A vida não é um mar de rosas

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Publicado no Blog Sostenes Lima

“A vida não é um mar de rosas”. Essa é uma frase muito surrada. De tanto uso, perdeu a profundidade de sentido. Acho até que não significa mais nada. Mas já significou um dia.

Coisa bonita seria viver num mar de rosas. Tenho vontade de olhar para o horizonte e ver à minha frente um tapete de flores coloridas fazendo movimentos ondulados ao sabor de uma brisa suave. Tenho vontade de andar sobre esse tapete, fazer morada aí. Também tenho vontade que ele seja um mar por onde eu possa navegar ou um tapete encantado, por meio do qual eu possa viajar pelos cinco continentes. Mas esse tapete de flores e esse mar de rosas são apenas sonho, esperança. Existe apenas no desejo.

Na nossa vida de cada dia a coisa é mais complicada. A vida não é exatamente um mar e as flores não são tão vistosas, nem coloridas. Elas se apoiam em hastes cheias de espinhos. Como se sabe, movimentar entre rosas é muito arriscado. É difícil circular por aí sem ser ferido.

E o que dizer do mar? Ele muito grande, imponente e bravo. Duvido que a vida seja tudo isso. O mais certo seria dizer que a vida é um jardim. A grandeza e imensidão do mar não fazem justiça ao que a vida de fato é: limitada e esgotável. Bem que gostaríamos de viver num mundo sem fronteiras, gigantesco, tal como o mar. Mas a vida tem seus limites, e eles normalmente demarcam um espaço pequeno, apertado, às vezes, até hostil. Cecília Meireles nos adverte:

No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.[1]

Jardins têm cerca, são pequenos, delicados e frágeis; necessitam de cultivo constante para se manter diante de tantas ameaças. Assim é a vida: um jardim de rosas (não tão exuberantes), que se apoiam em caules espinhentos, prontos a ferir quem se dedica a cultivar flores que daí se podem colher. A vida é um jardim frágil, delicado, complexo, inconstante, sazonal. Talvez por isso seja extraordinariamente sedutora.

Sempre soubemos que a vida não está para brincadeiras. Mas ultimamente, começamos a nos esquecer disso. O que tem acontecido é que, de tanto a publicidade nos dizer que é possível viver num mar de rosas, bastando um mergulho no consumo, começamos a nos esquecer de como nossa casa, o jardim, realmente é. O mar de rosas anunciado pela publicidade oferece juventude eterna, beleza irresistível, segurança e poder.

Anúncios, comerciais, cartazes etc. dizem: compre muito cosmético e tratamento antienvelhecimento e você jamais se frustrará com o espelho. Compre muitas roupas, calçados e joias também. Fazendo isso o espelho sempre lhe dirá: “você é a pessoa mais bela do mundo”. O que espelho não fala, de jeito nenhum, é que outros espelhos dizem a mesma coisa para outras pessoas.

Se você precisa de segurança e poder, compre tecnologia, compre carros, compre fortalezas disfarçadas de casas, compre serviços de vigilância, compre prestígio. A conta é alta, mas o resultado é garantido (será?).

A maioria de nós acredita que o consumo garante uma vida de rosas, sem os espinhos. Somos enredados. Adoramos acreditar em conto de vigário. Mas convenhamos! Como não acreditar? A propaganda de uma vida paradisíaca, sem contratempos, é muito persuasiva; conta com recursos muito poderosos. As mídias se tornaram onipresente na vida das pessoas; dizem o tempo todo o que comprar, onde comprar e os resultados que cada compra garante. Além disso, a ciência e tecnologia estão cada vez mais voltadas para o bem-estar do indivíduo. É quase impossível não ser enredado. Com tantos recursos, parece não haver dúvidas de que a velhice, a feiura, o perigo e a insignificância podem ser vencidos.

Nossa geração não apenas acredita numa vida sem problemas. Buscamos a qualquer custo eliminar, via consumo, qualquer tipo incômodo, seja físico ou psicológico. Não toleramos mais o desconforto do corpo e da alma. Há uma parafernália de tecnologias materiais que garantem o bem-estar do corpo. Há também um arsenal de tecnologias simbólicas e discursivas, dispersas em várias indústrias (terapêutica, religiosa, editorial de autoajuda, cultural), que afiançam o conforto psicológico. Merece destaque à parte, as proezas ofertadas pela indústria farmacológica. Hoje se compra, via biomedicalização, quase tudo para o corpo e para a alma. Até a felicidade (?) pode ser comprada em cápsulas.

Quem não adere prontamente ao discurso de uma vida de sucesso é tachado de pessimista, reacionário. Quem não quer ser feliz o tempo todo? Quem não quer viver sem dor? Quem não quer ser jovem pra sempre? Só mesmo alguém muito deslocado do seu tempo poderia, estando a felicidade à venda, deixar de comprá-la. Só mesmo um reacionário aceitaria envelhecer, num mundo em que se pode comprar rejuvenescimento. Realmente são poucos os que ainda veem algum sentido na contradição, limitação, fraqueza da vida.

Não é preciso muito esforço para mostrar que a vida é bem diferente do que gostaríamos que fosse. Apesar de hoje podermos comprar muita coisa, a vida em si não é comprável. A felicidade também não é comprável.

Podemos até retardar o envelhecimento, mas ainda não há meios capazes de eliminar a dor, o vazio da alma, a dor da saudade etc. Também não há remédio para matar a morte.

Que fazer então? Há duas possibilidades. O primeiro caminho é entrar de cabeça (e bolso) no mundo da propaganda e acreditar, apesar das evidências contrárias, que é possível viver sem dor, sem feiura, sem velhice, sem perigo etc. Basta consumir de forma tresloucada e viciada; basta se deixar embriagar pelo ópio que nega todas as fragilidades da vida. Henri Nouwen nos diz que “a voz do mal também tenta-nos a simular uma fachada invencível. Palavras como vulnerabilidade, renúncia, rendição, choro, lamento e dor não serão encontradas no dicionário do diabo”[2]. Para viver sem crises, o primeiro passo é higienizar o dicionário da vida, fazer um limpa em todas as palavras que remetem à sua dureza e perigo. O problema nessa escolha é que, ao encarar a própria vida, talvez você tenha de admitir:

vivo uma vida
Que não quero nem amo,
Minha porque sou ela […]
[Ricardo Reis] [3]

Faço uma última advertência aos que decidirem tomar o caminho de negação da vida. Pode ser que no crepúsculo da existência, você ouça a voz de um dos seus eus fazendo a seguinte acusação:

Não morres satisfeito.
A vida te viveu
sem que vivesses nela.
E não te convenceu
nem deu qualquer motivo
para haver o ser vivo.
[Carlos Drummond de Andrade][4]

Outro caminho é aceitar que a vida é intrinsecamente complexa. Constitui-se de elementos contraditórios e complementares. A vida é a um só tempo bela e feia, alegre e triste, serena e terrível, domesticada e selvagem, saudável e doentia. A vida vive diante da morte e a morte morre diante da vida. Fernando Pessoa, no Livro do desassossego, sintetiza: “o próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”[5]. Vida e morte estão inseparavelmente casadas na vida.

Henri Nouwen nos ensina que quando aceitamos a vida como ela é, o “sofrimento deixa de ser um aborrecimento ou maldição de que temos que fugir sem poupar esforços, para tornar-se um caminho para uma realização mais profunda”. Devemos aprender “a olhar nossas perdas de frente, e não fugir delas. Ao aceitar sem repulsa as dores da vida, poderemos encontrar o inesperado”[6], ensaiar uma dança com a dor e um lamento com a alegria. Viver a inteireza da vida, com sabores e dissabores, não é apenas um caminho para uma vida equilibrada; é, sobretudo, o caminho para a experiência de uma vida grande, que valha a pena. Para mim, as palavras de Ricardo Reis são sábias e acertadíssimas:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.[7]

***

[1] Cecília Meireles. Mar absoluto e outros poemas. In: Antônio Carlos Secchin (Org.). Cecília Meireles – Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. v. 1. p. 455.
[2] Henri Nouwen. Transforma meu pranto em dança. Rio de Janeiro: Textus, 2002. p. 7.
[3] Fernando Pessoa. Odes de Ricardo Reis: obra poética III. Porto Alegre: L&PM, 2001. p.152.
[4] Carlos Drummond de Andrade. A falta que me ama. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968. p. 179.
[5] Fernando Pessoa. Livro do desassossego. In: Richard Zenith (Org.). Fernando Pessoa – Livro do desassossego: composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Rio de Janeiro: Companhia da Letras, 1997. p. 170. §178.
[6] Henri Nouwen. Transforma meu pranto em dança. Rio de Janeiro: Textus, 2002. p. xv.
[7] Fernando Pessoa. Odes de Ricardo Reis: obra poética III. Porto Alegre: L&PM, 2001. p.148-149.

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