O escarro

Jakob

Ricardo Gondim

Há tempo escrevo memórias. Gosto de garimpar reminiscências. Não desisto de viajar a lugares de outrora. Nessas idas, vejo  como os lugares encolheram. Os olhos da criança que fui um dia são maiores do que os meus, adulto. De Londrina não revejo só o pó vermelho que encardia tudo – a terra roxa enodoava do calcanhar às tardes de temporal-,  vou à velha catedral onde fiz a Primeira Comunhão. Não sobraram o rosto e o nome do padre. Ainda guardo o instante sagrado quando ele estendeu a hóstia. E eu, de boca aberta e com todo o cuidado do mundo para não mastigar, recebi o corpo de Cristo.

Insisto em rever também pessoas que me marcaram. Vez por outra elas obedecem e saem das sombras. Mário me ensinou a nadar nos ribeiros e nas represas. Com Raimundo, galopei no alazão que nós dois surrupiávamos de uma fazenda – por algumas horas apenas. Mas nem toda memória é feliz. Também revivo fantasmas. E me assusto.

Nem tudo o que lembro é bom. Não passei pela infância protegido. Minha adolescência foi sofrida. Conheci gente ruim cedo. Tipos sórdidos cruzaram o meu caminho. Os perigos do mundo me rondaram.

Logo antes do golpe militar, papai entrou com um requerimento pedindo que a Aeronáutica o transferisse de Londrina. Antes do despacho, veio a ditadura. O governo caiu. Rasgaram a Constituição. Papai se insurgiu e acabou preso. Levado nas caladas da noite, desapareceu, incomunicável, em algum lugar do Brasil. Mamãe estava grávida de gêmeos e já tinha cinco filhos. Ficamos em um meio de caminho. A situação era péssima. Não tínhamos para onde voltar e sem ideia para onde ir. Felizmente, meus avós maternos nos acolheram na pequena casa de vila em Fortaleza.

Como eu não podia ficar sem estudar, às pressas, me matricularam em uma escola pública. O prédio era mal cuidado. As carteiras, pensas, bamboleavam perto de desabar.  A lousa, moldada no reboco, tinha um verde desbotado. Na primeira semana de aula eu e meu irmão chamamos a atenção por causa do sotaque paranaense. “Soa afeminado”, alguém disse. E a choça se generalizou.

Nunca esqueço a manhã. Ouvi alguém gritar “veado”. Caminhei em direção à voz. Ia disposto a brigar. Não dei três passos e seis formaram uma parede humana. Todos mais fortes e mais velhos do que eu. O líder falava sem parar – coisas que não recordo. Sei que xingou. Afrontou. Congelei de medo. Eles era muitos. Como não esbocei nenhum gesto, ele escarrou e cuspiu no meu rosto.

Fui tomado por um ódio avassalador. Ondas de calor, febre, se espalharam por meu corpo. Naquele instante, rompeu-se a indignação que eu vinha represando com a prisão do papai. Inflamado pela desdita de não ter casa nem quarto de dormir, eu tremia de raiva. Era demais para quem já estava abatido. Como avaliar a dor de um menino que pressentia nunca mais deitar no colo da mãe, como acontecia em Londrina. A tristeza de estudar naquele Grupo Escolar de quinta categoria já me entristecia. Tudo somado, eu suava ira.

Engoli seco. Não chorei. Voltei as costas e parti, calado. Mas, enquanto enxugava o cuspe, murmurava o ódio atávico que trazia comigo. Nos anos seguintes, procurei guardar a fisionomia do que cuspiu na minha cara. Jurava matá-lo.

Acordei pensando naquela manhã. O tempo passou, mas cicatriz não sumiu. Esforcei-me para redesenhar o rosto do menino que me feriu. Repeti para mim mesmo: “ele não tinha o direito; naquela época eu estava tão fragilizado”. Não consegui remontá-lo. Sem uma pessoa, ódio não acontece.

Escrevo como catarse. Nas palavras, tento enterrar o passado que não pedi e a dor que não provoquei. Não penso manter esse estado de indignação. Luz não basta para acabar com as trevas do rancor. É preciso perdão. Por isso destravo o cadeado da alma e abro uma fresta. Convido o passado a voltar ao lugar que pertence. Não quero deixar que mantenha o poder de me magoar. Rubem Alves diz: “Perdão, longe de ser um sentimento na alma, é um jeito de por um fim nas armadilhas que o passado e seus mortos armaram para nós”. Ao escrever, procuro quebrar essa armadilha.

Outras decepções marcaram a minha história.  Perdi amigos por ser pobre – eu não tinha dinheiro para comprar um mísero refrigerante na praia. Aprendi que religião pode ser animadora da vida, bem como fonte inesgotável de inclemência – com 20 anos de idade, numa roda de anciãos, fui excomungado da igreja.

Perguntam sobre a minha tristeza. Respondo: ela é filha das decepções. Mia Couto expressou bem: “Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências”.

Nessas muitas existências que abrigo, aprendo a ser resiliente. Insisto. Dentro de mim, misturam-se  amor e indignação, graça e impaciência, raiva e misericórdia. E assim sigo paradoxal, uma crise ambulante. Porém, sempre desejando entender o significado de me construir humano.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

foto: Flickr

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O escarro

2 Comentários

  1. parabéns por expressar seus sentimentos e por perdoar as armadilhas do passado que tanto nos prendem em ciclos cansativos e que não nos leva a lugar algum

  2. Joelinacio disse:

    Admiro você, Gondim, pela coragem de expressar que ser cristão-testemunha, no tempo, é ser cada vez mais humano. No meio evangeliquês, é preciso coragem…

Deixe o seu comentário