Brasileiros relatam maus-tratos em navios de cruzeiros

Sabrina teve que comer restos de comida (Foto: Arquivo Pessoal)

Jonatas Oliveira, no G1

Após o caso de Laís Santiago, brasileira que desapareceu na última sexta-feira (1º), enquanto trabalhava no navio Costa Magica, na Itália, muitos tripulantes e ex-funcionários resolveram reclamar das más condições de trabalho nas embarcações. Os cruzeiros trazem uma imagem de diversão e descanso. Mas isso não é para todo mundo.

A Costa Crociere afirma que trabalha com políticas de ética e responsabilidade social que visam proteger os direitos dos trabalhadores contra a exploração infantil e garantir a segurança e o bem-estar de todos a bordo. Entretanto, os relatos dos tripulantes são de assédio moral, abusos e até de tentativas de suicídio por causa da pressão sofrida a bordo. Eles contam que não é possível ficar doente, e uma ligação pode chegar a R$ 30.

“Podemos frequentar o hospital a bordo apenas entre 8h e 10h. Fora desse horário só se quebrar uma parte do corpo ou se machucar e precisar levar ponto. Se você chega com dor nas costas por causa do peso que carregamos ou nos pés, pelas muitas horas em pé com sapatos extremamente desconfortáveis, ou dores nos músculos, por exemplo, eles te aplicam uma injeção de diclofenaco (antiinflamatório) com algum outro medicamento e te mandam voltar ao trabalho”, afirma o ex-tripulante do Costa Magica, Lucas Gondim. Ele desembarcou no fim de janeiro após pedir demissão.

Felipe Vinicius Teixeira Mendes trabalhou por um mês no Grand Celebration

Tripulante durante período que esteve embarcado (Foto: Arquivo Pessoal)

da Ibero Cruzeiros e conta que foi obrigado a voltar ao trabalho mesmo estando machucado. “Eu estava doente, com muita febre e meus pés estavam cheios de bolhas a ponto de não conseguir calçar sapato. Fui ao médico do navio e a médica estourou as bolhas, passou uma faixa e mandou-me voltar a trabalhar! Quando fui reclamar, ela me disse: ‘Não está satisfeito? Pula no mar!’ ”, conta.

Além da falta de assistência médica, há relatos também sobre a alimentação. “A comida é horrível. Gastamos muito comendo fora se não quisermos morrer de fome”, afirma uma tripulante que prefere não se identificar.

Sabrina Pereira de Souza foi tripulante do Grand Mistral, também da Ibero, e relata que por causa da fome chegou a se esconder para comer restos de comida deixados pelos passageiros. Ela conta que é servido o café da manhã, almoço e jantar, mas para a carga de trabalho não é suficiente. “Certa vez uma menininha encheu o prato de batatas fritas e não comeu quase nada. Recolhi o prato, fui para o cantinho atrás da porta e enfiei o máximo de batatas que pude dentro da boca. Depois ela abriu uma lata de refrigerante, colocou no copo e deixou a latinha quase cheia. Recolhi tudo, me escondi atrás da porta e dei uma golada daquelas. Fiz isso várias vezes até minha barriga parar de roncar”, conta. A ex-tripulante lamenta ter passado por essa situação. “Nunca me imaginei comendo resto do prato de alguém”.

Tantas pressões e dramas somados as dívidas contraídas para embarcar, acabam causando transtornos psicológicos que levam ao uso de drogas e até pensamentos suicidas. “Muita gente recorre as drogas ou quem sabe se mata mesmo. O custo para embarcar é muito alto e pode chegar a mais de R$ 5 mil. Muitos entram endividados e acabam se desesperando com tudo isso! Algumas aguentam, pois não tem pra onde ir”, afirma Teixeira.

A exigência acontece por causa da grande carga de trabalho. “Eles falam que os navios de cruzeiro são hotéis seis estrelas. Tudo tem que estar brilhando e impecável. Eles querem rapidez em todos os serviços. As exigências vão além da capacidade da pessoa e focam apenas no bem-estar do hóspede. Eles não lembram que precisam olhar o nosso bem-estar”, declara Gondim.

Outra tripulante que prefere não se identificar relata que foi abandonada em Santos, após ser desembarcada sob a acusação de sabotagem. “Fui avisada que eu teria que desembarcar no dia seguinte em Santos por um pedido feito de Gênova e tive que gastar R$ 30 com uma ligação para avisar minha mãe que iria desembarcar. Vivo no Rio de Janeiro e eles me abandonaram em Santos. Minha família foi me buscar”, relata.

Problemas podem causar transtornos

Segundo a psicóloga Tânia Maria Estevaletto Macedo a pressão por resultados somada as condições ruins de trabalho descritas pelos tripulantes e a falta da família e amigos, pode trazer problemas à saúde. “O ser humano é um ser social e sofre impactos quando está fechado em um ambiente de trabalho. Essa condição pode trazer transtornos psicológicos”, afirma.

Tânia afirma ainda que a reação depende de cada pessoa. “O ser humano não é programável e diversos fatores interferem no estado de ânimo como dificuldades nos relacionamentos afetivos, conjugais, associados a crises no ambiente de trabalho. Isso pode levar à perda da esperança da realização de seus desejos. Em um mesmo ambiente de trabalho podemos ter perfis diferentes”, diz.

Para Lucas Gondim, o que ajuda nos momentos de tensão à bordo é o suporte de outros funcionários. “Os tripulantes são unidos. A gente se ajuda muito e se dá força, como uma família. Quando um diz querer ir embora, todos se juntam para animá-lo, dar força e incentivo. A gente vê um chorando por problemas e se comove junto, sente a mesma dor, a revolta e a indignação”, finaliza Gondim.

Em nota enviada ao G1, a assessoria de imprensa da Costa Crociere, responsável pela Costa e pela Ibero Cruzeiros, informa que mantém com seus mais de 19.000 tripulantes, de diferentes nacionalidades, contratos que atendem as normas internacionais e condições de trabalho previamente negociadas com Flag State Trade Unions (afiliados à Federação Internacional dos Trabalhadores no Transporte).

A nota afirma ainda que fornece assistência médica, acesso com tarifas especiais à internet para facilitar a comunicação com suas famílias, refeições especiais que respeitam suas tradições e necessidades religiosas e aulas de idiomas, entre outros benefícios.

A Costa Crociere informa também que foi a primeira entre as empresas de navios de cruzeiros no mundo a receber a certificação internacional SA 8000:2001, que garante que os direitos dos trabalhadores são cumpridos. Ainda segundo a empresa, o documento é baseado em normas internacionais sobre direitos humanos e legislações locais referentes aos direitos trabalhistas.

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