O Robinson Cavalcanti que levo na memória

Alexandre Brasil Fonseca, em Novos Diálogos

Mais de 20 anos se passaram quando eu, saindo da adolescência, recebi Robinson Cavalcanti em minha casa. Não sei ao certo o porquê, nem pra quê ou como ele foi parar ali. Imagino que tenha relação com o meu envolvimento com a ABU. Lembro da minha mãe, que conheceu muita gente, mas que sempre se lembrava dessa visita em particular.

Comentava comigo sobre a simpatia dele, naquela época pastor e professor, e que sentado no sofá de nossa sala pediu um “digestivo” após o almoço. Também falava de seu jeito cativante e da conversa fácil e agradável que ele tinha.
Robinson teve relação direta com a opção que fiz por cursar ciências sociais. Lia e admirava algumas pessoas; e ao perceber que estas tinham formação em Ciências Sociais, me dei conta que este era o curso que eu deveria fazer. Robinson foi uma delas e a influência dele na minha vida se deu em diversos momentos e espaços. Lembro de como buscava ouvi-lo, das conversas, e depois das diferentes oportunidades que tivemos de estar juntos em eventos da ABU, MEP, FTL, CLADE ou ainda no comitê dos “Evangélicos Pró-Lula”.

Nessas andanças e encontros, lembro-me de uma época que Robinson vinha anualmente ao Rio de Janeiro para pregar numa igreja avivada, com manifestações que iam bem além do “neopentecostalismo erótico de esquerda” à que aludia. Aquele ambiente bem diferente não o afastava e cada ano ele retornava para compartilhar. Isso porque, de fato, ele cria num evangelho de libertação que tinha poder de libertar e transformar a sociedade. Mas ele também cria num evangelho de poder que era capaz de “curar dor de dente e nos afastar de vizinhos chatos”. Um evangelho integral que estava presente em nosso cotidiano e em nossa vida, com diversas formas de manifestações e com uma tremenda riqueza que vai muito além das amarras que teimamos em colocar.

Robinson assumiu posturas firmes e contundentes em diferentes momentos de sua vida, vivendo situações como a de seu desligamento da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Ele não hesitou em se posicionar, defender suas ideias e a disputar espaços. Isso o levou a assumir importante liderança entre os da Teologia da Missão Integral da Igreja e, mais recentemente, essa mesma postura aguerrida o afastou de muitos que no passado eram próximos e que discordaram de algumas posições e atitudes que ocorreram em torno das discussões sobre a “inclusividade ilimitada” e que redundaram nesse desvinculamento com a igreja brasileira e posterior filiação a Igreja Anglicana da América do Norte.

Robinson foi um desbravador em searas que muitos temiam navegar: política, sexualidade, inserção político-partidária, participação sindical, política e vida acadêmica, política eclesiástica… Ele tinha uma dedicação e desprendimento invejáveis. Estava presente e participava. Até bem recentemente era para ele uma obrigação a participação para além do tempo da sua fala em eventos que ia como preletor. Gostava de estar presente, de ouvir e perceber as outras vozes. Era muito centrado nele e no que defendia, mas tinha, no mínimo, a curiosidade do cientista social em relação ao outro. E, acima de tudo, tinha a sensibilidade — como excelente orador — de efetivamente interagir com os seus ouvintes.

Nos últimos anos, como Bispo, sua agenda e obrigações eram maiores e com isso ficava menos tempo do que gostaria nos eventos. Nunca sem manifestar sua insatisfação em “ter que sair”. No tempo que ficava, era comum vê-lo conversando e interagindo com todos. Seja nas filas, nas mesas, nos corredores. Esse ethos que a ABU lhe conferiu, da importância da relação e do encontro, ele teimava em não abrir mão. Não era uma estrela distante ou um preletor especial; era bom de papo, acessível e sempre disposto ao encontro; isso mesmo com as vestes litúrgicas que orgulhosamente utilizava, acompanhadas de engraçadas explicações que apresentava para justificá-las.

Lembro desse Robinson que foi um dos primeiros evangélicos a ter uma militância acadêmica nas Ciências Sociais e a interagir sua fé com uma postura crítica e propositiva para a Universidade brasileira. Robinson foi professor, membro dos colegiados superiores, coordenador de pós-graduação stricto sensu e Diretor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE. Uma importante referência para alguns professores e professoras que hoje navegam na seara das Ciências Sociais das universidades brasileiras.

Faço parte de uma geração que foi formada ouvindo e lendo o Robinson e que hoje ocupa diferentes posições na carreira acadêmica, a partir das Ciências Sociais. Diante desta morte absurda e prematura, eu me pergunto quais de nós teremos o desprendimento e a dedicação que Robinson teve para conosco? Quais de nós teremos a entrega e o envolvimento para ouvir e compartilhar pensamentos e ideias com as novas gerações? O legado que Robinson nos deixou não pode ser esquecido e vejo este momento como aquele em que os que tiveram o privilégio de ouvir e aprender com Robinson assumam de forma consciente e comprometida a necessidade de experimentarmos um maior e mais efetivo envolvimento. Isso numa época em que as comunicações são mais acessíveis e que o processo de produção e divulgação de textos e ideias ganhou contornos como nunca antes imaginados.

Nós, os muitos que leram, riram e se inspiraram nas ideias e ações de Robinson; nós, que muitas vezes concordamos e outras tantas discordamos de Robinson, não podemos negar o papel de profeta que ele desempenhou no seio da igreja evangélica, não só no Brasil, mas também na América Latina e no mundo por meio de seu envolvimento com o Movimento de Lausanne. Esse papel precisa ter continuidade; há uma tarefa para a qual somos chamados, pois como nos lembra o texto bíblico “não havendo profecia, o povo perece” (Provérbios 29:18). Meu desejo é que diante da estúpida morte de Robinson Cavalcanti possamos presenciar a proliferação de mais e mais profetas que vivam para, como ele defendeu, “criar o novo, o diverso, o plural” (1).

Profetas que se levantarão contra igrejas evangélicas que são “aparelhos ideológicos da ordem capitalista, promotoras de valores burgueses, guardiãs das tradições, instrumentos de controle social, reprodutoras de interesses imperialistas, justificadoras da injustiça e da exploração, repressoras dos dissidentes” (2). Para fazer frente a estas igrejas, Robinson via que “alguma esperança passa, preferencialmente, por obreiros não-remunerados, com treinamento acadêmico nas Ciências Sociais, por teólogos que incorporam a psicologia, a antropologia cultural, por pastores, seminaristas e leigos integrados aos sindicatos, aos partidos, aos movimentos populares comunitários, ecológicos, pacifistas…” (3). Estas foram frentes que Robinson viveu e experimentou intensamente. A solução que ele via, foi o que ele buscou viver, tendo a preocupação de manter viva e constante as oportunidades de influenciar, proclamar e denunciar.

A vida de Robinson representa um grande exemplo. Ele termina o relato de sua peregrinação teológica, escrita em 1990, afirmando que “deixou as coisas de menino” (1 Coríntios 13:11). O mesmo Paulo de 1 Coríntios, ao escrever para os efésios, volta a este tema e fala da necessidade de assumirmos nosso papel na comunidade de fé, de atuarmos pela unidade da Igreja, esperando que alguns sejam mestres. Isso se faz necessário para que, na linguagem d’A Mensagem, de Eugene Peterson (Efésios 4.14-15), entendamos que “chega de ser criança. Não dá para tolerar gente ingênua, bebezinhos que são alvos fáceis dos impostores. Deus quer que cresçamos, conheçamos toda a verdade e a proclamemos em amor — à semelhança de Cristo, em tudo”.

Diante das violentas mortes de Robinson Cavalcanti e de Miriam Cavalcanti, desejo que suas vidas e exemplos sirvam como estopim que desperte em nós uma postura atenta de serviço e de exercício dos dons que Deus nos deu, tendo como referência a unidade da Igreja na busca de uma sociedade justa e igualitária.

Nota
(1) Cavalcanti, R. A peregrinação teológica de Robinson Cavalcanti. Boletim Teológico, 5 (14), mar/1991, p. 29-37.
(2) Cavalcanti, 1991.
(3) Cavalcanti, 1991.

Foto: Alex Fajardo.

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