Eu sou a mosca


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Rayssa Gon, no Bule Voador

Ha umas semanas, estava voltando da faculdade, e um menino me parou na calçada. Ele Deveria ter uns 10 ou 11 anos e vinha da igreja pentecostal do outro lado da rua. Me estendeu um folheto dizendo “moça, moça”. No começo eu não entendi nada, mas peguei o papel. Então ele disse: “jesus te ama”. Essa tal igreja abriu faz uns 5 anos na esquina da minha rua, embaixo de um salão de cabeleireiro.

No ano passado, uma sede da mundial abriu praticamento do lado dela. Acho que é uma característica do cristianismo  se espalhar com a mesma força e rapidez com que se divide em novas e diferentes linhagens. Até que em determinado momento uma dessas linhagens consegue se impor, suprime as outras e se mantem hegemônica por um tempo. Aí depois de um tempo novas seitas cristãs surgem, ganham força, se espalham, e uma delas se destaca, passa a abafar as outras, etc etc.

Esse é um jeito de entender o cristianismo primitivo x cristianismo romano há dois mil anos. Ou a igreja católica x protestantismo nos séculos XV e XVI. E é como eu, particularmente, entendo o que se passa hoje entre a igreja mundial e as outras neo-pentecostais, notadamente a universal do reino de deus. A sede da mundial não faz tanto barulho, ainda. Já a outra, a menorzinha, coitada, toda vez que passo na frente tem alguem se esgoelando ali dentro. Clássico duelo rottweiler x pinscher: as cores são as mesmas.

As crianças costumam ficar amontoadas, brincando, na frente desses templos, enquanto seus pais acompanham o sermão. Até que se inicia o êxtase coletivo e os adultos começam a agir de forma estranha. Então as crianças param de brincar e observam tudo de forma meio fascinada (meio aterrorizada?). Se você nunca viu essas cenas, não perca a oportunidade: pegue o primeiro ônibus que te leve à periferia da sua cidade e confira com seus próprios olhos. Veja o crescente número de igrejas evangélicas e note o que acontece a um país com uma economia aquecida e em pleno desenvolvimento mas que se esqueceu de cuidar da educação.

Com relação ao menino do panfleto, a minha primeira reação foi dizer: “Jesus não existe, criança”. De fato, eu cheguei a dizer um “Jes…” mas hesitei. Pensei que seria algo meio forte para se dizer a uma criança. Como quando fui abordada por um rapaz entregando panfletos a caminho do trabalho, uns 10 dias atrás. “Muito cedo para dizer coisas fortes” pensei comigo mesma, 7:15 da manhã depois de decidir não falar o “Não acredito em Deus, obrigada” que pensara num primeiro momento.

Mas os pregadores não acham que uma criança de 11 anos é muito nova para sair pelas ruas entregando panfletos. Dois cliques no Youtube e vocês podem ver qualquer vídeo com crentes gritando a plenos pulmões em ”línguas estranhas” pulando e se sacudindo na presença de pequenos que devem ter pensado, naquela hora, o que p**** era aquilo porque, bem, é o que eu pensaria.

O rapaz não achou que sete da matina seria muito cedo para entregar papeis sobre o inferno e as melhores formas de evitar sua eterna estadia lá. Então, eu decidi que falarei das proximas vezes “qual é a minha”. Não discutirei, nem debaterei. Mas direi: “Obrigada, mas não acredito em deus” ou “Agradeço, mas deus não existe, moço” (mais dramático, hã?). Pode parecer pouco, ou mesmo bobo, mas num Estado cada vez menos laico – com a atual presidenta rifando ministérios – minha atitude me parece o mínimo a ser feito. O que falei anteriormente sobre o “ciclo do cristianismo” é só uma das formas de compreender e interpretar acontecimentos históricos. Não significa que o “ciclo” não possa ser quebrado. Se não pudesse, países mais desenvolvidos e melhor educados não seriam mais seculares.

Eu escolhi ser a mosca impertinente que não pegará mansamente qualquer coisa oferecida. Por mais que cem pessoas peguem o maldito papel – no melhor estilo “ok, eu pego e você me deixa em paz” – pretendo ser, daqui em diante, a “estraga-prazeres”, o assunto a ser comentado na igreja no fim do dia (“Hoje uma menina não quis pegar o panfleto, irmãos! E ainda disse que deus não existe! Que absurdo! Como ela ousou?”). Convido vocês a fazerem o mesmo , se quiserem. Convido a todos a não-colaborarem. Convido você a mostrar que ousadia pode ser, assim como moralidade, uma qualidade de crentes e ateus.

Comentários

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1 Comentário

  1. Ateus militantes merecem exatamente todo o respeito que eles mesmos dispensam aos cristãos…

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