Santa Geni, rogai por nós

Tom Fernandes, no blog pequenos dramas

Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Esta é uma das minhas músicas favoritas do Chico Buarque. Ela representa com maestria como o brasileiro é dócil e manso individualmente e besta fera raivosa quando se torna uma massa. O pensamento e a vontade da turba são superiores em vontade e ímpeto ao querer e raciocinar do indivíduo, isso é lugar comum em qualquer telecurso de sociologia ou ética. A turba, grande manto que nos torna um saco demoníaco de gatos, nos libera de qualquer freio, ao mesmo tempo em que nos sequestra de nós mesmos e de tudo o que nos distingue. Somos a voz de Deus.

Somos a voz de Deus, diz o povo, com armas e tochas brandidas. Somos a voz de Deus, repetem as redes sociais, obesas e embriagadas de seu próprio podre poder. Somos a voz de Deus, garantem tele-evangelistas, pastores engomadinhos e teólogos empedernidos. Somos a voz de Deus, garantem os que atestam que os pobres são necessários, que os miseráveis são base sine qua non de nossa emergente sociedade. Somos a voz de Deus, vaticinam os governantes, tornando Deus uma onomatopéia bufa de arrotos mentais e claudicantes virtudes. Somos a voz de Deus, eles garantem e nos roubam a voz.

Geni é a minha personagem favorita no amplo repositório feminino do Chico. É a que melhor exprime minha ânima, minha porção feminina, como dizem os modernos. Geni é minha alma gêmea e a cada dia ela se olha no espelho e se vê mais parecida comigo. Como homem, sou Geni. Como profissional, já perdi as vezes em que fui Geni. Como cristão, encarnei Geni de tal forma que meu relicário a tem em santo lugar. Geni, ah, doce metáfora de tudo o que de mais precioso e importante pode ser aprendido sobre o povo e sobre nós mesmos. Santa Geni.

Meus melhores amigos são também devotos e seguidores de Santa Geni. Como ela, já provaram do sucesso e da aprovação pública. Também já tiveram a visão turvada pelo sangue escorrendo após as pedradas certeiras e virtuosas. Só quem é devoto de Santa Geni sabe o gosto e a textura do escarro alheio, das portas se fechando, dos rostos se virando, do riso surdo e covarde. Sabe também reconhecer as palavras amigas e ambíguas, dos mais covardes, se aproximando como amigos de Jó, prontos a dizer: Tenho tanta pena do que estão fazendo com você, mas… (e o olhar diz tudo).

Santa Geni, livrai-nos dos pragmáticos, dos que trazem a cruz e o punhal, dos que são piedosos até na escolha das pedras mais redondas e roliças, dos que treinam pontaria para nos fazer sofrer menos. Santa Geni, mãe dos erros meus, olhai por nós que caímos do panteão dos semi-deuses, nós que levamos para casa os tomates, ovos e verduras que recebemos no rosto como aplauso e deles fazemos alimento para continuar na peregrinação. Santa Geni, rogai por nós, agora e na hora de nos redimir, Bendita Geni!

É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co’os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.

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