Até Deus duvida

Tetraplégica termina a maratona de Londres

Rodolfo Lucena, na Folha de S.Paulo

Quando eu era pequeno, minha mãe às vezes exclamava, assombrada com a capacidade da filharada de fazer bagunça: “Essa turminha faz coisas que até Deus duvida!”.

Nada sei a respeito das divindades, mas conheço milagres realizados pela mágica da maratona, inspiradora de ações que podem fazer o mais incréu dos céticos se transformar em fiel fervoroso da capacidade humana de superação e renascimento.

Uma paralítica caminha por dias, a desmaiada se levanta e corre, o sujeito com diarreia prossegue para buscar a glória olímpica. São histórias que ajudam a colocar em perspectiva os incômodos nossos de cada dia.

Claire Lomas era uma amazona de sucesso até que um dia caiu do cavalo. Quando acordou, estava paralítica e supostamente nunca mais iria sair da cama, talvez no máximo circular montada em uma cadeira de rodas.

Os médicos não conheciam a bravura daquela garota. Depois de um período em que quase perdeu para o desânimo e a depressão, resolveu lutar. Transformou-se em uma guerreira da fisioterapia e também remodelou sua vida amorosa -esqueceu o namorado perdido e encontrou pela internet um novo amigo, hoje seu marido, pai de sua filha que está também dando os primeiros passos.

Com ele, fez aventuras, como andar de carrinho de neve. Com o apoio dele e de muito mais gente, experimentou usar um traje especial, computadorizado, para tentar andar. Treinou, forcejou e, enfiada em suas calças robóticas, andou metro por metro a maratona de Londres, que completou em 16 dias.

No mesmo asfalto londrino, uma corredora que sofre de epilepsia enfrentou 20 ataques, mas não desistiu de ir até o final. A cada vez, Simone Clarke, de 39 anos, chegava a ficar inconsciente por 30 segundos. Uma amiga não a deixava cair e cuidava para que não se machucasse.

Quando voltava a si, prosseguia. Os ataques não eram surpresa, mas nunca tinham vindo em tal quantidade -durante os treinos mais longos, chegava a sofrer duas crises; na vida normal, tem cerca de quatro por dia. “Apesar de tudo, eu continuava de pé. Pensei: ‘Rale-se! Eu vou até o fim'”. Dito e feito: terminou em seis horas e meia.

Já Paulo Roberto de Almeida Paula precisou de um terço desse tempo para se qualificar como um dos representantes do Brasil na maratona olímpica. Mas também teve de apertar os dentes para seguir na maratona de Barcelona: uma terrível diarreia o acompanhou desde o quilômetro 15 até a chegada.

Claire, Simone e Paulo ajudam a forjar a mítica da maratona. E nós todos, cada qual de seu jeito, a vivemos todos os dias a cada passo que constrói nossas vidas.

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