Fé e ciência

Hélio Schwartsman, na Folha de S.Paulo

Como estou até agora respondendo a e-mails indignados por conta de minha coluna de domingo, em que procurei mostrar que a noção de alma encerra vários problemas, acho oportuno desfazer alguns equívocos mais comuns.

Ao contrário do que muitos leitores sugeriram, crer na ciência não é o mesmo que acreditar numa religião, e eu vou tentar mostrar por que.

Comecemos pelas semelhanças. A ciência busca seus fundamentos em meia dúzia de postulados que, a exemplo dos dogmas religiosos, são tomados como autoevidentes. Trata-se de princípios como o de identidade e o de não contradição. O primeiro afirma que, se A=A, então A=A, e o segundo reza que, se A=não B, na ocorrência de A não ocorre B. Não são ideias particularmente geniais.

As semelhanças acabam aí. Enquanto dogmas religiosos podem abarcar tudo, os da ciência ficam restritos ao campo da lógica. Até aqui, a vantagem é da religião. Ela já emite pareceres sobre o mundo, enquanto a ciência permanece presa a abstrações. Para permitir que ela fale sobre o universo, temos de autorizá-la a lidar com induções, ou seja, que, partindo de casos particulares, faça generalizações: o sol nasceu todos os dias até hoje, logo nascerá amanhã.

Ao aceitar esse tipo de raciocínio, conquistamos o direito de proferir juízos sobre a realidade física, mas sacrificamos o plano das certezas matemáticas. O fato de o sol ter nascido todos os dias no passado não encerra garantia lógica de que nascerá amanhã. Isso é, no máximo, muito provável, mas não necessário.

Paradoxalmente, esse rebaixamento do grau de certeza das ciências é uma boa notícia. Juízos científicos tornam-se verdades provisórias, que dependem ainda de um processo de verificação empírica propenso a erros.

A vantagem é que a ciência ganha algum poder de autocorreção: ao contrário das religiões, é improvável que ela se obstine por muito tempo em delírios e equívocos do passado.

Comentários

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2 Comentários

  1. Tomas disse:

    Os comentários dos sr. Schwartsman são incoerentes, logo ele que defende tanto a coerência, derivada da lógica, na ciência. Não é a ciência que vive fazendo generalizações com base em observações específicas, e por isso mesmo é obrigada a rever seus conceitos de tempo em tempo? A teoria da evolução seria o caso perfeito, já foi dada como a EXPLICAÇÃO, hoje está desacreditada pelos cientistas honestos, apesar de alguns ou por ignorância, ou por má fé, ainda a considerarem, somente se sedimentou devido a observações imprecisas do Sr. Darwin.

    Por outro lado, temos a Bíblia, sem nenhuma pós-edição e sem a Ciência poder desmenti-la, muito pelo contrário, quanto mais avançamos mais sabemos de sua sabedoria.

    Com estes argumentos, o sr. Schwartsman age de má fé ou por ignorância, confundindo religião em sentido estrito, isto é, que somos feitos perfeitos, por um ser perfeito, com religião em sentido lato, e religiosidade de seitas aproveitadores que mudam seus preceitos e dogmas conforme o vento.

    • FelipeDias disse:

      Ta de sacanagem né? Evolução não é questão de acreditar ou não. Ou você conhece ela, ou você não conhece, simples assim! Você é mais um alienado que nunca procurou entender a base da evolução, leu alguns blogs de pessoas medíocres que divulgam mentiras e falácias falando que evolução não “existe”, e fica passando essas besteiras adiante sem ter um mínimo de noção.

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