O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos

“As massas de homens que nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos 
então nada mais vêem senão o desvio das crenças estabelecidas. 
O institnto de outra vida as conduz sem dificuldades 
ao pé dos altares e entrega seus corações aos preceitos 
e às consolações da fé.”
Alexis de Tocqueville, “A Democracia na América” (1830), p. 220. 

Publicado originalmente no sensho

No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.

Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em 1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.

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O crescimento dos evangélicos não é um milagre,
é resultado de um trabalho incansável
de aproximação com o povo

Desde Lutero, a fé como um ato de resistência (Life of Martin Luther and and the Heros of Reformation, litografia, 1874)

O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas; homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%, respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.

O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário, retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores, prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional. O lema “un homme, une voix” (“um homem, uma voz”) do revolucionário socialista L.A. Blanqui (1805-1881), “O Encarcerado”, tem disso.

Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim, evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso resolvesse o problema fundamental que representam.

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A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou seus planos,
nunca lhes explicou sequer o valor do Estado Laico

George Whitefield (1714-1770) pregando nas colônias britânicas

Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de um ponto de vista conservador.

Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão, transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação. Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé, não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical. Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará, de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro? Nenhuma.

Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias, na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway. Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os irmãos.  A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van, presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem. Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”, infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.

dica da Isabel Dias Heringer

Comentários

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12 Comentários

  1. Enézio E. de Almeida Filho disse:

    E nós evangélicos iremos resistir a este Estado Jacobino de esquerda que está sendo implantado através de todas as instâncias jurídico-políticas necessárias. Resistir é existir, na graça e força do Senhor.

    • Beto disse:

      Uma dica aos “esquerdo-marxistas”:

      Se querem errar menos, parem de tentar comparar K. Marx, com Jesus Cristo; os escritos de K. Marx, com os escritos bíblicos. Não há comparação entre eles.
      K. Marx: apesar de toda a capacidade de intelectual que demonstrou ter, ao escrever e formar as teorias que formou, era um ser humano como outro qualquer; ou seja, podia a qualquer momento falhar, errar, se equivocar, etc. Logo, a qualquer momento, podia acontecer as mesmas coisas com seus escritos.

      Jesus Cristo: a bíblia nos fala que Ele é o Filho de Deus! (Marcos 1:1; se quiser ler o cap. todo, melhor ainda). E veio a este mundo em forma humana, durou algum tempo aqui na Terra, foi morto, e, no terceito dia, ressussitou! (Lucas 24: 1-8). Tudo isso para cumprir a missão que nos traria a chance de nós seres humanos sermos salvos no dia do Juízo Final. A bíblia também nos fala (inclusive é o Próprio Jesus quem fala isso) que Ele e o Pai são um! (João 10: 25-30) .
      E para terminar, olhemos essas outras coisas que Jesus diz sobre Ele mesmo:
      “Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?
      Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.
      Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes visto.”
      (João 14:5-7)
      ———————————

      “E os onze discípulos partiram para a Galiléia, para o monte que Jesus lhes tinha designado.
      E, quando o viram, o adoraram; mas alguns duvidaram.
      E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra.
      Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
      Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.”
      Mateus 28:16-20
      ———————————–
      *Bom, sei que algumas pessoas não acreditam em Deus ou na bíblia, e sei também que ninguém deve ser obrigado a crer, ou a não crer.
      Mas sei também que eu e muitas pessoas no Brasil (e várias espalhadas pelo mundo, em geral) cremos em Deus e nos escritos bíblicos. E dou graças a Deus por isso!

  2. Zaely21 disse:

    Foi se o tempo em que o evangelico era taxado de burro,pobre e analfabeto.A biblia nos manda crescer na graça e no conhecimento.E vamos que vamos.

  3. Dig14menos7 disse:

    Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos.(Quem fez esse texto frequentou uma igreja evangélica por quanto tempo?)
    Passar bem. 

  4. Dalilamoyses disse:

    Como alguem pode comparar os desejos de um politico(geralmente corrupto e centrado em si mesmo) com a mensagem salvadora e regeneradora de Jesus? Voce tem conhecimento intelectual da Biblia e da igreja.Nao que a igreja seja perfeita,longe disto,mas seu objetivo e realmente trazer paz sobre o coracao dos homens

  5. Gabriel Vescovi disse:

    todos devem ser representados politicamente, isto é legitimo. só espero que os evangélicos entendam o valor de um Estado Laico, e como isto é para sua própria sobrevivência como pluraridade religiosa. infelizmente, não é o que vemos, como a tal “lei do pai nosso” recém aplicada em Ilhéus.

  6. Ricardo Netto disse:

    Pelos comentários que li aqui, vejo que tem alguns que não entenderam que o texto não foi produzido por evangélico, mas sim por um site esquerdopata. Apesar disso gostei da sinceridade do autor. É claro que a análise dele é puramente política, mas muito daquilo que ele atribui à política, sabemos que é resultado da mão de Deus.

  7. Paulo disse:

    Religião leva sempre vantagem porque responde aos anseios das pessoas, se não fossem estas (as que existem atualmente) seriam outras, a maioria sempre será rebanho, do que chamam de direita, ou de esquerda. A esquerda não era atéia (Max era ateu). De Max, a unica coisa que realmente admiro é que ele era ateu. 

  8. Daniel disse:

    Independente do conhecimento em volta da bíblia acredito que Jesus não queria um mundo de opressões, assim como Marx. O que vemos hoje são políticos religiosos se aliando a uma bancada que sempre trouxe prejuízos ao país através dos ruralistas. A propriedade privada, a destruição da natureza, a concentração de riquezas, o trabalho escravo, o êxodo rural e outras mazelas que rodeiam a sociedade estão sendo fomentadas através dessa corporação política entre os “pastores” e latifundiários. Uma prova disso foi a mudança do Código Florestal em 2012 onde a bacada evangélica junto a ruralista se aliaram em pro de mudanças que trouxeram benefícios para aqueles que sempre vem ditando o modelo de desenvolvimento do país. Isso só fortalece a concepção a cerca da propriedade privada que em nosso país é considerada como mais importante do que o direito a vida. Percebe-se que os pastores estão querendo ser é fazendeiros.

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