Mãe diz que precisa ‘pagar’ para filho ficar preso em ala evangélica de MT

Publicado originalmente no G1

O Ministério Público de Mato Grosso (MPE) investiga a denúncia de que presos e familiares da ala evangélica do Centro de Ressocialização de Cuiabá, o presídio do Carumbé, são obrigados a pagar dízimo a detentos para não sofrer represálias. O órgão analisa o material apreendido na última sexta-feira (13), em cumprimento de mandado de busca e apreensão.

Segundo a mãe de um dos detentos que não quis se identificar, o pagamento do dízimo é feito semanalmente. “Eles são obrigados a pagar dízimo todo domingo. O quanto a gente levar tem que dividir com eles”, ressalta a mulher. O dízimo, de acordo com ela, é pago para que o filho permaneça na ala evangélica da unidade prisional, e a arrecadação seria feita por representantes de uma igreja. “Lá dentro são os pastores mesmo. Lá dentro tem os presos que são pastores, que ficam responsáveis em arrecadar [dinheiro] de quem é aqui de fora”.

A mulher, que prefere não se identificar, denuncia que quem não paga sofre consequências pesadas. “O preso fica sofrendo represália lá dentro, humilhado, forçado a fazer coisas. Provocam o preso para a briga, tudo isso lá dentro. Inclusive perigoso sair morte, porque é cada um por si. Quem tem parente lá dentro é assim, tem que ficar rezando para não acontecer nada”, ressaltou.

Atualmente o Centro de Ressocialização de Cuiabá tem 1.250 detentos, desse total, de acordo com a direção do presídio, cerca de 700 cumprem pena na ala evangélica, coordenada por três igrejas: Universal do Reino de Deus, Assembleia de Deus e Deus é Amor. O diretor do presídio, Dilton Matos de Freitas, diz que já havia recebido denúncias sobre a exigência de contribuição.“Nós tínhamos feito algumas reuniões e pedido para eles que mudassem o jeito de tratar os próprios colegas de celas e que parassem de cobrar se por acaso estivessem cobrando essa quantia que eles estavam dizendo. Até agora as denúncias que temos, nada comprovado, é que trata-se da Igreja Universal”, contou o diretor do presídio.

O Ministério Público investiga a denúncia de que representantes da Igreja Universal estariam cobrando uma porcentagem do auxílio reclusão que as famílias dos detentos recebem. O pastor Alexandre Muniz da Igreja Universal de Cuiabá disse que a igreja não foi notificada oficialmente sobre a investigação do Ministério Público e por isso não ia se pronunciar.

De acordo com o promotor de justiça, Joelson de Campos Maciel, nenhuma igreja é impedida de trabalhar com os presos, mas a igreja é que tem que ajudar os presos e não os presos ajudar a igreja. “A ilegalidade está em obrigar o preso a contribuir pra igreja. Não tem como o preso ser obrigado a isso porque ele já tem a liberdade restringida”, pontuou.

Famílias
Para a mãe de um dos presos, não existe vantagem do filho estar na ala evangélica da unidade. “Eu não vejo nada de bom lá dentro, tudo bem, lê a bíblia, mas e o resto que eles fazem é tudo errado. Extorquindo as pessoas, maltratando as pessoas, isso não é de Deus. Tudo bem que é de acordo pagar o dízimo, uma vez por mês, mas não uma vez por semana”, enfatizou.

Ainda de acordo com a mulher, se ela levar roupas, produtos de limpeza ou até comida para o filho, alguns pastores pegam para pagar o dízimo. “Pegam para pagar o dízimo se não tiver o dinheiro vivo para dar na hora. Eles pegam na conta. Aí quando tiver, vai lá e paga e eles entregam”.

Busca e apreensão
O promotor responsável pela denúncia no Centro de Ressocialização de Cuiabá, Célio Wilson, informou nesta segunda-feira (16) que o advogado da Igreja Universal teve acesso ao pedido de busca e apreensão antes mesmo dele ser cumprido.

Segundo ele, há indícios de que houve vazamento de informações sobre o pedido de mandado de busca e apreensão. A representação foi feita de forma sigilosa na 2ª Vara Criminal de Cuiabá na tarde da última quarta-feira (11). Na quinta-feira (12), o processo já estava com o advogado da igreja. Por outro lado, o juiz Roberto Seror, titular da 2ª Vara Criminal, explica que não houve por parte do Ministério Público, pedido de sigilo. Por isso, o advogado teve acesso ao pedido de busca e apreensão.

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