A arte de desfazer nós

 

Helena Beatriz Pacitti

Na janela da varanda havia três cortinas de bambu, daquelas de enrolar e desenrolar.

Não sei por qual motivo,  se era o vento,  o balanço das cordinhas ou algum mistério não decifrado, fato é que frequentemente apareciam nós em toda a extensão dos puxadores.

Ao erguer as cortinas de manhã, sempre encontrava um novo nó.  Caso estivesse retornando de viagem,  eram dezenas deles, muitas vezes superpostos.

Para desfazê-los tinha de lembrar coisas muito simples.  A primeira delas era nunca achar que seria impossível.  A segunda era: não se afobar.  Quem se afoba corta fio, não desmancha nó.  Era preciso ter paciência, muita paciência (quando estava muito ansiosa nem começava – deixava a tentativa para outro momento).

A terceira era perseverar, não me preocupando em desfazer todos os nós de uma só vez.  Era preciso ser humilde e gastar mais de uma empreitada para desenrolar tudo.

Superadas essas fases eu  sentia o nó nas mãos.  Percebia o tamanho, a tensão da corda,  a força do laço.  Depois, com as pontas dos dedos, ‘carinhosamente’  beliscava o fio da corda, procurando onde pudesse ceder.  Coisa de se fazer aos poucos.

Essa coisa de nós enrolados me lembra, como sempre,  do vovô.  Já devo ter dito mais de uma vez que ele foi  um dos meus melhores amigos – principalmente na vida adulta.  Ele ouvia atentamente minhas dúvidas existenciais, draminhas e dramalhões.  Claro que eram perguntas sem respostas, eram os piores nós!

Tão mais fácil ele pegar a tesourinha das respostas prontas e cortar o negócio pela raiz, pronto.  Mas não.  Ele ouvia, ouvia, ponderava. Costumava também dar as mãos em silêncio.  Não tinha pressa alguma em desfazer o nó. Mas também não desistia dele (no caso, eu).

Por mais que a gente os evite, os nós vão e vêm.  Chega a ser em cima de nó. Alguém disse que ‘o inferno são os outros’; se me permitem, acredito que ‘os piores nós somos nós mesmos’.

Sem receita nem ciência.  Desfazer nó é arte.

fonte: Timilique!

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