Pare de ensinar a ética de Jesus

Por Peter Rollins
Tradução de Nelson Costa Jr.

Há uma forte tendência entre os freqüentadores de igreja de extrair, e ensinar a estrutura ética encontrada nos Evangelhos. Em algum momento, por exemplo, as pessoas organizam uma comunidade aonde elas tentam viver certos princípios como ajudar alguém em necessidade, dar a outra face para bater, e viver de forma simples.
Há no entanto, um certo número de problemas inter-relacionados com esse tipo de abordagem. Em primeiro lugar, tende a gerar culpa. Em outras palavras, quanto mais seguramos certos princípios, maior é a tendência de nos sentirmos culpados quando falhamos.
Isto nos leva a um segundo problema denominado por repressão. A fim de lidarmos com a culpa, passamos a evitar o confronto direto com nossas falhas. Desta forma, negamos intelectualmente o que estamos fazendo.
Uma das minhas parábolas favoritas, é aquela em que um rei retorna à sua casa um certo dia, e encontra um mendigo na frente de seus portões. Ao ver o pobre homem em trapos, o rei corre para o palácio e convoca um de seus servos, e diz: “Há um mendigo lá na entrada do palácio, retire-o de lá imediatamente! Você não sabe que sou um homem muito bom e compassivo a ponto de não poder olhar par tal sofrimento?”
Esta é lógica banal que brincamos diariamente: “Não me mostre a sujeira que ocorre nas indústrias de lacticínios pois, eu amo tanto os animais que não suporto ver tanta dor”. “Não me diga aonde esta roupa foi feita porque não posso nem imaginar se ela é produto do trabalho escravo”. Aqui, nossas” crenças “são nada mais do que uma forma de incredulidade – são histórias que contamos a nós mesmos, sobre nós mesmos, a fim de evitarmos a verdade. É incredulidade porque é totalmente firmada naquilo que acreditamos, e porque de certa forma mascara o que realmente acreditamos – Este assunto sobre incredulidade, é algo que irei abordar no meu próximo livro “A idolatria de Deus”.
Finalmente, isso nos leva ao sintoma. Em outras palavras, somos capazes de manter a atitude que expressivamente condenamos, sem realmente sermos confrontados diretamente por elas. Só dai percebemos o quanto algumas organizações defendem conscientemente as piores, e mais destrutivas estruturas éticas – o lado sombrio do abuso sexual na Igreja Católica pode ser um dos exemplos.
Esta foi a visão que Paulo teve sobre a lei. Ou seja, quanto mais evitarmos a imoralidade por causa da moralidade, maior será a imoralidade. Quanto mais alto for o “Não”, maior será a tentação de transgredir o “Não”. O resultado é a culpa. A culpa que é gerada através da repressão, e a repressão que, por sua vez, empurra nossas ações destrutivas para o inconsciente, aonde se manifesta em nossas ações clandestinas – i.e. sintomas.
Logo, qual seria a alternativa para tentar manter os princípios éticos? A resposta estaria na criação de um espaço de graça, ao qual nos convida a expor nossas trevas – uma comunidade que não condena nossas ansiedades, ou muito menos nos exige mudança. Em suma, um lugar onde podemos confrontar nossa humanidade ao invés de fugirmos dela.
O segredo está em criar uma atmosfera de graça, amor e aceitação, aonde as pessoas não ficam dizendo às outras o que fazer, mas, aprendem a heresia que ensina embora nem tudo convém, tudo é permitido. Em outras palavras, ainda que haja comportamentos destrutivos, eles podem ser trazidos para luz sem medo ou condenação. Em tal ambiente, ações éticas irão emanar do corpo, como o calor emana da luz. Não será necessário ensinar o zelo obrigatório porque será mais fácil se inclinar ao cuidado.
O desejo de seguir regras éticas possui a tendência de proibir. Isso cria um espiral de culpa, repressão, e negação sintomática. Em contraste, ao colocarmos de lado o estabelecimento de tais preposições éticas, aprenderemos a aceitar o outro e a nós mesmos em graça, e a abrir caminhos para as mesmas preposições que colocamos de lado.

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