Inventário

Friendship is born at that moment when one person says to another, “What! You too? I thought I was the only one!”
C. S. Lewis

Como você mede um ano pra viver?
Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos?
Meça sua vida em amor.
Jonathan Larson

Helena Beatriz Pacitti

Aos desavisados: o costume de estampar um sorriso largo no rosto não deve ser interpretado como fruto de acaso, temperamento dócil, uso de fluoxetina ou alienação de problemas. Algumas pessoas agem assim por conta de esforço consciente e disciplina emocional.  Elas exercitam mentalmente uma separação do joio e trigo recebidos a cada dia.  Assim, na manhã seguinte, acordam com a alma zerada e o coração leve.

Essa heterodoxa “teoria do exercício do contentamento” –  que me acompanha há anos – surgiu entre xícaras de café, sucos e risadas.  Era um encontro de amigos de passagem pela mesma cidade, e conversa vai, conversa vem, a gente repensava porque as pessoas cultivam atitudes e hábitos tão diferentes.

Amigos – devo a eles mais que simples companhia.  Alguns são mais amigos. Outros menos.  Alguns são amigos para determinados assuntos. Alguns são amigos para poucas horas de convivência.  Outros a gente poderia passar a vida ao lado. Tem aqueles que não são de muito papo, mas, se houver uma emergência, vão se mover quilômetros de distância para ajudar.  Uns já se foram – e a gente ainda lembra da voz, do cheiro, do timbre da risada.  Outros estão por aí, meio que flutuando na distância e no tempo; mesmo assim já são parte da nossa história.

É complicado, mas amizade não tem hierarquia.  Não se mede por idade, beleza, sagacidade, beleza.  Até a reciprocidade, que costuma ser ponto crítico, nem sempre faz diferença. (Porque se fosse tudo equacionadinho, equilibrado …  mas o que é mesmo equilibrado nessa vida?) A equação que realmente funciona é aquela que junta a hora certa, o dia certo e a pessoa certa.  Aí você ganha um tesouro que vale a vida.

Por essas e outras,  fiz de memória  um ‘inventário de amigos’.  Não contabilizei por vaidade, mas por afeto. Lembranças? Acho que precisava me dar conta de algo mais.

Penso na sua diversidade e idiossincrasias – acho que estou salva da repetição e da mesmice.  Um deles, por exemplo, atendia o telefone assim: 

–  Sindicato dos Lindos, Presidente falando. Bom dia!

Outro, mais fleumático, saudava:

– Oi,  pessoa preciosa.

Tem o que  escreve:  – Oi Tiz, por onde andas sumidona.

Além do ‘oi sumidona’, também recebo: Oi, querida. Oi, amada. Oi, chatinha. Oi, desaparecida. Oi, ex brasileira. Oi, doutora. Oi, Doutorona. Oi, minha doce e querida amiga. Oi, maninha. Oi, dorminhoca.  Oi, Tia Pluft.

A forma como me chamam talvez seja um pouco como me entendem. Além dos vários apelidos. Além dos conselhos que me pedem ou dão.  Além dos silêncios os quais nos permitimos mutuamente.  Cada um me vê de um jeito, refletindo o que fui e em que vou me transformando.

Ao final do inventário, me dou conta: o amigo é acervo importante.  É o que há de raro e brilhante. É um caleidoscópio que levo em minhas andanças: a cada retorno da imagem, um redesenho do tempo.  Com uma pitada de saudade.

fonte: Timilique!

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