Terreiros desempenham papel fundamental no combate à fome, diz pesquisa da PUC-Rio

Rituais de Iemanjá no réveillon acabaram incorporados à cultura da cidade: roupas brancas e flores no mar para saudar o novo ano
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Clarissa Monteagudo, no Extra

Às vésperas de sua festa de 80 anos, 66 deles na vida religiosa, Pai Zezito de Oxum honra suas raízes baianas. Na cozinha, à tarde, mistura milho, leite de coco, açúcar. Nas mãos do babalorixá, vai nascendo o munguzá. Ritual? Só se for de solidariedade. O quitute é uma das merendas servidas às crianças da Escolinha Corte Real da Nação Ijexá, gratuita e sediada em sua casa.

Assim como Pai Zezito, que também distribui cestas básicas, 42,7% dos terreiros de umbanda e candomblé consultados no Mapeamento das Casas de Religiões de Matriz Africana do Rio de Janeiro vão muito além de alimentar a fé dos devotos: agem no combate à fome, a maioria sem nenhum apoio do governo, empresas ou ONGs.

— Podemos dizer, sem dúvida, que eles estão fazendo a diferença no combate à fome, muitos em bolsões de miséria do estado. E a maioria realiza ações sociais, como entrega de cestas básicas, com esforço de membros da própria casa, sem contar com parcerias — explica a pesquisadora Denise Pini, coordenadora do estudo ao lado da professora Sonia Maria Giacomini, ambas da PUC-RJ.

Em seu terreiro, no Cachambi, Pai Renato d’Ogunjá promove bingos beneficentes e rodas de samba. Nesses encontros nutridos de devoção, os mundos natural e sobrenatural se encontram. De acordo com o babalorixá, os anfitriões das festas são as entidades da casa (os espíritos, guias da umbanda), como o próprio Zé Pelintra, na cultura popular sempre ligado à boemia carioca.

O som fica a cargo do filho do babalorixá, que formou o grupo de samba Filhos de Ogum. Agora, Pai Renato busca patrocínio para ampliar a distribuição de cestas básicas — hoje tira do bolso para doar cerca de 20 — e criar um centro de cultura afro para a população carente dentro do terreiro.

‘O diabo não existe’

Mesmo sem apoio, começou o trabalho com palestras sobre a história e religiões do continente africano. E distribui apostilas para contornar equívocos como a demonização da religião.

— Foi um erro da própria umbanda no passado. As cantigas falavam de diabo, as pessoas necessitavam impressionar, causar medo. O demônio nem existe no culto afro — reclama o babalorixá, que fica indignado ao ver a atuação de falsos religiosos:

— Essa propaganda de que traz a pessoa amada em três dias ou três horas não tem nada a ver com candomblé e umbanda. A religião é o avesso disso. É tranquilidade e um caminho de paz.

Enchentes expulsam crianças da escola

Bolo de fubá, canjica, cachorro-quente, arroz doce, munguzá. À tarde, o lanche na escolinha do Pai Zezito é farto. Hoje, são apenas oito alunos, mas as carteiras vagas esperam novos estudantes. Há capacidade para até 25 crianças na classe da professora Luana Carvalho, de 34 anos, sempre orgulhosa dos feitos de seus pequenos.

Ela conta que o Marcos Vinicius, de 4 anos, no dia anterior, “tirou uma estrelinha de ouro”. E, na hora de organizar a turma para a foto, pega o celular correndo: na memória do aparelho, canções distraem os alunos.

Mas nem toda rotina escolar é doce como as merendas de Pai Zezito. Luana sofre quando se lembra das enchentes nos bairros de Lote Quinze e Parque Amorim, que volta e meia expulsam estudantes:

— Muitas crianças tiveram que sair daqui, queria ter notícias delas. Na minha rua, só minha casa ficou de pé.

A dor dá lugar ao sorriso quando ela lembra as crianças recuperadas do analfabetismo. Em uma carta emoldurada, pendurada na parede do terreiro, uma mãe agradece ao babalorixá pelo trabalho com seu filho.

— Já peguei um menino de 12 anos analfabeto. Em seis meses, saiu daqui para a escola. Nós damos reforço escolar também. Temos os de 4 a 6 anos e outros, mais velhos, que estudam paralelamente ao trabalho aqui — conta Luana.

Pai Zezito aceita crianças de qualquer religião. Está acostumado a ajudar.

— Quando fundei o terreiro, em 1960, não tinha nem água no bairro, o pessoal vinha pegar aqui na minha fonte de Oxum.

E quantas crianças o senhor ajudou?

— A gente não conta.

Foto: Alexandre Cassiano

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