Dança profética é a do Afroreggae

Sostenes Lima, no blog dele

Há alguns anos começou no Brasil um “movimento profético”. Não sei bem de onde veio. Pra falar a verdade, não estou interessado em saber. Só estou escrevendo sobre esse tal movimento porque não aguento mais ver a palavra profético ser conspurcada pela religião. Já notaram que tudo hoje em dia é profético: da adoração à riqueza? Fiz uma pequena busca no Google e, para minha certeza, encontrei uma lista enorme de práticas religiosas e litúrgicas grosseiramente associadas à palavra que dá nome a um agente social, cuja memória exige respeito: o profeta. Vejam as pérolas que achei:

  • Adoração profética
  • Louvor profético
  • Louvorzão profético
  • Música profética
  • Dança profética
  • Culto profético
  • Bandeira profética
  • Sacerdócio profético
  • Ministração profética
  • Unção profética
  • Campanha profética
  • Transe profético
  • Mover profético
  • Êxtase profético
  • Teatro profético
  • Coral profético
  • Entrega profética
  • Oração profética
  • Jejum profético
  • Línguas proféticas
  • Batismo profético
  • Ceia profética
  • Oferta profética
  • Prosperidade profética
  • Riqueza profética

Obviamente a lista está incompleta. Não dá pra esgotá-la. Esse pessoal da religião é muito criativo e muito esperto.

Esse movimento todo em torno da palavra profético, infelizmente, não tem nada a ver com o resgate de um movimento social que surgiu na sociedade judaica monarquista há aproximadamente 2800 anos atrás. O uso abundante da palavra profético nos nossos dias não passa de uma grande jogada de marketing.

“Novos negócios precisam de novas palavras. E quando o negócio é velho, mais ainda!”, diz pragmaticamente a publicidade.  Não há como continuar explorando indefinidamente um negócio sem renovar sua cara. É por isso que surgiram a “Nova Skin”, o “Novo Civic”, o “New Fiesta” etc. A publicidade tem como objetivo nos convencer de que tudo é novo. Porque, se é novo, precisamos comprar. As coisas que temos são velhas; já não servem mais. Somos enredados pela a ilusão de que é possível refrear o envelhecimento comprando coisas novas.

O que ninguém diz é que o novo é apenas uma maquiagem verbal. A retórica publicitária faz com que coisas velhas sejam instantaneamente transformadas em novas, bastando renovar palavras ou inventar palavras novas. Sem os dotes retóricos, o que vemos é uma realidade bem diferente: tudo envelhece, até mesmo a palavra novo. Fico pensando sobre qual será o recurso publicitário que vai ser usado para vender o “Novo Civic” depois que o novo que há em seu nome envelhecer? Será que haverá um “Novo Novo Civic”? Bom, deixemos isso de lado e concentremos no que é da conta deste artigo.

Resumindo toda essa divagação sobre o discurso publicitário em uma única frase, teremos: não há como fazer um produto explodir no mercado sem colar nele uma buzzword. É preciso associar ao nome do produto uma palavra que vai dar cara ao negócio, que vai vendê-lo, que vai fixá-lo na mente do consumidor, que vai mobilizar revendedores e vendedores, que vai fortalecer as franquias, que vai ser inserida na missão e visão de empresas associadas etc.

Pois é, o mercado gospel, sabendo disso, fez um investimento de peso na palavra profético. E logo percebeu que essa seria uma jogada de muito sucesso. O pessoal do mercado religioso evangélico notou que colar em seus produtos o adjetivo profético agrada o consumidor. Daí a invenção de coisas como “adoração profética”, “ministração profética”, “dança profética”, “louvor profético” e até “riqueza profética”. A palavra tem alcançado uma circulação quase viral no meio gospel brasileiro.

Estudos em análise do discurso nos mostram que a publicidade consegue êxito na tarefa de projetar comercialmente uma palavra através de três estratégias semântico-discursivas. A primeira consiste em inventar tanto a palavra (matéria sonora e gráfica) como o significado desejado. Lança-se então uma nova palavra no mercado linguístico. Podemos dizer, adotando os termos de Saussure, que são criados tanto o significante quanto o significado. A segunda consiste em inventar significados novos para uma palavra velha, mas sem desconstruir ou apagar os significados antigos. Constroem-se, assim, metáforas com a palavra.

A terceira, muito mais audaciosa, consiste em esvaziar todo o significado da palavra, deixando-a completamente líquida e plástica, sob o ponto de vista semântico, para que possa se adaptar a qualquer contexto, tanto textual e quanto discursivo. Essa terceira estratégia é mais ousada porque é muito difícil destituir os significados fundantes de uma palavra; é muito difícil fazer o interlocutor bloquear o histórico semântico de qualquer palavra que seja. Isso é quase uma proeza. Só mesmo a publicidade para conseguir tamanha façanha.

Pois foi essa última estratégia que o mercado gospel usou com a palavra profético. Arrancou dela sua história semântica, deixando-a esvaziada de todos os traços que a inserem no campo da militância social e política. O significado fundante desse vocábulo remete a uma prática sociopolítica desenvolvida em Israel, na época da monarquia.

O profeta era um agente social que denunciava os desmandos praticados pelos poderosos do meio político, jurídico e religioso. Frequentemente reis, juízes e sacerdotes, empunhados da força que o poder lhes garantia, se embrenhavam na corrupção, explorando e oprimindo o povo. Quando a coisa se tornava insuportável, irrompia o profeta com a boca no trombone. Ele denunciava tudo e todos; desmascarava a corrupção e reclamava o direito dos oprimidos.

O discurso profético era um manifesto recoberto de denúncia e exigência de libertação. Não é de surpreender que os profetas fossem alvo de terríveis perseguições.  Naquela época, tudo que era profético era frontalmente oposto à coroa, ao judiciário e à religião. Para ser profeta era necessário haver disposição e coragem para desconstruir o discurso dessas três esferas públicas.

No profetismo de hoje, tudo essa memória sociopolítica, construída um torno da palavra profeta, é esvaziada. Para o mercado gospel, ser profético não significa nada. Não há intensão de manter ou agregar significado algum à palavra profético em si mesmaO que se quer é atribuir ao termo um valor comercial, tornando-o adaptável a qual quer produto religioso, especialmente aqueles já envelhecidos e com pouco apelo de consumo.

Dizer que uma música é profética constitui uma estratégia muito eficiente para convencer o consumidor de que está diante de um produto religioso novíssimo, do qual tem extrema necessidade.Portanto, todo esse frisson em torno da palavra profético nada mais é do que uma jogada retórico-publicitária que visa impulsionar o consumo religioso. Colocar o termo profético ao lado de produtos religiosos como adoração, culto, música, dança, oração, campanha, unção etc. dá-lhes uma roupagem de novo, criando um apelo de consumo quase irresistível.

Não digo que não haja dança profética. Mas se existir não tem nada a ver com essas coreografias de mau gosto que a gente tanto vê nas igrejas evangélicas por aí. Dança profética, para ser profética de verdade, tem de ser uma prática sociopolítica. Nesse sentido, eu estou muito mais disposto a encarar a apresentação de um grupo de jovens ligado ao Afroreggae como um evento de dança profética (em virtude do projeto de transformação sociopolítica aí incorporado), do que a apresentação de um grupo de dança evangélico, que só pensa em liturgia e nada faz por mudança e transformação social.

foto: FlipZona

Comentários

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5 Comentários

  1. CLEBER SILVA disse:

    TRISTE mas, VERDADEIRO… hoje só se ver as pessoas querendo ou ser mais ou suas igrejas mais que as outras e vem com essas estorias… tudo que o SENHOR quis nos REVELAR ou que o homem PROFETIZASSE, tá na BIBLIA. hoje não passa de charlatanismo de quem só se preocupa em juntar gente por mais dinheiro e não em as pessoas se arrependerem de seus pecados e confessarem a JESUS CRISTO crendo no seu sacrificio na cruz para que herdem a vida eterna. HUMPF. @CLEBERSOCCER:twitter 

  2. Ele ainda não conheceu o “apostólico” rsrsrs

    • Sostenes Lima disse:

      Luciano, os modismos terminológicos são tantos, que não dá pra abordar num só texto. Tem de ser um artigo para cada expressão: profético, apóstolo (apostólico), igreja internacional (mundial), campanha etc. A lista é enorme. Numa hora dessas, começo um série de artigos pra analisar tantos termos for possível. Abraços. @Limasostenes:twitter (www.sosteneslima.com)

  3. Ivan Garcia disse:

    É realmente triste, mas não dá para argumentar contra esse texto, porque parece ser um modismo para se mostrar mais “de Deus” do que outros movimentos, como se tivessem descoberto uma palavra mágica que conseguisse resultados melhores na ação de Deus sobre aquilo que se quer atingir.

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