Eu não vou me adaptar

Publicado por Revista Missões

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia/ Eu não encho mais a casa de alegria,
Os anos se passaram enquanto eu dormia / E quem eu queria bem me esquecia…
Será que eu falei o que ninguém ouvia? / Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar… Me adaptar… Me adaptar…
Eu não tenho mais a cara que eu tinha / No espelho essa cara não é minha,
Mas é que quando eu me toquei achei estranho / A minha barba estava desse tamanho”.
(Titãs, letra e música de Arnaldo Antunes)

Imagem: Google

Esta canção, composta por Arnaldo Antunes e interpretada pelo grupo musical Titãs, deixa transparecer um mal estar indefinido, nebuloso. O personagem anônimo da canção faz supor a ideia de um descompasso entre a evolução sociocultural e o crescimento pessoal. Um desencontro que deixa feridas abertas e profundas. Aquele que era o “brinquedo animado” da família enquanto criança torna-se, na passagem para a juventude, um verdadeiro “problema”. Eu não encho mais a casa de alegria!…

A música é um grito! Um grito de quem se sente um estranho, tanto diante da sociedade em seu ritmo alucinado, quando no interior da própria casa. Clamor sem nome e sem remédio que brota atualmente do clima de não poucas famílias, em especial nos porões e periferias das grandes metrópoles. Gritos de uma rebeldia insuspeitada, com destaque para a situação dos jovens e adolescentes. Uma estranheza pungente e dolorida, descoberta frente a si mesmo. No espelho eu não tenho a cara que eu tinha, essa cara não é minha!…

Consciente ou inconscientemente, o compositor alerta para um progresso díspar, tão marcante na trajetória histórica brasileira. Por um lado, crescem vertiginosamente a produção, o comércio e o consumo. Torna-se mais fácil o acesso a uma série de bens, os quais costumam ser adquiridos com a mesma velocidade com que, em seguida, são banalizados e banidos. Multiplicam-se os itens do lixo com utensílios descartados antes mesmo de ser utilizados, ou até desembalados. Não faltam coisas, mas estas escondem uma espécie de existência sem-sentido.

Por outro lado, esse progresso técnico, por uma parte, e o crescimento físico do indivíduo, por outra, encontram-se em profunda disparidade com um amadurecimento afetivo e emocional, psíquico e espiritual. Subitamente, eu não caibo mais nas roupas que eu cabia… Enquanto mundo ao redor caminha a passos largos, geometricamente, a maturidade individual parece avançar de forma lenta, aritmeticamente. Ambas as esferas seguem órbitas diferentes e paralelas. Criam-se linguagens desconectadas, uma de costas para a outra. Rompe-se a possibilidade de qualquer diálogo.

Essa sensação de “estrangeiro no próprio país, falta de cidadania ou de órfão em sua casa”, que vem à tona em forma de melodia-protesto, na maior parte das vezes permanece silenciosa ou silenciada. Grito estrangulado, engolido a seco ou com as lágrimas amargas do abandono, da solidão e da impotência. E acaba gerando sintomas de uma enfermidade generalizada, um novo “mal estar da civilização” para ater-se à expressão de Freud.

Os resultados costumam ser altamente nefastos e irreversíveis. Diante do descaso da saúde pública e da sociedade como um todo, os jovens em geral buscam alternativas no álcool e no cigarro, no crack ou em outras drogas, no sexo fácil ou na violência gratuita. Gemidos isolados de vozes mutiladas, que dizem o que ninguém ouve e escutam o que ninguém diz!…

Disso resulta a dificuldade de adaptar-se, refrão da música. Como se os anos tivessem passado, enquanto eu dormia!… Uma avalanche de coisas, fatos, relações e novidades, em ondas cada vez mais numerosas e poderosos, atropela o ritmo dos pés, do coração e da alma humana. De repente, sentimo-nos como tartarugas, ultrapassadas pelas passadas quilométricas de um gigante chamado Tempo. Impossível mastigar, engolir, digerir e ruminar tudo o que se vê e se ouve, ou tudo o que ocorre em volta. Mais fácil, infinitamente mais fácil, buscar um analgésico… Coisa que não falta nas farmácias de cada esquina!

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