Os darwinistas estavam errados

Rafael Garcia, no blog Teoria de Tudo

QUANDO UM JUIZ AMERICANO da cidade de Dover, na Pensilvânia, deu ganho de causa a um grupo de pais que processava uma escola pública por ensinar conceitos criacionistas a seus alunos, cientistas comemoraram. Apesar de ter ocorrido em em um tribunal local, o julgamento vinha sendo coberto por vários jornais dos Estados Unidos, e havia a expectativa de que a vitória, obtida em 2005, fosse se refletir na opinião pública reduzindo a influência de movimentos religiosos conservadores que tentavam sabotar o ensino da teoria da evolução no país.

Os biólogos que defendiam Darwin, porém, estavam errados em esperar um recuo dos criacionistas. Uma pesquisa de opinião divulgada na semana passada pelo Instituto Gallup mostra que, sete anos depois, 46% dos americanos acreditam que Deus criou a espécie humana do nada. O número é o mesmo de 30 anos atrás, quando o levantamento foi feito pela primeira vez.

O que os professores de biologia se perguntam agora é: o que pode ser feito? Por que as pessoas são tão refratárias à ideia da evolução por seleção natural? Por que esforços educacionais e as incontáveis obras de divulgação científica sobre o assunto têm sido inócuas na tentativa de manter o fundamentalismo religioso longe da ciência?

No Brasil, por enquanto, é difícil projetar a tendência de crescimento do criacionismo. Uma pesquisa do Datafolha feita dois anos atrás mostra que 25% da população acredita na versão bíblica da origem da humanidade. Não sei se há dados mostrando quantos mais acreditam no “design inteligente”, a teoria criacionista que evita falar em Adão e Eva, mas defende o mesmo ponto.

Num país onde a educação ainda é um direito mal assegurado, dá medo. Muita gente confia que o curso natural da cultura humana fará com que ela abrace a ciência cada vez mais, mas nem sempre é assim. Um exemplo de que retrocessos ocorrem veio da Coréia do Sul, na semana passada. O país não apenas deixou de repelir a influência criacionista na educação como também aceitou demandas de religiosos para expurgar Darwin dos manuais de biologia.

A falta de pesquisas de opinião sobre criacionismo ainda torna difícil avaliar o problema em escala global, mas eu me arrisco a dizer que biólogos e educadores sérios, hoje, estão perdendo essa guerra.

Não vou discutir aqui o mérito de grupos conservadores em conseguir espalhar o evangelho do criacionismo. É inútil tentar convencer o inimigo de que sua causa é nociva. Mas acredito que nós, divulgadores da ciência, estejamos cometendo alguns erros.

Primeiro, não são julgamentos espetaculosos em tribunais que vão resolver esse tipo de problema. Cientistas já tinham tentado isso uma vez, em 1925, quando o professor de biologia John Thomas Scopes violou uma lei do estado do Tennessee que proibia o ensino de evolução. Scopes foi absolvido em última instância, mas com uso de uma manobra técnica (o primeiro juiz aplicara uma multa ilegal). O julgamento acabou com os biólogos cantando vitória, enquanto os criacionistas se consideraram “campeões morais”.

É necessário que haja segurança jurídica para o ensino da evolução, sim, mas suspeito que juízes e suas sentenças não têm o poder de mudar a cabeça das pessoas. Logo, acredito que aquilo que está faltando aos professores de ciências é uma estrutura mais proativa para fazer estudantes de fato entenderem de que se trata a evolução. A praga criacionista cresce no terreno fértil do analfabetismo científico. Ironicamente, talvez os educadores tenham algo a aprender com a tática de guerrilha dos grupos criacionistas, que atuam de forma descentralizada para espalhar suas ideias.

Segundo, é preciso evitar que o combate ao criacionismo se transforme numa cruzada contra a religião em si. Transformar o ensino de evolução em patrulha ideológica só vai fazer com que a rejeição a Darwin aumente. Richard Dawkins, possivelmente o maior porta-voz da luta anti-criacionismo no mundo, adotou essa abordagem ao escrever “Deus, um delírio” em 2006. O livro fez muito barulho ao ser lançado no mesmo ano de “Deus não é Grande“, do ensaísta Christopher Hitchens.

Sou bastante cético quanto ao potencial que tais autores têm de converter a turba criacionista. Particularmente, acho incômodo o fato de os dois textos basearem sua argumentação na crença de que a religião torna o mundo um lugar pior para se viver. Não é isso o que a própria ciência diz, e as evidências estão na maior revisão de estudos de sociopsicologia da religião já feita sobre o assunto, publicada em 2008 na prestigiada revista “Science”.

Para resumir, então, acredito que o combate ao criacionismo se beneficiaria de uma atitude mais ponderada dos biólogos. É preciso explicar que a teoria da evolução não está em conflito com uma compreensão religiosa mais sofisticada sobre a natureza, e não se pode embutir a pregação ateísta no ensino da biologia, porque a evolução não se trata disso. Além disso, é preciso mobilizar forças fora do âmbito oficial para dar fôlego ao ensino da biologia. Por que há tão poucas ONGs de educação se dedicando ao problema? Suspeito que as iniciativas para ensinar evolução fora do ambiente escolar estejam em falta. Quantas cidades têm o luxo de possuir um museu de história natural? Os criacionistas já estão começando a se mobilizar para montar os museus deles. Os biólogos precisam esperar o dinheiro do Estado para ampliar suas ações?

Não há como combater a ignorância sem investir na educação como um bem coletivo, e não há como frear o dogmatismo religioso tentando impor o ateísmo na marra. Se existe um desejo inconsciente dos cientistas de que todos se tornem ateus, talvez ele se realize num mundo onde as pessoas tenham bom repertório cultural e se sintam livres para pensar. Não vejo outro caminho.

Comentários

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4 Comentários

  1. Erick Contieri disse:

    Na escola se aprende o que é certeza, nem o criacionismo nem darwinismo
    devem ser ensinados na escola, criacionismo é fé, darwinismo é uma
    TEORIA e não uma certeza, pois até hoje ninguém conseguiu dar 100% certeza quanto ao darwinismo. Valorizar um pensamento filosófico tapa os dois buracos das
    possibilidades e leva cada um a discernir o que achar melhor, não se “baseando” em mero ceticismo.

  2. Meri disse:

    Prezado Rafael, creio que os evolucionistas erram em não conhecer a Bíblia e o Deus da Bíblia. Seria muito bom se estudassem esse livro sagrado com a mesma paixão que estudam o Evolucionismo. A Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse mostra a evolução do homem, das espécies, da natureza… Talvez nem tudo na forma como Darwin preconizava. A natureza é maravilhosamente espetacular. Infelizmente, desde Adão e Eva, caminhamos, não para a evolução, mas para a deteriorização das espécies. No entanto, contrariando o seu texto, a maioria dos cristãos aprende nas escolas a grande contribuição de Darwin no estudo da evolução das espécies.
    Entendo que precisamos reter o que é bom e desprezar o que não acrescenta coisa alguma. No caso da botânica, Darwin, ao meu ver acertou. E parou por aí… Teorias são tão pessoais como religião. Só acredita quando se consegue provar. Por isso, eu, particularmente acredito na Bíblia, no Deus da Bíblia, o Criador de tudo o que existe no céu, na terra e no mar…
    Os 3 cursos universitários, milhares de livros lidos desde minha infância, inclusive os citados em seu texto, me fazem crer que realmente há um Deus, o Grande!… Eu sou o que Sou…
    Até porque no Criacionismo há tantos cientistas excelentes quanto no Evolucionismo…
    A única barreira está na fé. Como diz Norman Geisler e Frank Turek,  “Não tenho fé suficiente para ser ateu”. Abraços!

  3. Marcilio Leao disse:

    Caro Rafael Teu texto é, de certa forma, sóbrio: adverte para tolerância na “comunidade científica” , a qual não deveria tentar usar do evolucionismo, como instrumento para declarar o ateísmo provado , restando ao estado enfia-lo goela abaixo do povo. Também acerta quando diz que não há, asegurado, acesso a educação, no entanto ficou por aí. Me impressiona a ingenuidade pretensiosa dos evolucionistas, exemplificado no teu caso: 1º Acham que se formos expostos ao argumento evolucionista, o assunto será encerrado por decorrência lógica. Problema: o evolucionismo esta aí, exposto a 100 anos e hoje não são raros os cientistas que acatam a idéia, cada vez mais filosófica que factual, que o digam Lynn Margulis( cooperativista ) , Fred Hoyle e Frank Tipler (imaginatismo descarado). Nenhum teísta de segundo grau,nega o sistema heliocêntrico, a gravidade, tão pouco o ciclo dágua, fica difícil porèm, uma ciência sem fatos! 2º A velha bobagem de afirmar que, em havendo educação, ficará evidente o evolucionismo. Bom, só se for a ciência “patrulhada” dos tribunais, a qual você mesmo rejeita!. A educação, ou ciência, se ancora na verdade, o que o evolucionismo precisa é deixar de lado os caprichos, a versão, a interpretação, a filosofia, e se ater aos fatos, à verdade, e a verdade meu caro, é que essa teoria é uma construção filosófica, de que o acaso gera a ordem , de que probabilidades ínfimas pululam como mosquitos pelo universo afora, que a natureza é sábia, etc…. O problema dos criacionistas não é o evolucionismo, nem a educação, mas sim a educação meia -bomba e patrulhada. Ademais, uma breve pesquisa sobre a credulidade dos cientistas dos últimos dois séculos , mostrará que a “praga criacionista” contaminou centenas deles, não por falta de “educação” mas exatamente em razão dela. Logo virá a “Falácia do Escocês”, que aprendi com os ateus. 3º A recorrente demonstração de ignorância de história da ciência – o criacionismo brota no “terreno fértil do anafabetismo científico”, talvez você se refira a Havard ( batista), Princeton (presbiteriana), Oxford (anglicana), ou às Pontifícias Universidades Católicas do Brasil, ao Mackenzie, enfim …não que sejam criacionistas, mas que sendo ORIGINALMENTE instituições confessionais, são suficientemente imparciais para produzir, ciência, teoria e tecnologias, mesmo, aparentemente, em contradição com seus fundamentos, a isto se chama compromisso com a verdade! O ” terreno fértil do analfabetismo científico” se estabelece na cultura que, adota um “dogma” e se matem cega para as contradições. Se o evolucionismo, submetido estivesse, aos mesmos critérios da física, há muito já estaria no esgoto da ciência acadêmica. Concluindo você também acerta numa coisa: Não há como convencer “na marra”, porém perca as esperanças em “educadores comprometidos”, ONGs, ensino evolucionista fora das escolas, etc…. por dois bons motivos a) os criacionistas são muito mais eficientes nesse tipo de trabalho, b) Não adianta convencer na sala de aula, aquilo que a vida singela mostra falso, c) Nunca haverá segurança júridica para o ensino da evolução, se não o houver para o criacionismo ou qualquer outro tipo de conhecimento. O medo da verdade, a tutela da verdade, o cerceamento à livre expressão das idéias e o acesso indistinto , democrático, absolutamente desembaraçado ao conhecimento é o verdadeiro valor, superior a qualquer teoria, teísta ou não, que se impõe momentaneamente “no futuro, os evolucionistas serão conhecidos como uma SEITA do século XX” Lynn Margulis, bioquímica, recentemente falecida e esposa do famoso cientista , também falecido, Carl Sagan. Marcilio Leão

  4. Juliana Higa Bellini disse:

    Bem legal o assunto e bastante polêmico, pelo visto dos comentários.
    Acho que posso contribuir ao lembrar de David Harvey que diz que em condições extremas, associada a crises políticas, morais, econômicas o homem tende a se prender a estruturas como a família e a religião e sabemos que estas bases são frágeis dependendo de sua ideologia.
    Considero então que o aumento de pessoas crentes no criacionismo pode estar relacionado com um crise moral, econômica e/ou política que vivemos hoje, bastante intolerante por sinal, que não suporta ver a convivência e respeito entre crentes e ateus.
    Sou ateia, mas não vejo problema algum nos crentes, desde que não queiram atuar sobre minha liberdade e dentro de um Estado laico que se estabelece constitucionalmente. A liberdade de crença deles termina onde começa a minha liberdade, simples assim.

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