Pai, você é mesmo ateu?

Foto de Alberto Jacob

Tom Fernandes, no blog Pequenos Dramas

Pai, você é mesmo ateu? A pergunta sai espremida no fim de um longo abraço de boa noite. Uai, Daniel, de onde vem essa pergunta agora? É? Eu? Não, não sou, mas de onde veio essa dúvida? O pai da Ana, ele disse umas semanas atrás que você era um bom homem, mas era uma pena ter virado ateu. O Rodrigo disse isso?, pergunta enquanto ajeita o travesseiro do Daniel. Bom saber que seu tio me acha um bom homem, né? É, mas ser ateu é muito feio, pai. E o que é ser ateu, você sabe me explicar, Daniel?

Enquanto Daniel dorme, depois de ter dado de ombros pra pergunta, Gustavo rememora sua amizade com Rodrigo, os anos de faculdade, os acampamentos de mocidade, o compromisso de que iriam ganhar o país. Com o fim do seminário, Gustavo foi embora. Rodrigo ficou e com os anos acabou substituindo o pároco. Quando voltou do Chile, Gustavo trazia seu pequeno Daniel na bagagem. Rodrigo havia se casado e teve quatro filhos, a linda Ana Flávia era da mesma idade de Daniel.

O abraço espremido de Gustavo no aeroporto parecia ter incomodado Rodrigo. Antes ficavam no abraço até um dos dois ter perdido o fôlego. Ficou bem de colarinho, Rodrigo! Queria poder dizer o mesmo desse seu cabelo desgrenhado, Gustavo. O olhar de Rodrigo era diferente, mas devia ser estranhamento dos dez anos que ficaram sem se ver. Só notícias de fim de ano. Gustavo voltava ao Brasil para dar aulas numa universidade. Rodrigo fizera a antiga paróquia de seu bairro dobrar de tamanho. Em comum, a viuvez. Rodrigo perdera a mulher no quinto parto, o bebê também não sobrevivera às complicações.

Gustavo perdera a esposa no terremoto ocorrido no Chile. O tom cinza dos cabelos denunciava que havia sofrido bastante. Fiquei sabendo que você perdeu a fé, Gustavo? Isso não é verdade, Rodrigo, ou melhor, é! Ante o olhar espantado do amigo, Gustavo completa: mas ela me achou de volta. Mas e as coisas que você andou escrevendo e publicando? São apenas as coisas que andei escrevendo. Rodrigo, o que te importa é que estou aqui, neste restaurante aqui no Brasil, tomando um chope com meu melhor amigo nesta vida! Brindemos! Ou melhor, Garçom, traz mais dois pra gente que precisamos brindar! Acho melhor não, Gustavo! Tenho uma reputação agora, não posso ser visto me embriagando com você? Embriagado ou comigo?

Alguns meses depois e Daniel vem com a pergunta, plantada pelo Rodrigo. Como não perder a fé num jantar daqueles? Como não perder a fé numa tragédia como aquela no Chile. Rodrigo alisa inconscientemente a aliança no dedo direito, sinal mais aparente de sua viuvez. Foi a mulher de sua vida que morreu naquele hospital humanitário, naquela ala de queimados, cuidando de gente excluída. Daniel se remexe na cama e Gustavo lembra do motivo de ter reencontrado a fé, o amor contido nas pequenas mãos de Daniel no funeral: Papai, chora não. Eu fiquei aqui pra tomar conta de você.

(Escrito ao som de Hallellujah, de Rufus Wainwright)

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