Googlar antes de tuitar ou blogar

Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa

Esta é a versão brasileira da frase “Google before you tweet is the new think before you speak”, popularizada num cartaz criado pelo designer Jon Parker e que sintetiza, no jargão digital, a principal mudança de comportamento que nos está sendo imposta pela internet. É a nossa forma de lidar com a informação que está sendo posta em xeque e com ela toda uma série de rotinas e valores transmitidos por gerações, há décadas.

O tema não é novo porque já foi tratado aqui e em vários outros blogs e colunas especializadas. Minha preocupação não é com o ineditismo, mas com o debate continuado sobre o que os especialistas chamam de leitura crítica. A recomendação do cartaz é “pesquise uma informação antes de publicá-la num blog, twitter ou rede social”, o que equivale ao nosso velho e conhecido  “pense antes de falar”.  Não basta decorar a frase, é necessário torná-la automática em nosso trato diário com as notícias e informações.

A recomendação de refletir antes de dizer qualquer coisa procura evitar que uma pessoa diga asneiras ou idiotices, visando evitar embaraços públicos pessoais. O “googlar antes de twitar”  tem um sentido bem mais amplo porque busca, acima de tudo,  evitar a disseminação de boatos, mentiras, difamação e fofocas antes que elas acabem se transformando num fato aceito de forma também irrefletida. Trata-se de evitar danos à imagem alheia mais do que impedir problemas para quem originou o boato.

A internet transformou a todos nós em produtores de informação, o que nos obriga a assumir muitas das atitudes que até agora eram cobradas apenas dos jornalistas profissionais.  Não  fomos educados para checar informações, dados e notícias. Bastava sair na imprensa para que os leitores assumissem o que foi publicado como verdade acima de qualquer suspeita. Hoje isso está mudando rapidamente, tanto no que se refere aos jornalistas como aos jornais.

Alterar  uma atitude como essa não é uma coisa que acontece da noite para o dia. O americano Daniel Yankelovich vem pesquisando a mudança de valores das pessoas desde 1995 e é categórico ao afirmar que “mesmo com a velocidade vertiginosa da internet, uma mudança de valores demora anos” para incorporar-se ao cotidiano das pessoas.

Daí a necessidade de periodicamente voltarmos a bater nesta tecla porque ela afeta o nosso relacionamento com a informação e, portanto, com o item que a cada dia que passa mais condiciona a nossa vida social, política, econômica e cognitiva. A transformação da nossa cultura informativa é muito mais relevante do que a avalancha de gadgets eletrônicos que mudaram o nosso dia a dia.

E nessa mudança de comportamentos, nós os jornalistas temos um papel fundamental porque a experiência profissional nos ensinou que um dado, fato ou notícia devem ser confirmados antes da publicação, e que as consequências de uma informação falsa ou distorcida podem ser irreversíveis e letais. Só que a dinâmica industrial da produção noticiosa em jornais, revistas e noticiários da rádio e TV inviabilizou a checagem criteriosa e implantou a corrida pelo furo e pela exclusividade como valores máximos do jornalismo.

O deterioração dos valores morais e comportamentais no serviço público, nas atividades legislativas e na política brasileira fornece amplo material para denúncias de corrupção, o que por um lado é benéfico para a sociedade porque ela passa poder patrulhar o comportamento dos servidores e políticos; mas, por outro,  cria um ambiente favorável à multiplicação de suspeitas e dúvidas. É aí que a leitura critica e a regra do “googlar antes de tuitar” passam a ser essenciais.

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