Erundina mostra que ainda há políticos com vergonha na cara

“É demais para mim”, tinha dito a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) ao site de VEJA diante da foto Lula-Maluf. Coerentemente, ela deixou o posto de vice de uma chapa apoiada pelo malufismo (Foto: VEJA)

Ricardo Setti, no site da Veja

Amigos, não compartilho da ideologia da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), ex-prefeita de São Paulo pelo PT (1989-1993), e da maior parte de suas propostas.

Mas sempre a respeitei pela extrema correção e dignidade, pela modéstia de sua vida pessoal e por sua coerência política.

Um episódio me ficou especialmente gravado.

Quando caiu a Presidência podre de Fernando Collor, em setembro de 1992, e o vice Itamar Franco assumiu interinamente (o faria de forma efetiva em dezembro), a esmagadora maioria das forças políticas entendeu que deveria apoiá-lo, numa espécie de governo de união nacional, para tentar restaurar as instituições deixadas em frangalhos pelo desastre collorido.

Convidada pelo presidente Itamar, a então petista Luiza Erundina aceitou ser ministra da Administração.

O PT resolveu “suspendê-la” do partido por um ano, como punição por não ter consultado antes seu Politburo — que, naturalmente, não apenas não prestou o menor apoio ao incipiente governo Itamar como não tardaria em lhe fazer feroz oposição.

Quem não se recorda de que o próprio Lula, num desabafo que um jornalista teve a dignidade de publicar, chegou a chamar o presidente de “filho da p…”?

“Suspensa” pelo partido, Erundina imediatamente agiu como pessoas de bem o fariam: preferiu ajudar a acalmar as águas do país naquele momento, emprestando sua colaboração ao governo multipartidário de Itamar. E deixou ela o PT, do qual, por sinal, determinadas correntes já lhe haviam criado casos intermináveis, tornando sua vida um inferno durante a gestão como prefeita — apoiando greves selvagens do funcionalismo, dinamitando tímidas iniciativas de aproximação com a iniciativa privada (como o acordo com a Shell sobre o Autódromo de Interlagos)… e por aí vai.

Agora, com o episódio da foto em que Lula, ninguém menos do que Lula, se derrama em sorrisos diante de um também sorridente Paulo Maluf, na mansão deste em São Paulo, a que acorreu para agradecer o apoio malufista a seu candidato à Prefeitura, a deputada, do alto de seus venerandos 77 anos, disse “basta”, “é demais para mim” — e, acertadamente, pulou fora da chapa do ex-ministro da Educação Fernando Haddad, de quem seria candidata a vice.

Discordâncias ideológicas à parte, não se pode deixar de constatar que, felizmente, ainda há políticos “neste país” que têm vergonha na cara.

Comentários

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2 Comentários

  1. ladislau faria junior disse:

    Parabéns à Erundina! Já chega de acertos com os “demonios” para se governar. Todos sabemos que o mensalão foi a compra de votos para se governar e quem é do bem não faz acordos, nem se alia ao mal, ainda que com “boas intençoes”. O PT boicotou todos os governos e agora tem que governar num ambiente demoníaco. A moral pode demorar, mas temos que pagar o preço para ancança-la. A filosofia de “os fins justificam os meios” nunca deu certo.

  2. Marco Aurélio disse:

    A velha cantilena da oposição. Só uma mente delirante acreditaria que um partido, com a caneta na mão, dispondo de cargos, ministérios, verbas parlamentares e ainda com uma imensa maioria em sua aliança, precisaria pagar mensalmente deputados para votar junto com o governo, aliás, votar o quê? Durante o período do tal mensalão, o governo não teve nenhum projeto importante para se submeter a tal situação. Enfim, tem gente que crê em duende, papai noel, certamente acreditará nas palavras do grande estadista Roberto Jefferson, delatou do mensalão, que aliás, diga-se de passagem, em sua defesa, negou que existisse isso. Hehhe.Sobre alianças meu caro iludido, não fosse as alianças estabelecidas durante a Segunda Guerra Mundial, onde campos que se odiavam e eram antagônicos se uniram, hoje talvez o nazismo fosse a doutrina imperante. Um pouco de História com H maiúsculo não faz mal a ninguém.

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