Loucos e Hereges

Publicado por Consciência e Fé

Ninguém quer ser chamado de louco. Também ninguém quer ser chamado de herege… à menos que seja louco! (rsrs). O problema é que temos, hoje, uma religiosidade que tem por sã doutrina uma doutrina absolutamente enferma, mas que é a doutrina da maioria e por ser da maioria é tida por certa. Qualquer pessoa que questiona, duvida ou nega esta doutrina será o herege da vez. Diante disso, muitos se acovardam e traem a própria consciência pregando o que não crêem, crendo no que não pregam e fazem de tudo, cometem as maiores contradições a fim de não serem contraditos pela maioria.

A verdade é que precisamos de loucos e hereges que sejam capazes de deixar suas sementes subversivas contra esse mundo doente de sãos e santos com sua religiosidade perfeita e morta, incapaz de acolher os loucos e hereges com os quais Cristo andou e se identificou.

Não foi a toa que Jesus foi chamado de herege (ou devo dizer blasfemo, que era o termo usado na época). Ele não andava, nem pensava, nem falava como a maioria. Muito pelo contrário, andava com os excluídos, dizia que não havia vindo para os sãos e ainda se identificou com os loucos deste mundo. Certamente isso causou grande impacto e por isso, sua vida, fez tanta diferença.

O grande impacto da vida de Cristo sobre a humanidade não se deu por causa de seus milagres, pois Deus os poderia realizar como sempre os realizara desde o princípio. Afinal, os milagres mais extraordinários estão relatados no Antigo Testamento. Também não se deu por causa de seus discursos, pois muitos grandes oradores houve antes e depois de Cristo, sem que proporcionassem tamanha repercussão. O grande impacto da vida de Cristo sobre a humanidade se deu, exatamente, por ocasião da humanidade de Jesus, na sua identificação com o fraco, o pobre, o necessitado e pecador. Um líder com tal estilo de vida contrariava – e ainda hoje contraria – todos os anseios da religiosidade, sempre estática.

Grandes homens como Galileu Galilei, Copérnico, Colombo e Einstein foram chamados de loucos. Graças as suas loucuras os sãos podem desfrutar, até hoje, dos benefícios do avanço científico oriundo de suas descobertas. Não fossem eles loucos, anormais e desmedidos o mundo ainda estaria mergulhado na idade média, também chamada de idade das trevas. Mas a iluminação só foi possível porque esses loucos desafiaram o bom senso e todo conhecimento vigente, bem como as normas e a moral de seu tempo.

Grandes homens como Pedro Abelardo, Jerônimo Savonarola, Martinho Lutero, Zwingli, João Calvino, Marthin Luther King, Dom Elder Câmera, foram chamados de hereges por que contrariaram a religiosidade de seu tempo. Não temeram as represálias nem a morte por que pior lhes seria a morte da consciência. Sabiam que alguém lhes poderia matar o corpo, mas também sabiam que suas consciências estariam eternizadas nas sementes que deixariam em seus ensinamentos e seus testemunhos de vida.

Ademais, qual o problema em ser chamado de herege por aqueles que usam os púlpitos para angariar os votos que venderam em vergonhosos conchavos? Ou por aqueles que em nome do poder religioso mandam matar colegas de ministério? O que significa ser chamado de herege por aqueles que adotam uma teologia alienante que anula o fiel e lhe impõe um jugo pesado a fim de controlar cada um de seus passos? Qual o demérito em ser conotado como herege por aqueles se acham donos da verdade e não respeitam a multiformidade da Graça de Deus expressa na diversidade religiosa e cultural? Que vergonha há em ser chamado de louco por aqueles que usam máscaras de santarrão e títulos religiosos para esconder suas taras e vícios sexuais?

Brennan Manning, em ‘O Evangelho Maltrapilho’, afirma que “o espírito de Caifás é mantido vivo em todos os séculos nos burocratas religiosos que condenam sem hesitação gente boa que quebrou leis religiosas ruins. (…) O espírito embotador da hipocrisia vive nos clérigos que desejam ter uma boa imagem sem serem de fato bons.”

A religião se tornou patética, motivo de escárnio, tem sido ridicularizada nas novelas, programas de humor e rodas sociais. A razão disso não é perseguição, mas a própria realidade. A realidade do que a igreja se tornou. Seus líderes querem que o povo os aceite incondicionalmente e inquestionavelmente, enquanto eles mesmos são incapazes de olhar para si e perceber o quanto precisam mudar. Fecharam seu sistema e quem dele não faz parte é tido por louco e herege. Mas se ser são e santo é fazer parte dessa maioria, terrível coisa me seria seus elogios. Enquanto Deus me conceder sanidade mental, dessa trupe não quero parte.

Isso me lembra uma nobre frase de Darcy Ribeiro: “Na Verdade somei mais fracassos do que vitórias em minhas lutas. Mas isso não importa. Horrível seria estar do lado daqueles que venceram nessas batalhas”.

Sonho com uma igreja dinâmica, capaz de constatar e contestar os problemas sociais, ambientais, familiares, religiosos e não se omitir diante deles. Uma igreja que mesmo sendo minoria é capaz de denunciar o mal, lutar pelo bem e dar sua própria vida pela Vida sem temer o que vá pensar a maioria, sem nem mesmo temer a morte.

Precisamos de novos loucos e hereges que incendeiem o mundo com fogo do qual Cristo desejou estar queimando já em seu tempo: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra e bem quisera que já estivesse a arder” (Lucas 12:49).

Comentários

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1 Comentário

  1. Carlos disse:

    Meu caro irmão,

    Parabéns pelo interessante texto.

    Concordo com seu pensamento, mas
    com algumas variantes. Isso não significa que eu esteja certo e você errado. A
    verdade tem vários prismas, e ninguém a pode ver como um todo, exceto Aquele
    que é a Verdade.

    Há muitas verdades bíblicas que
    são sacrificadas nos púlpitos, ensinadas pela maioria das igrejas, por razões
    diversas. E se falamos contra somos massacrados, ridicularizados ou, comumente,
    convidados informalmente a procurar outro Rebanho.

    A nós cabe garimpar as verdades
    bíblicas dos púlpitos, pois há muita coisa boa também. Ademais, nossas crenças
    pessoais podem ser também, em alguns aspectos, loucas e heréticas. Ninguém está
    isento de algum entendimento opaco da verdade das Escrituras.

    Daí penso que estar com a minoria
    não significa estar com a verdade, nem com a maioria. Há muita minoria louca e
    herege por aí, nos grandes e nos pequenos.

    Data vênia, penso que a Igreja, o
    Corpo vivo de Cristo não deva ser essa igreja dinâmica da qual você falou, e
    com a qual sonha, pois a Igreja apostólica não visava a isso, nem o próprio
    Cristo o fazia; ao contrário, Ele sempre se colocou como fora da política
    secular, declarando-se de um Reino que não é desse mundo. O relacionamento
    dEle, solucionando problemas diversos, era pessoal, e não institucional. A Igreja
    dinâmica nos levaria a algumas teologias perniciosas à fé genuína
    neotestamentária, como a Teologia da Libertação. E nós já temos problemas
    demais com a maligna Teologia da Prosperidade e com essa casta de líderes
    religiosos, “donos do rebanho”, seus currais eleitorais e de negociatas
    políticas.

    A igreja dinâmica seria uma
    religião, e Cristianismo não é religião, mas relacionamento com Deus, embora
    quase que necessariamente deva se apresentar como igreja institucional, por
    questões legais e civis.

    Indico a você algumas obras sobre
    o caráter da Igreja: o livro “A Igreja do Séc. XX – A História que não foi
    contada”, de John Walker e outros (disponível na http://www.ciadoslivros.com.br/pesquisa/?p=A+igreja+do+s%C3%A9c.+xx&s=)
    e o opúsculo “A Ortodoxia da Igreja”, de Wathman Nee (disponível na web em PDF).

    Meu escrito foi de bate-pronto.
    Se houver alguma incoerência, me responda, para avaliação e, sendo o caso, aprendizado
    e retratação.

    Um abraço.

    Carlos.

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