poderia conceber.

Depois que o carro passou, reparei num plástico enorme no vidro de trás com os dizeres: DEUS É FIEL. Não foi a primeira vez que vi a frase, claro, ela é bastante difundida, mas foi a primeira vez que refleti sobre ela. Essa frase sempre me intrigou. A que se refere, afinal de contas? Deus é fiel a quem? A Ele mesmo?

Ora, se Deus, por definição é “causa necessária e fim último de tudo que existe” Ele não tem que se preocupar em ser fiel a si mesmo, pois já que está acima de todas as coisas não precisa, por definição, “não contrariar a confiança depositada”. O mesmo vale para a sua, digamos assim, ideologia, ou doutrina. Mesmo que Ele envie um planeta em rota de colisão com a Terra e destrua a vida humana por estas plagas, ainda assim continuará sendo fiel aos seus desígnios, já que estes são, também por definicão, insondáveis. Portanto dizer que Deus é fiel a si mesmo é afirmar uma tremenda de uma redundância.

Pode-se, por outro lado, argumentar que Deus é fiel aos que Nele crêem. Mas como todo fiel é por definição passível de ser traído, não seria errado afirmar, no caso de um crente que “abandone” Deus para flertar com o diabo, por exemplo – o que vive acontecendo -, que Deus é traído em alguns casos. Nesse caso seria tão correto afirmar que DEUS É TRAÍDO quanto que DEUS É FIEL.

Isso me remete a uma outra frase, também muito difundida, que me intriga igualmente: DEUS É DEZ. Só dez? Deus deveria ser, no mínimo, Mil, ou Milhão, quando não, Infinito, certo? Claro que a frase quer dizer que Deus está no nível máximo de qualquer escala, o topo da linha. Mas o número dez não me parece à altura do Todo Poderoso, na boa, e olha que eu nem acredito na existência Dele (acredito na do número dez, no entanto).

Mas caso os crentes queiram passar uma dimensão do poder e da força do Senhor, deveriam usar o número zero, já que este, por definição, é o “elemento inicial de qualquer série”, além de representar a “total ausência de quantidade”, ou ainda um “conjunto vazio”, que cabem muito melhor na definição do que seria esse “não lugar” que Deus habita, do que o raquítico número dez. Nesse caso, seria tão correto afirmar que DEUS É ZERO quanto que DEUS É DEZ.

Mas imagine o que aconteceria com alguém que saísse num carro com os dizeres DEUS É TRAÍDO e DEUS É ZERO. Deus me livre…

foto: Thinkstock

Comentários

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2 Comentários

  1. A vitrine 26 disse:

    Essas frases sempre me intrigaram e tb pensei coisas parecidas. O artigo me levou ainda mais longe nessas reflexões. Excelente!

  2. NATO AZEVEDO disse:

    Gosto muito dos textos de Tony Bellotto enquanto questionamento, mas afirmar a inexistência de Deus vai muito além do que ouso admitir. ‘Creio no Deus que criou os homens, / não no “deus” que os homens criaram”… dizia o trecho final de uma trova, aqui em Belém, parafraseando o texto original de um pensador francês, salvo engano meu. DEUS EXISTE… por uma questão de lógica inconsciente, penso eu, o surgimento de tantas criaturas (e criações) diferentes  — inclusive a do convencido Homo Sapiens — EXIGE a presença de uma Mente Universal. (Isso me parece Maçonaria, da qual não conheço uma vírgula… e daí?!) Quanto ao DEUS É FIEL, trata-se apenas de mais um desrespeito à imagem de Deus impalpável e impodenrável, pecado já previsto no 3º ou 4º Mandamento, “não pronunciarás meu Nome em vão”. A nota seguinte do site PAVABLOG — sobre Kassab tentando usar o voto dos evangélicos — é mais um uso VÃO e ordinário da Religião em prol de “insanidades” semelhantes. Nenhum crente pode FALAR em nome Deus, lhe atribuindo qualidades OU FUNÇÕES (?!), no caso em tela COMPROMISSOS, sem estar faltando com o respeito à divindade… é minha visão particular das coisas. À Deus (só) LOUVORES… do resto cuidamos nós, para isso recedbemos d’Êle a inteligência!!! (“NATO” AZEVEDO)
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    Sr. PAVARINI… favor EXCLUIR  do comentário O TEXTO ABAIXO(CPU lenta demais)
    Rapaz, eis aí (ou aqui) um texto profético, pelo menos para mim, que conheci computadores e Internet apenas em 2006/7. Mas, ouso discordar do email como lixo, apesar dos 50 ou 60 spams diários que recebo. Quando me inscrevi num site americano de jogos, ainda desconhecendo por completo o Universo cibernético, passei a receber dezenas de emails de sites comerciais com todo tipo de proposta “vantajosa”. Se isso me aborreceu a principio, também me proporcionou a chance de (re)conhecer a criatividade humana… para enganar o próximo, para dizer o mínimo. Hoje, os golpes evoluiram, já não tratam mais de vender seja lá o que fôr… agora, ganhamos “prêmios” ou falecidos milionários na paupérrima África — em Ougadougou, mais precisamente — estão sempre nos oferecendo “parceria” NOS GOLPES contra Bancos de lá, se é que os bancos existem mesmo. Em resumo, o tal “lixo” nos dá um interessante panorama da esperteza humana em todos os quadrantes do globo terrestre. Quanto ao fato de, nos idos de junho/julho de 1970, termos assistido aos jogos da Seleção de Ouro em preto & branco, tomo a liberdade de discordar. As côres da TV nacional tinham sido lançadas um ano antes, num “monstrengo” da Philco do tamanho de uma cômoda — fui auxiliar de técnico de TV, numa concessionária da empresa — e assisti aos jogos magníficos da Seleção Canarinho na esquina da rua Barata Ribeiro, numa loja famosa da JOSIAS STÚDIO (em Copaca

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