Onda do passinho ameniza preconceito contra funk carioca

ADRIANA KÜCHLER, na Folha.com

Três moleques de chinelo e bermuda improvisam uma dancinha num churrasco. O som é um funk, mas a dança é diferente. Remexem os quadris, fazem passos de frevo, ficam na ponta do pé, rodopiam e balançam a bundinha com trejeitos femininos. Um amigo espertinho filma a cena e coloca no YouTube com o título: “Passinho Foda”. Postado em 2008, o vídeo vira o marco inicial de um movimento e hoje tem quase 4 milhões de acessos.

Centenas de meninos do Rio entraram na onda e uma nova moda apareceu, a dança do passinho do menor, passinho da favela, ou simplesmente passinho, para os mais chegados.

Novo fenômeno pop, os “passistas” vão ser estrelas da Virada Cultural do Rio, em maio, e de um documentário, vivem aparecendo em programas da Globo, disputam acirradas Batalhas do Passinho com centenas de concorrentes, começam a exportar suas danças para outros Estados e têm uma grande pretensão: reinventar o funk e acabar com a ligação quase automática que se faz entre o ritmo e a apologia ao tráfico de drogas e à banalização do sexo. Eles só pensam em dançar.

É difícil explicar com palavras, mas o passinho é uma colagem bem livre de passos de funk, frevo, break, samba e kuduro com toques de Michael Jackson.

Um grupo de 17 garotos dançarinos recebe a Serafina no Rio, depois de um ensaio. Doidos para “mandar” passinhos (ao som de um celular) e contar histórias, eles explicam que tudo na nova onda gira em torno da rede: os meninos gravam as danças, vão até a lan house para publicar no YouTube, trocam comentários e vídeos e combinam onde vão dançar à noite em uma comunidade com mais de 10 mil membros no Orkut. Aos poucos, estão chegando ao Facebook.

“Todo mundo tem câmera. Se não tem, vai filmar na casa do colega. Tem sempre um que não sabe dançar. Aí, ele faz o vídeo e edita”, explica Marcos Paulo Torres, 19, o Kinho. “Criança da comunidade não tem dinheiro pra fazer escolinha de hip hop nem nada. Tem que fazer tudo sozinho”, diz.

“O passinho é a representação de uma época, de um momento da economia, em que esses meninos têm fácil acesso às câmeras, à internet”, diz o escritor Julio Ludemir, organizador da Batalha do Passinho e espécie de embaixador dos meninos fora da periferia. “Eles gostam de aparecer na mídia e estão vendo no passinho uma possibilidade de ganhar dinheiro, mas não precisam disso para ficar famosos. Eles viralizam [espalham suas criações pela internet] por conta própria, viram celebridades nos bailes e já dão autógrafos.”

Uma das novas celebridades dos bailes, João Pedro Murga, 14, vencedor da última Batalha do Passinho, registrada pela Serafina, diz que começou a dançar vendo vídeos e observando a própria sombra na parede. Loirinho de olhos verdes, teve que vencer também o preconceito. “No começo, eu me sentia diferente de todo mundo. Mas aí eu danço e todo mundo se apaixona”, diz. “Já me disseram que sou um branco de alma preta.” Leandro dos Santos, 19, o Bolinho, é outro que quebrou paradigmas. Vindo de Recife aos 14 anos, reuniu um grupo “só com os melhores dançarinos” e ajudou a “profissionalizar” a dança ao criar um dos “bondes” (grupo de dançarinos) de passinho mais famosos, o Bonde dos Fantásticos. “Ia pra Rocinha ensinar os meninos a dançar e fui fazendo discípulos. Hoje, muita gente me perturba pedindo pra entrar no grupo, pelo Facebook, Orkut, MSN. Eu digo que não. Só entram os melhores.”

Para o diretor Emilio Domingos, que prepara um documentário sobre essa coisa “frenética e antropofágica” que é o passinho, Bolinho impressiona não só pelo destaque que conseguiu sendo um migrante, mas pela seriedade. “No Rio, um lugar onde o que importa é ser amigo das pessoas certas, o critério dele é o mérito.”

NOVO MACHO DA PERIFERIA

No documentário, “Batalha do Passinho – Os Muleque São Sinistro” (assim mesmo, deixando de lado a concordância e copiando o jeito como os garotos falam), que deve ser lançado até o fim do ano, Emilio vai mostrar essa “cena efervescente, como quando o punk surgiu em Londres”, e destacar a “estética metrossexual” dos garotos. “Os muleque” cuidam do cabelo, tiram a sobrancelha, usam roupas de grifes como Nike e Adidas.

Julio reforça a tese e me avisa: “Todos passaram no barbeiro antes de vir encontrar com você”. “Eles representam uma nova expressão estética do macho da periferia. Estão criando um novo visual, reinventando a masculinidade”, diz Julio. “Eles não só não têm preconceito em se arrumar, como também dançam como se estivessem brincando de serem gays. É um jeito de baixar a guarda e chamar a atenção das mulheres. E funciona.”

Criador, junto com o músico Rafael Nike, da primeira Batalha do Passinho no ano passado, Julio agora organiza um campeonato virtual no site batalhadopassinho.com. Os mais votados pela internet participaram de uma disputa real no dia 1º de maio, e os vencedores vão abrir dois palcos no Viradão Cultural carioca, na Quinta da Boa Vista e em Bangu, no dia 4.

Em junho, a batalha ganha uma versão ampliada, com eliminatórias em todas as 19 UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) do Rio. “É um jeito de levar o funk de volta a algumas comunidades, já que a primeira coisa que a polícia faz quando pacifica uma área é acabar com o baile funk”, explica.

Enquanto isso, o passinho vai caminhando pelo país. Kinho conta que já viu vídeos de garotos de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Acre e Pará se empenhando no movimento. “Já vi até um menino no meio do mato dançando passinho.” E diz que “até os playboyzinho” já entraram na dança.

“O passinho vai chegar na classe média”, garante Julio. “Com uma pegada mais lúdica e sem a ênfase nas drogas e na sexualidade, essa é a primeira possibilidade real de desestigmatizar o funk e acabar com a esquizofrenia do carioca, que ao mesmo tempo ama e rejeita o funk.”

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