O início das neuroses dos filhos ou A teoria do Não Dá Mais

Martha M. Batalha, no Mulher 7×7

Olha, não dá mais. Minha filha, quando você precisar fazer análise daqui a 20 anos vai poder dizer pro analista o dia e a hora em que seus traumas começaram. Duas da tarde do dia 28 de maio de 2012, quando numa tarde de feriado a sua mãe e o seu pai deixaram você sozinha com a nova babá por três horas. Se quiser eu vou até a sala do seu analista me crucificar. Digo é isso mesmo, doutor, naquele dia eu saí por três horas. Deixei a minha filha e a babá entretidas na tarefa de transformar uma caixa de sapatos em um cofre de porquinho. Avisei que ia sair, minha filha largou tudo e partiu pra cima de mim com aquele pincel sujo de tinta. Eu disse não encosta no vestido da mamãe, não encosta no vestido da mamãe, mamãe vai sair pra namorar papai, bati a porta e saí correndo. Não me preocupei com as mãozinhas da minha filha esmurrando o outro lado. Parei de escutar os gritos não porque voltei pra consolar, mas porque o elevador se afastava do nosso andar.

E você, minha filha, vai poder definir com precisão o motivo da sua análise: Abandonada Com a Babá Enquanto Transformava Caixa de Sapatos em Cofre de Porquinho.

Até então eu estava tentando ser uma boa mãe. Li todos os livros e entrei em todo os sites para seguir as melhores teorias sobre educação. Mas depois que meu segundo filho nasceu, há três meses, depois que eu tive que dividir meu tempo entre me conectar com o segundo e não deixar a primeira sem amor, depois que eu perdi a noção de dias de semana e de fins de semana, porque só os filhos e seus horários insanos importavam, depois que dias e noites passaram a ser a mesma coisa, porque tudo ficou dividido em breves intervalos de três horas entre as amamentações, eu adotei uma nova teoria de educação. A do Não Dá Mais.

De acordo com a teoria do Não Dá Mais eu preciso sair de casa com o meu marido de vez em quando – só os dois – para poder vê-lo sob uma nova perspectiva. Sem ter o travesseiro no ouvido para se proteger dos gritos do recém-nascido de madrugada, sem me dar bom dia com cara de sono porque a neném de dois anos acordou às seis da manhã, sem que esteja lavando a louça, saindo atrasado para o trabalho ou comendo macarrão de caixinha. De acordo com esta nova perspectiva meu marido é um adulto capaz de se expressar por mais de 30 minutos sem usar as palavras cocô, arroto, golfada e catarro.

De acordo com a teoria do Não Dá Mais um bebê de três meses que chora toda a vez que encosta no berço deve ser treinado para dormir sozinho. Este treino não será baseado nos ensinamentos de algum expert, mas no fato de que eu não vou ter mais forças para tirá-lo do berço.

De acordo com a teoria do Não Dá Mais meu marido tem o direito de me ver vestida de outra forma que não seja figurante de bordel em novela da Globo, com o sutiã aparecendo por baixo da camisola, disposta a enfiar o peito na boca de um recém-nascido no primeiro sinal de choro. Ele também tem o direito de icinerar o pijama cinza lavado e relavado tantas vezes que parece até que tem brotoeja, por causa das tantas bolinhas de algodão.

De acordo com a teoria do Não Dá Mais, se a minha filha desenrola o papel higiênico, joga minha escova de dentes na privada e enche a cabeça do irmão de vaselina num intervalo igual ou menor que dois minutos eu entendo que ela faz isso porque ainda não sabe se expressar. Entendo que o que ela realmente quer dizer é me dá uma palmada agora, e como a boa mãe que sou atendo a seu pedido. Mesmo que todas as teorias de todos os livros digam que é errado dar palmada, que por causa das palmadas a criança aprenderá a ser violenta e vai arrancar o couro cabeludo dos amigos na pracinha, cravar os dentes na babá e se comunicar com os colegas da escola a ponta pés. Neste caso a atitude da minha filha é semelhante a da mulher de malandro – eu não sei se devo bater, mas minha filha saber porque está apanhando.

Não, não dá mais. Como disse uma amiga, eu tô naquela fase em que se alguém chegar pra me abraçar tem que tomar cuidado, porque é só abrir os braços perto de mim pra eu entregar um neném – golfado, mijado ou cagado.

A teoria do Não Dá Mais também tem um epílogo, onde está escrito que muito em breve eu vou ter saudades de tudo isso. E eu sei que isso é mesmo verdade, porque sou capaz de sentir saudades das coisas no momento exato em que acontecem. Eu já sinto saudades quando, às cinco da manhã, meu neném acorda pra mamar e depois adormecemos juntos, ele encostado no meu peito. Já sindo saudades quando, às sete da noite, minha filha pede pra eu chegar mais perto, e juntas lemos pela quarta vez o mesmo conto de fadas.

Eu já sinto saudades de tudo isso e por dentro repito o mantra conhecido de todas as mães: cresce não, cresce não. Em vão, eu sei. Muito em breve ninguém me acordará às cinco da manhã. Muito em breve não vou ter mais que repetir histórias. Muito em breve vai sobrar perna quando eu pegar um dos dois no colo. Muito em breve.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O início das neuroses dos filhos ou A teoria do Não Dá Mais

Deixe o seu comentário