Pastor presbiteriano perde a fé, deixa o ministério e é perseguido no Paraná

Publicado originalmente no Bule Voador

Entrevista do presidente da LiHS com Josimar Álvaro dos Santos, ex-pastor presbiteriano que passou a ser perseguido em publicações de Jaguapitã (PR), onde era missionário. A seguir, uma carta aberta de Álvaro à sua comunidade de ex-correligionários.

Download.

Participantes: Eli Vieira e Álvaro dos Santos.
Edição: Tiago Angelo.

CARTA ABERTA À COMUNIDADE PRESBITERIANA DE JAGUAPITÃ

Sei que é difícil de entender e até mesmo de aceitar que um pastor que alcançara muitas vidas para Jesus, agora apareça negando tudo aquilo que outrora pregava. Quero deixar claro que ninguém faz isso porque acha legal negar as coisas. Jamais quis ser repudiado por meus amigos e admiradores. Não acordei numa bela manhã de sol e decidi me tornar um agnóstico, foi um processo difícil! A cada descoberta ou a cada desconstrução produzida nesta busca, eu sentia um aperto no peito ao mesmo tempo que tal conhecimento me deslumbrava.

Muitos religiosos quando são confrontados com novos pensamentos, decidem fechar os olhos para não perderem o que construíram até o momento. Nas faculdades teológicas denominacionais, para que os alunos não sejam despertados ao conhecimento secular e ao livre pensamento, dificulta-se a leitura de livros progressistas e “liberais” afirmando que tais literaturas são perigosas e heréticas.

Minha conversão ao protestantismo se deu pelo intenso desejo da verdade. Sempre desejei ter encontrado na Igreja Presbiteriana a mais pura das verdades. Nunca fui desonesto com minha igreja devido minhas dúvidas em relação a algumas questões. Dúvidas todos temos e muitas delas não manifestamos para não colhermos os frutos amargos de árvores fundamentalistas.

Acreditei com devoção em tudo que pregava. Desejava intensamente formar uma igreja verdadeiramente bíblica, que honrasse a Deus em sua prática, mas, infelizmente, nunca consegui tal proeza. A igreja nunca se permitiu ser pastoreada de fato e sua liderança nunca esteve à altura de seu próprio discurso. Uma prova disso é a sede de sangue que algumas delas demonstraram possuir ao promoverem uma matéria repugnante contra mim num jornal da cidade e, como se não bastasse, distribuir panfletos pela cidade com o mesmo conteúdo.

Sofri muito ao tentar construir uma igreja minimamente decente. Poucos eram os membros dispostos a isso, os quais sempre agasalharei em meu coração, mesmo que me desconsiderem hoje.

Minhas decepções com a igreja me fizeram retomar a busca pelas respostas das questões polêmicas dos tempos de faculdade e de outras que foram surgindo durante minha vida pastoral. Foi então que conheci Nietzsche, filho e neto de pastor. Um filósofo que conhecia profundamente a bíblia e a teologia. Nietzsche me apresentou respostas consistentes e libertadoras através do seu O Anticristo e o Humano demasiado humano, que me salvaram do medo e da insegurança. Depois dele vieram outros como Schopenhauer, Bertrand Russell, Sócrates, os pré-socráticos e muitos outros. Até mesmo nossos contemporâneos, Richard Dawkins e Michel Onfray têm me influenciado muito. Claro que foram leituras muito superficiais, mas suficientes para trazerem respostas que não adquiri durante meus anos de leituras religiosas.

Alguns grupos também foram importantes nesse processo de mudança. O grupo irreligiosos, a LiHS (Liga Humanista Secular) e o The Clergy Project (Projeto Clero), criado pela Freedom From Religion Foundation e a Fundação Richard Dawkins. Todos tiveram um papel fundamental em minha vida nesse recomeço.

“Não posso conceber a ideia de um deus que cria seres pensantes para proibi-los de pensar, criativos para proibi-los de criar e com corações para proibi-los de amar como bem entenderem.”

Desculpem-me pela sinceridade, mas cansei-me de servir uma igreja que ostenta ideais calvinistas, que crê na dupla predestinação, uma doutrina que afirma que Deus cria algumas pessoas já predestinadas ao inferno e outras ao céu. Numa definição simplista, que somos seres desprovidos de escolhas, incapazes de tomarmos nossas próprias decisões. Uma teologia que diz que o ser humano faz tudo o que Deus já predeterminou e nada mais. Não deixando espaço algum para o livre arbítrio. Me cansei de buscar uma explicação para isso. Não posso conceber a ideia de um deus que cria seres pensantes para proibi-los de pensar, criativos para proibi-los de criar e com corações para proibi-los de amar como bem entenderem. Não posso mais me alimentar de conceitos que subestimam a inteligência humana e que condenam aqueles que simplesmente balbuciam algumas contestações.

Estou enfastiado desse pensamento que julga como maior pecado o espontâneo ato de duvidar. Nunca olhei para a dúvida como sendo pecado, apenas como um ato de prudência e sobriedade. Posso afirmar que em minha caminhada como religioso nunca encontrei pecado mais malévolo que os dogmas. O dogma é o pai da intolerância, o fomentador de discórdias e guerras.

Sei que existem correntes que acreditam no livre arbítrio, mas isso só piorou minha situação. Não conseguia entender a bíblia apresentando um deus diferente a cada escorregar de versículos. Quem estuda a bíblia sabe do que estou falando. Em toda sua extensão ela apresenta um deus camaleão, que muda de “cor” conforme muda o agente do discurso.

Me indigna o fato de todas as denominações religiosas afirmarem que detêm a prerrogativa da verdade absoluta sobre a vida. Hoje as vejo como uma casa de almas pobres e ignorantes, que não conseguem ver que a única verdade absoluta é que não há verdade absoluta ao alcance dos nossos olhos. Se existe uma teia de pensamentos absolutos sobre a vida, ela transcende ontologicamente.

No divino retratado pelo humano, Hegel já dizia que este tem em sua natureza contradições, que está constituído de duas forças que determinam movimentos de direções opostas que existem ao mesmo tempo e resultam em um terceiro movimento de uma nova direção. É o problema da dialética da teodicéia, onde encontramos uma tese e uma antítese. A tese bíblica afirma que Deus é absolutamente bom em sua natureza, que não há maldade em seu pensamento, nem pecado em suas atitudes e que jamais criaria o mal. Também sustenta que ele é um ser onipotente, onisciente e onipresente, e que nada acontece no mundo senão pela sua soberana vontade. A antítese contrapõe esse argumento, deduzindo que, se tudo que existe, só pode existir pelas mãos de Deus, então Deus criou o mal e se não deseja eliminá-lo, ele próprio é mau. Mas como já dizia Hegel, duas proposições contrárias não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Uma proposição precisa ser eliminada, pois elas se contrapõem. Um novo movimento de uma nova direção se faz necessário diante desse dilema e é claro que esse novo movimento precisa ser construído fora do mundo bíblico e religioso.

Este nó, que os teístas judaico-cristãos não conseguem desatar é mais uma prova que o ser humano é incapaz de definir deus e seus atributos e que a bíblia, efetivamente, reverbera suas antinomias. Habacuque que o diga! Em Hc.1:13 ele deixa transparecer seu conflito quanto à teodicéia: “tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele?”

Foi este conflito filosófico que me fez cair aos pés de grandes pensadores como Epicuro, que, caprichosamente, levantou a questão paradoxal acerca da relação de deus e o mal.

Enfim! Quero que todos compreendam que não estou me expondo com a intenção de me desfazer da igreja, também não é por arrogância ou insolência. Eu entendi que precisava fazer isto para não continuar prisioneiro do medo, pois quando nos rendemos a ele, temendo as perdas por causa do preconceito, somos acometidos pela angústia e a depressão que suga toda nossa alegria de viver.

Agora, quero ajudar outros pastores, padres e demais líderes religiosos a reencontrarem a alegria da vida.

Um carinhoso abraço a todos,

Josimar Álvaro dos Santos
diretor de cerimônias humanistas da Liga Humanista Secular do Brasil.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Pastor presbiteriano perde a fé, deixa o ministério e é perseguido no Paraná

9 Comentários

  1. Campos disse:

    Verdadeiramente a letra mata. Mas, o Espirito Vivifica.

  2. O Corneteiro disse:

    Putz! Tem crente aqui se achando (Face…) o(a) gostosão (zona) mais santo do que o outro que saiu… só porque ele se “encralacou” nos dogmas e filosofias.
    Não vivem a vida do outro com toda certeza para dizer certas certezas e empunhar certas empáfias… Por isso, que os crentes de maneira geral são intolerantes e sem visão do seu próximo para tentar levantá-lo, é mais comodo tacar pedra mesmo, sejam eles neopentecas ou históricos… perderam a visão da misericórdia e do amor… existem alguns poucos remanescentes que ainda tem, mas o resto quer é realmente queimar todos que não são como eles na fogueira da carraspana… A questão não é o dogmatismo falho presbiteriano, batista, assembleiano ou outro, tá tudo na mesma panela da mediocridades clericais, O sistema “evangélico” está falido porque não conhece a essencia de Cristo, camuflam Este por causa de seus interesses dogmaticos em detrimento das almas das pessoas…fariseus… não conseguem olhar pra si e fazer uma mea culpa de que todos as situações que passamos hoje são resultado desta discrepancia engessada de instituições igrejais que não tem coração e nem alma que confunde não só pastores mas muito mais gente. Que Deus tenha misericórdia de nós e que muitos possam sair desta ciranda religiosa maniqueísta e enxergar a Cristo na Verdade que o libertará. As “igrejas” passam mas o Verbo não passará.

  3. geraldo disse:

    É mais um relato de um homem que foi enganado pelas instituições religiosas que se acham acima do bem e do mal. Que DEUS tenha misericírdia de nós, pois a cada dia nos enveredamos mais e mais no dogmatismo e no farisaismo disfaçado de piedade.
    Acredito em DEUS e tenho a certeza de que todas as religiões são falhas, porem necessárias para o homem. DEUS se revela até mesmo nas coisas mais pequuenas e insignificantes para nós e ELE vai se revelar para todos que o derem atenção!

  4. Natan Araujo disse:

    Incrível é as pessoas pensarem que errado está o ex-pastor e não a religião em si. Acusam de fraco, pedem que deus tenha misericórdia dele, mas em momento algum procuram saber se há ao menos uma faísca de verdade, simplesmente reputam-no como errado e refutam qualquer idéia que vai contra aquilo que aprenderam de outros pastores, que aprenderam de outros e de outros. Poucos são os que vão atrás da verdade, por preguiça e por medo de que estes, que julgavam errados, de fato, estarem certos.
    Tentem ir atrás da verdade. Se o cristianismo ou qualquer outra religião estiver certa, vocês saberão, mas se não for verdade, entenderão o porque da aitude do ex-pastor.
    Não em livros religiosos ou de religiosos, mas em livros de história e ciência, livros filosóficos e científicos. Se a fé que tem for verdadeira irá subsistir e encontrar sustentação, do contrário serão livres de mais um mito, de uma superstição tal qual a mim, depois de 18 anos de dedicado cristão da ADB.

  5. miguel lopes disse:

    Creio que uma pessoa deva estar bem resolvida com a sua fé, antes de enfrentar os pensamentos das ciências sociais, porém creio que já haviam dúvidas que não foram bem trabalhadas no coração desse querido irmão. Ouvir dizer que não foi Deus quem criou o homem, mas o homem a Deusm é para se parar e pensar…,porém o que não se percebe é o caráter básico desse Deus esboçado da mesma forma pelos escritos de vários autores, em vários continentes e em anos diferentes. Os homens podem ter criado seus deuses, mas não o Deus bíblico! Tenho misericódia desse querido irmão, pois sua busca continuará por estradas diferentes, como foi dito acima. Foi-lhe despertado um desejo de conhecer o icognicível. No meio das disciplinas sociais, eles chamam essa postura de: estado da maioridade, do pensar por si. Que o Deus que se “REVELA” ,mas não se mostra, possa trazer-lhe plena revelação Dele, pois só o Senhor pode fazer com ele o que fez com Tomé; Pois viver sem a consciência de Deus é viver o vazio do nada! ” Graças te dou o Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelastes aos pequeninos”. (Mateus 11.25); “Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar as fortes;… Deixem esse irmão seguir seu caminho, e oremos para que ele possa seguir aquilo que for melhor para ele; pois não creio que a soberania divina exclua a responsabilidade humana; é uma via de mão dupla, ou como disse Spurgeon: O trêm precisa dos dois trilhos para andar do contrário descarrila. O conhecimento é importantíssimos para nossa plena formação e se não pudermos enfrentá-los, o nosso encontro com ele não foi bem um encontro. Quem esta em pé cuide para que não caia!

  6. joimar M. Souza disse:

    Ele não entendeu nada…arrependa-se, você sabe do que eu estou falando.

  7. alexandre disse:

    O ser humano é fantástico! Vejo nesse ex-pastor um cara verdadeiro, que pelo menos tem a coragem que muitos não tem de dizer e viver o que pensa e por isso digo que ele realmente é feliz e não ipocrita com o muitos das igrejas que são pobres e se escondem por trás do manto da religião ou religiosidade.

  8. Decepicionar-se com o calvinismo, foi só uma desculpa, para alguém que ainda não se converteu
    O que fez este homem 5 anos no Seminário ? Gente, imatura e totalmente despreparada indo pro Seminário. Cego guiando ovelhas, sabe lá qual a condição ele deixou as ovelhas que pastoreou. Gente despreparada na fé, imatura e cega espirirualmente, mas indo pro Seminário. Brincando de ser Pastor! Lamento profundamente que tenha brincado de Igreja e brincado de ser Pastor. Ele nunca teve chamado e nem vocação. Devia ter orado mais e pensado mais e melhor antes de ir pro Seminário e brincar con a fé de suas ex ovelhas, algo tão sério. Lamentável!

  9. Como preabiteriano, sinto-me muito decepicionado, cadê a vocação e o chamado sacerdotal dele ? O que fez este homem 5 anos num dos Seminários mais puxados do Brasil que o Seminário Presbiteriano ? Ele ajudava a resgatar almas, e agora ele é que está desgarrado, como ficou sua Igreja, ao ver seus Pastor e líder chutar o pau da barraca e ir embora e largar a fé ? Calvinismo foi só uma desculpa, ele já vinha lendo o ateu Nitche, Epicureu e vârios outros filósofos cheios de conceitos humanos, calvinismo que é bíblico e eu nem sou Pastor e entendo como bíblico, mas calvinismo foi só uma drsculpa para uma mente talvez inconversa, mas cheia de conceitos da Filosofia e não de Deus. Ele nunca deveria ter ido pro Seminário, um Pastor não pode chutar o pau da barraca e largar tudo e até Deus. O Pastor tem o ser exemplo, como estarão suas ovelhas agora sem Pastor, aquele que ia ao encontro das almas, agora ele també desgarrou-se de Deus. O Pastor que pastoreava um e o conduzia pra Deus, agora ele próprio desviou-se.

Deixe o seu comentário