Usadas como “muro de lamentações”, redes sociais ganham caráter de autoajuda

Especialistas dizem que usar a rede social para se lamentar tem prós e contras

Heloísa Noronha, no UOL Mulher

Não dá para negar que as redes sociais são usadas como uma espécie de terapia virtual em grupo. Facebook, Twitter e até o moribundo Orkut se transformaram em murais de desabafos, lamúrias, reclamações e pedidos –sutis ou nem tanto– de ajuda, compreensão, elogios etc. Entre um choramingo e uma frase de efeito, porém, há quem se beneficie não só com os comentários que suas queixas ou indiretas despertam, mas com o alívio que compartilhá-las proporciona.

Mas sob o ponto de vista dos especialistas em comportamento, será que todo esse movimento de autoajuda virtual funciona? “Não é possível afirmar que todas as pessoas que expõem opiniões, emoções, pensamentos ou vivências sentem efeito e repercussão positiva. Contudo, observa-se atualmente, tais práticas parecem ser válidas, principalmente, para os internautas que têm retorno ao publicar algo do tipo nas redes”, diz a psicóloga Regiane Machado.

De acordo com Ari Brito, especialista em marketing e neuropsicologia e professor da Universidade Santa Cecília, em Santos (SP), as redes sociais acabam funcionando como uma companhia para muitas pessoas isoladas e solitárias, já que ali podem exercer uma socialização que fora da rede não têm. “Para essas pessoas, representar uma personagem nas redes tem um efeito terapêutico. Ao postar determinadas informações, recebem comentários positivos e se sentem acolhidas. As abordagens funcionam como uma autoafirmação”, afirma. Mas tamanha exposição, no entanto, tem prós e contras.

Veja a opinião de especialistas sobre os principais comportamentos:

Tipos de post

Desabafos

Tipo de post: desabafo
Objetivo: conseguir elogios

Para a psicóloga e coach Tália Jaoui, se a pessoa publica que está se sentindo um lixo, é porque já espera receber uma avalanche de mensagens motivadoras. Já o consultor em mídias sociais Felipe Agne afirma que desabafar é humano. “Mas, geralmente, fazemos isso com os mais próximos, pessoas que realmente se importam com a gente. É bom lembrar que nem todos os amigos no Facebook são realmente ‘amigos’. Assim como há pessoas que vão tentar levantar o seu astral, há quem vai vibrar por você estar mal”, afirma. Há também o risco de virar motivo de piada e, em vez de apoio, receber um esculacho. Ari Brito, especialista neuropsicologia, afirma que “os elogios servem de reforço de sua posição e, portanto, consagram o seu reconhecimento e podem, sim, reforçar a autoestima”.

Frases de efeito

Tipo de post: frase de efeito
Objetivo: virarem um mantra

De “memes” engraçadinhos a frases irônicas anônimas e citações atribuídas –muitas vezes erroneamente– a gente de peso, como Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu e Chico Xavier, as redes sociais são uma verdadeira enciclopédia virtual de dizeres inspiradores. Muita gente adora postá-los, geralmente com o intuito de que aquilo reforce seus sentimentos e, principalmente, se torne verdade ou melhore seu astral. A psicóloga Tália Jaoui explica que essas frases poderosas funcionam. “No momento certo, fazem muita diferença. Conheço inúmeros casos que comprovam isso. Já aconteceu até comigo”, diz. Ari Brito, porém, enxerga uma outra função nesses posts: “Normalmente, as pessoas querem demonstrar inteligência e articulação, pois buscam reconhecimento através destas frases, que no fim funcionam muito mais como marketing pessoal do que como uma demonstração positiva, de otimismo”, afirma.

Confissões de problemas

Tipo de post: confissão de problemas (financeiros, de relacionamento, no trabalho…)
Objetivo: ter acolhimento e sincronicidade por parte de quem vive algo parecido

Tália Jaoui acredita que há a vontade de se exibir. “Se por um lado tais confissões podem gerar sincronicidade, por outro geram exposição demasiada de intimidade. Se você tem algum problema deste gênero, tudo bem comentar com amigos ou parentes, mas em uma conversa particular. Pode ser uma mensagem privada, mas dizer para todo mundo ver é estranho”, declara a coach. Na opinião do consultor Felipe Agne, as pessoas se identificam com os problemas das outras, apoiando-se mutuamente por sentirem que não estão sozinhas. “Mas confessar esses problemas e atrair simpatias não os resolve. No caso dos relacionamentos, a outra pessoa pode se sentir constrangida pela exposição. Quanto a falar do trabalho, há casos que levam à demissão. Ou seja: pode gerar acolhimento, mas pode ser um fator de exclusão”, afirma. “Muita gente se expõe para se vitimizar, buscando uma cobertura dos amigos em relação ao problema, como se fossem dividir a culpa –quando se sentem culpados pelo acontecido”, afirma Ari Brito.

Xingar

Tipo de post: xingar ou demonstrar raiva
Objetivo: aliviar a ira

Com certeza, postar funciona como válvula de escape. Imagine caminhar na rua, bater com o pé em uma pedra e não poder soltar aquele palavrão? Mas isso é uma reação espontânea em um momento específico, que acaba quase tão rapidamente quanto começou. Quem viu a situação entende completamente o que você sentiu e a sua reação. “Nas redes sociais, as pessoas não estão vendo o que acaba de acontecer com você e o registro do seu descontrole é o que fica exposto e gravado. Talvez, essa não seja a imagem mais adequada para ter no espaço virtual”, afirma o consultor em redes sociais Felipe Agne. “Em alguns casos, xingar na internet só mostra desequilíbrio e falta de inteligência”, diz a psicóloga e coach Táila Jaoui.

Mandar indiretas

Tipo de post: mandar indiretas ou lavar roupa suja
Objetivo: catarse, liberar adrenalina, lavar a alma

“A ideia é chamar a atenção no grupo. Muitos postam frases com as quais nem concordam, mas, como despertarão eco na rede, apresentam tais argumentos buscando compreensão e, às vezes, se vitimizar”, diz Ari Brito, especialista em marketing e neuropsicologia. “Mandar indiretas é uma atitude infantil. Mostra inabilidade em lidar com o problema e resolvê-lo com quem deve. A pessoa pode até sentir-se de alma lavada, mas não fez nada para resolver a situação. E poucas coisas são mais desagradáveis do que falar mal de alguém supostamente pelas costas, ainda que em espaço teoricamente público”, diz Felipe Agne.

ilustração: Stefan/UOL

dica do Marcos Florentino

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