MT: escola dá aula que diz que fósseis se formaram no dilúvio

Aula divulgada no Facebook gerou polêmica. Foto: Reprodução

Daniel Favero, no Terra

A foto de uma aula na qual o professor ensina a alunos do 6º ano do Colégio Adventista de Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá (MT), que os fósseis são restos de animais e plantas petrificados formados “na época do dilúvio” tem gerado muita repercussão nas redes sociais, após a imagem ter sido publicada na página do Facebook da escola.

A foto da aula, publicada no começo do mês, tem gerado muitas críticas de pessoas contrárias à proposta de ensino e acusam a igreja de “alienação” além de considerarem a aula uma “piada”. Já outros defendem a iniciativa como uma proposta “crítica”, pautada na “fé” e aplaudem a coragem da entidade e do professor.

Segundo nota divulgada pela escola, o ensino praticado pela instituição é o criacionismo em conjunto com o evolucionismo, baseado em argumentos científicos e lógicos, sem imposição de crenças religiosas e “em harmonia com as prescrições do Ministério da Educação e Cultura”. De acordo com a escola, a maioria dos alunos não frequenta a Igreja Adventista, mas o objetivo é desenvolver o entendimento de ambos os modelos entre os estudantes.

Acerca da aula sobre os fósseis, a instituição esclarece que “para que haja fossilização, são necessários (pelo menos) fatores como sepultamento rápido (para evitar a decomposição do animal ou que ele seja devorado por predadores/carniceiros) e grande quantidade de água e sedimentos (…) pode ter havido um grande evento catastrófico no passado que promoveu extinções em massa”. Segundo a escola, o professor tentou apenas permitir que os alunos desenvolvam senso “crítico/comparativo”.

“Além disso, é bom lembrar que são conhecidas centenas de culturas em todo o planeta que guardam algum relato relacionado com uma grande inundação que teria devastado o mundo. Lamentavelmente, a intenção do professor foi distorcida e a aula sobre fósseis virou motivo de acalorado debate no Facebook. Tivesse ficado apenas no debate, já teria valido a pena, pois o debate, quando respeitoso, acaba sendo proveitoso, ainda que apenas para que se conheçam as ideias de quem pensa de maneira diferente”, diz o comunicado, que finaliza dizendo que a instituição está e primeiro lugar no município entre as escolas cujos estudantes são submetidos à prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Procurado pelo Terra, o Ministério da Educação repassou ao Conselho de Educação mato-grossense a responsabilidade pelo acompanhamento e aprovação do que é ensinado nas escolas daquele Estado. Através de sua assessoria de imprensa, a pasta demonstrou preocupação com o caso e prometeu repassar as informações para o ministro Aloizio Mercadante.

De acordo com o Conselho de Educação do Mato Grosso, o Estado é laico, segundo normatiza a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, por isso o ensino de preceitos religiosos não deve ser cobrado como conteúdo em provas, por exemplo. Apesar da escola ser mantida por uma instituição adventista, o ensino religioso deve ser algo facultativo para o estudante, além de precedido de uma discussão e aprovação em assembleias dentro da escola, antes de ser apresentado ao conselho para avaliação.

Membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) que atuam na área da genética manifestaram preocupação com o consideraram ideias “retrógradas que afrontam o método científico, fundamentadas no criacionismo, também chamado como ‘design inteligente’ (…) sentimo-nos afrontados pela divulgação de conceitos sem fundamentação científica por pesquisadores de reconhecido saber em outras áreas da Ciência”, diz a carta divulgada pela ABC.

De acordo com o site do colégio, a aula de História “diferente” foi ministrada com a supervisão do professor Toni Carlos Sanches, com a simulação da produção de fósseis. “A discussão girou em torno da questão se os fósseis se formaram há milhões de anos atrás como sugere o Evolucionismo, ou, se foram formados há milhares de anos atrás por ocasião do dilúvio, como sugere o Criacionismo”, segundo divulgou a instituição. “Após os experimentos os alunos ficaram entusiasmados e muitos confirmaram a crença em um dilúvio universal”, completa.

No entanto, a discussão não é nova. Nos Estados Unidos uma lei do Estado do Tennessee, que deve entrar em vigor brevemente, permitirá que os professores de escolas públicas questionarem o consenso científico em questões como aquecimento global e teoria da evolução.

A medida visa permitir aos professores que ajudem os estudantes a compreender, analisar, criticar e revisar de forma objetiva as potenciais fragilidades científicas das teorias existentes abordadas na disciplina ensinada, mas que não deve ser usada “para promover qualquer doutrina religiosa ou não religiosa”, segundo diz o texto da nova lei.

Comentários

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2 Comentários

  1. Erica Serpa disse:

    Enquanto estudante de História e conhecedora das Leis que regem a educação no Brasil, se a escola for PARTICULAR, ela pode ensinar sim, dentro do seu credo religioso. O Estado é laico, logo se isso fosse em uma escola pública geraria muito mais comentários. Mas a partir do momento que o pai matricula uma criança/adolescente numa escola que define um credo religioso, o pai está de acordo com o CONTRATO que assinou e o Conselho de Educação de lá deveria ter isso mais claro, assim como o MEC.

    Se for escola pública, mantida pelo munipio apenas, aí sim a crítica é válida, Se não for, o Estado não tem que se meter. Deveria ter se metido antes de dar o aval pra escola ser aprovada.

  2. Rodrigo Bonatto disse:

           Eu estudo em uma escola adventista a 8 anos, e eu não aceito que pessoas que não sabe realmente como é o ensino adventista, fale essas barbaridades. A escola Adventista ela não nos ensina que o evolucionismo é a coisa correta que realmente aconteceu. A questão é que nós aprendemos os dois lados da história, que é o lado Religioso e o lado Cientifico. E mesmo eu estudando o lado cientifico, creio plenamente em Deus, pois ele que criara o mundo. Então por favor, quer for falar alguma coisa sobre esse assunto tenhas os  devidos conhecimentos do assunto. Professor Toni é meu professor de historia desde a 5° série, e não tenho nada a reclamar dele. 
           Ainda vejo alguns pais falando mal da escola Adventista, que a escola não devia ensinar tal coisa para crianças e etc. Primeiro: se não quer que seu filho estude em uma escola adventista, tire-o de la. Segundo: seu filho deve possuir uma opinião, ser uma pessoa de carácter e bem decidida, e não uma simples aula de Criação do mundo que vai mudar a vida do seu filho, mas sim, ele ganha conhecimento, podendo ser muito útil para o futuro do mesmo.
           Estudo em uma escola Adventista, não sou Adventista. Estudo e estudei sobre o criacionismo e continuo sendo Cristão. E o meio em que eu vivo, na escola adventista, são todos Cristãos.

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