Quando os bregas saem do armário

Bruno Astuto, na Época

A morte de Wando, na semana passada, parece ter anistiado um verdadeiro exército de pessoas da prisão do chique. Ele teria ficado feliz, muito feliz, de ver tanta gente saindo do armário para lhe prestar homenagens nas redes sociais, fãs ocultos que talvez jamais teriam exposto seu amor pelo romantismo de Wando caso ele ainda estivesse fazendo seus shows Brasil afora.

Nesses shows, não se viam celebridades e intelectuais nas primeiras cadeiras, portanto as fotos de divulgação não iam parar nas colunas nem nas revistas. Mas Wando não estava nem aí; desde o começo de sua carreira, ele se focou no chamado “público brega”, ou seja o Brasil inteiro, salvo raríssimas exceções que não sabiam o que estavam perdendo.

Já assisti a vários shows de Wando e tivemos uma história de que sempre ríamos muito quando nos encontrávamos. Uma vez, eu e Narcisa Tamborindeguy (sim, a Mulher Rica) estávamos indo a um comício da irmã dela, Alice, em São Gonçalo, na periferia do Rio. Nós nos perdemos no caminho e fomos parar no comício do candidato adversário — e só nos demos conta quando estávamos subindo ao palco. Pois Wando estava passando em frente ao local e foi ele que nos resgatou para o comício certo a bordo de um ônibus branco, com luz neon no interior e muitas calcinhas penduradas num varal. Só Wando.

Era um homem que dizia que não há nada melhor do que comer uma lata de pêssegos em calda depois de fazer amor. Outras pérolas de seu repertório: não existe nada mais comovente do que ver uma mulher colocando e tirando uma calcinha; levar a mulher a um motel é a maior prova de amor que um homem pode dar e o melhor lugar do mundo é uma cama redonda, lençóis de seda e espelho no teto.

Quando começou a febre de revival dos anos 80 e o número de shows aumentou, entrevistei Wando para saber o que ele achava de tanta gente chique frequentando suas apresentações. “Nem sei do que você está falando. Eu sempre cantei para pessoas chiques. Chique é ser do povo e estar apaixonado”. Ponto para Wando, que foi o primeiro namorado de sua mulher, com quem reatou o romance depois que ela ficou viúva pela primeira vez.

Ficou meio combinado que dizer que está apaixonado e gritar os sentimentos para o mundo inteiro é um ato bandeiroso de breguice. Mais do que brega, é perigoso; as pessoas andam apavoradas com gente apaixonada, em busca de um compromisso. Chique é ser independente, individual, não se apegar a ninguém. Há quanto tempo você não vê alguém sofrer por amor — ou pelo menos admitir? No Facebook, por exemplo, quando uma pessoa sai de um “relacionamento sério” para o status de “solteiro”, surgem logo fotos de festas, frases animadas, uma empolgação sobrenatural. É como se ela quisesse dizer ao mundo: ninguém me faz sofrer.

Assim que percebeu que o casamento estava de fato indo para os ares, uma amiga querida tomou aquela que diz ser a primeira providência urgente e cabível nos dias de hoje. Contar para os filhos? Avisar aos amigos próximos? Preparar a partilha dos bens? Não, ela correu para o Facebook e deletou o próprio perfil. “Embora esteja muito bem resolvida, não sei se estou preparada para ver fotos do meu marido viajando, rindo e curtindo todas com a futura namorada, ou seja, fazendo coisas que ele não fazia mais comigo há anos”.

Sábia decisão. Nenhuma pessoa civilizada gostaria de que o ex quebrasse a cara, mas uma dosezinha de sofrimento e outra de saudade cairiam bem, seriam de bom tom. Até a popularidade das redes sociais, a gente achava que só as atrizes anunciavam o término de um casamento ou de um namoro numa semana para, na seguinte, estrelarem as capas das revistas de celebridades brindando com champagne ao pôr-do-sol e ao novo amor. E atire a primeira pedra quem nunca pensou “esses artistas, hein, não duram com ninguém e não deixam a cama nem esfriar”.

Só que as celebridades tinham as revistas e as colunas, mas os anônimos não. Com Facebook, Orkut e Twitter, estamos assistindo, perplexos, a um festival nunca antes imaginado de felicidades e superações instantâneas. Ninguém sofre, ninguém se resguarda. Depois de uma decepção, o negócio é publicar, publicar e publicar.

Confesso que quando a atriz Demi Moore, aquela deusa, foi parar no hospital com claros indícios de coração despedaçado após ser deixada pelo marido-bonitão Ashton Kutcher, resgatei a esperança na humanidade. Sim, ainda pessoas que sofrem por amor.

Nesse ponto, as músicas de Wando eram um perigo, porque podiam detonar em nós aquela coisa incubada, sufocada, inadmissível, que, de vez em quando, nos pega de jeito. O desejo de estar apaixonado e ouvir de alguém que você é luz, raio, estrela, luar e manhã de sol.

É o cúmulo da breguice, mas tem coisa melhor?

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