“Santíssimo deus”

Gusmar Sosa, em La Vida no es Corta

Não posso generalizar, mas nos meus trinta e um anos de vida pus o pé em uma grande quantidade de templos. Lembro-me, inclusive, que quando tinha nove anos fui “um menino pregador” e isso me permitiu colocar o pé “nos altares” de uma grande quantidade de templos. Mas eu não posso generalizar: eu fui em alguns nos quais se permite pensar, onde a pessoa pode se expressar, nos quais a interação é real e não conveniente. No entanto, segue sendo maior a quantidade de templos nos quais a liberdade é só um conceito conveniente que escraviza.

Não só a liberdade é um conceito conveniente; em muitos lugares e pelos lábios de muitas pessoas, “deus” continua sendo uma ideia, um instrumento, um método e até uma credencial que dá crédito a seus portadores para validar as doutrinas mais retorcidas que fomentam desigualdades e conflitos sociais…

Se hoje eu tivesse que começar minha oração com uma frase como “santíssimo deus”, como condicionam em alguns templos, seria para dizer ao deus desses templos:

“Santíssimo deus, deixe as tuas vestes santas no teu céu e vem aqui. Venha disposto a se sujar enquanto jogamos futebol em alguma cancha abandonada com os adolescentes do meu bairro ou em algum terreno coberto de ervas. Venha jogar com eles que, desesperados e em silêncio, anelam por um futuro melhor…

Venha e experimente nossa versão do céu. Experimenta o que há de melhor e fique aqui conosco. Sai dos templos um pouquinho, veja-os de fora, contempla a majestade desses santuários e compara-os com as malocas improvisadas nesses lugares que, com desprezo, muitos dos que entram nos templos chamam de “invasões”. Se te enches de ira ao comparar o luxo desses templos e a pobre condição de muitos habitantes das invasões, prometo não julgar-te. Não poderia porque conheço a ira e também a impotência. Mas se desceres dos céus e saíres dos limites dos templos, passa aqui uns dias e passeia pelas ruas da América Latina. Assim poderás ver como o mundo está girando; talvez escutes os gritos dos que dizem estar ofendidos, mas não te confundas: ofende-os o fato de que já não poderão continuar abusando das terras que não são suas, da liberdade que não pode continuar sendo administrada…

Desça dos céus, e talvez consigamos seduzi-lo com o futuro que vemos. Venha e converte-te conosco em prisioneiro de esperanças…

Por um pouco veste-te de identidade latina e fica em nossas terras escutando a chuva debaixo dos telhados de lata. Fica escutando nossos idosos falando “daqueles tempos”. Fica e observa como o mundo vai girando e nossas terras latinas vão libertando-se dos grilhões e rastros do colonialismo… A propósito, observa como vamos silenciando a voz daqueles que dizem falar em teu nome e que em teu nome estão saqueando os bairros, as famílias. Venha conosco silenciar a estes que estão roubando com palavras santas o sustento das famílias, o salário que com tanto trabalho alguns ganham…

Venha e vê quão absurdas se tornam essas escatologias que proferem em teu nome… Talvez termines brindando conosco enquanto rimos de quão cruéis foram aqueles que desenharam teu rosto… Conheço lugares onde se pode ficar tranquilo, onde não importa se és um deus ou um mortal. Não importa a tua cor de pele. Não são templos, mas podes sorrir e conversar até o amanhecer… Senta-te um pouco em uma das nossas praças e admira quão grandioso é o ser humano, embora muitos persistam em desconhecer tal grandeza.

Venha e denunciemos juntos. Acompanha-nos na sabotagem do jogo daqueles que deveriam fomentar o bem-estar comum e, em vez disso, se aproveitam de suas posições para explorar e colonizar…”

Essa seria a minha oração e definitivamente não a pronunciaria dentro de um templo, porque às vezes penso que neles deus está obrigado a ficar em silêncio ou a responder de forma conveniente.

Tradução: Gustavo K-fé Frederico para PavaBlog.

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