Suicídio, modo de usar

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Barbara Gancia, na Folha de S.Paulo

NOSSA MOLECADA está doente. Sabemos que o drama maior é o homicídio, que extermi­na os jovens da periferia em pro­porções epidêmicas, mas agora de­mos também para ver aumentar nossos índices de suicídio.

Nos últimos tempos, até as escolas particulares, que educam nossas crianças mais bem amparadas, fo­ram castigadas pelo drama. Con­tam-se um, dois, três suicídios se­guidos -ou mortes que aparenta­ram ser propositais- nas escolas mais tradicionais da cidade.

De 1980 a 2000, no grupo dos 15 aos 24 anos, o suicídio cresceu im­pressionantes 1900%. E os índices continuam subindo. Por quê?

Bulimia, anorexia, automutila­ção, dependência, violência do­méstica, abuso físico e sexual, have­ria uma série de argumentos para explicar o fenômeno. O dr. Jair Ma­ri, professor titular da Escola Pau­lista de Medicina e pesquisador da Unifesp é especialista em doenças mentais e está preparando um es­tudo a respeito. Diz ele que o país só dedica 2% do orçamento da Saúde às doenças mentais (como depressão, dependência química, alcoolismo, esquizofrenia e bipola­ridade), enquanto outros países, como Inglaterra e Canadá, reservam 11% de seu budget para tratar e estudar esses males. “Cerca de 75% dos problemas mentais começam a se desenvolver entre os 12 e os 24 anos”, diz. “E nós não estamos prestando atenção”.

Em Campinas, SP, um estudo constatou que 17% da população ad­mitiu em algum momento ter tido uma ideação suicida. Dos pesquisa­dos, 5% chegaram a elaborar um plano e 2% tentaram chegar às vias de fato. O dr. Jair não concorda com a assertiva de que o bullying deve ser tratado como fato da vida, algo que sempre existiu e que certo ní­vel de agressividade faz bem ao de­senvolvimento. “A humilhação constante, especialmente agora com as redes sociais, tende a trans­formar o jovem vulnerável em um deprimido”, diz.

Um estudo epigenético observou dois grupos de ratos. Uma mãe com filhotes que cuidava deles e outra que não olhava para os seus. Cons­tatou-se que o sistema neuroendócrino dos ratinhos que foram pro­tegidos desenvolveu-se melhor, prova de que o ambiente é um fator determinante no desenvolvimento mental.

Isso vem diretamente de encon­tro com o grave problema da gravi­dez na adolescência e das políticas que adotamos para enfrentar a gra­videz indesejada. Ainda assim, isso não bastaria para explicar o au­mento do suicídio entre as camadas mais amparados da sociedade.

Pois recentemente o FDA (Food and Drug Administration, órgão que regula a venda de medicamen­tos nos Estados Unidos) começou a questionar a efetividade de se mi­nistrar antidepressivos a pacientes jovens. O assunto é polêmico e está gerando rebuliço.

O que se discute é que em uma po­pulação mais propensa a compor­tamentos de risco, a retirada do medicamento depois de um perío­do de uso prolongado pode ter con­sequências. De uma hora para a ou­tra, aquele jovem vulnerável que estava amparado da dor pelo medi­camento ficará muito mais exposto à falta de estrutura para lidar com a frustração.

Teria sido melhor não dar a ele ne­nhum antidepressivo em primeiro lugar? A discussão lá nos EUA está aberta. Conversa que deveria estar mais do que encerrada por aqui é aquela sobre a de gravidez indese­jada. A corajosa ministra Eleonora Menicucci bem que poderia voltar a tocar no assunto. Caminhada ini­ciada, que se dê o segundo passo.

imagem: Portugal Linha Net

Comentários

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1 Comentário

  1. Sabe qual é o problema? Educação familiar… Os pais de hoje em dia tentam fazer com que seus filhos não conheçam as dores e dificuldades do mundo. Isso faz com que as crianças se tornem jovens frustrados, depressivos e covardes, quando encaram de verdade o mundo.

    Bullying existe desde muito antes de ter essa nomenclatura, e olha, era bem pior antigamente.

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