Por que não sigo o caminho da tradição

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Publicado por Blog Sostenes Lima

O movimento evangélico brasileiro (tanto em termos conceituais como práticos) parece se encontrar numa encruzilhada nada promissora. Uma direção aponta para a tradição, conservadorismo, institucionalização, rigidez. A outra, para o modismo, superficialidade, sensacionalismo, exploração econômica da fé etc. Está difícil a vida de quem quer viver uma fé com profundidade, sem se deixar amarrar por certos dogmas e tradições institucionais centenárias e sem se deixar cooptar pelas superficialidades, esquisitices e malandragens do neopentecostalismo.

Apresento aqui os motivos por que a tradição, embora seja menos pior que o modismo, não me atrai. Parto do pressuposto de que tradição, em quase todas vertentes e tons, rechaça veemente tudo que não se ajusta aos seus cânones (conceituais e práticos). Diz a tradição que estruturas doutrinárias e institucionais devem ser protegidas, a qualquer custo, de todas as ameaças deturpadoras do novo. Paradigmas herdados de gerações que viveram em outro mundo, cuja natureza social e cultural se diferencia bastante do nosso, são tratados como dogmas intocáveis.

Aparentemente, a tradição é uma escolha segura para quem busca profundidade. Em geral, o protestantismo tradicional tem se mostrado bastante resistente diante das investidas e canalhices bizarrices que norteiam o movimento neopentecostal (por vezes o pentecostal também) midiático, especializado em vender produtos religiosos. Por terem nome, corpo doutrinário e uma grande estrutura eclesiástica a zelar, as igrejas tradicionais ainda resistem ao apelo do sucesso indecente fácil e do proselitismo de cooptação desenfreado.

Antes de prosseguir, devo apontar o perfil do que estou chamando de movimento evangélico tradicional. Para mim, cinco características marcam uma igreja tradicional: a) 100 anos ou mais de existência; b) forte estrutura clerical e um programa formal de formação e iniciação pastoral; c) sistema de governo baseado em decisões colegiadas, o que inibe a ascensão de lideranças calhordas personalistas e carismáticas; d) identidade doutrinária relativamente definida e estável; e) liturgia conservadora, com pouca abertura a manifestações culturais populares, tanto as locais como as importadas pelo movimento gospel.

Como dito, à primeira vista, uma igreja tradicional parece uma excelente escolha. Mas, na prática a coisa pode se mostrar bastante complicada. Principalmente porque tradição não costuma se dar bem com profundidade e mudança. E o motivo é bem simples. Não se faz nada com profundidade sem escavar, sem ir a fundo, sem revolver escombros. Tradição odeia escavação, investigação, suspeita, dúvida.

A busca por profundidade pressupõe movimento, contradição. É pela ação do contraditório que se chega a uma síntese mais profunda. Como se sabe, para se chegar a uma síntese é preciso haver antítese. Do embate entre tradição e novas teses (antíteses) surgem sínteses mais aprofundadas, embora também provisórias. As sínteses envelhecem e logo se tornam teses a serem confrontadas por antíteses emergentes. Uma fé profunda navega em dialéticas turbulentas, não em tradições marasmódicas, estagnadas. Só por meio de movimentos dialéticos indefinidos podemos chegar ao aprofundamento contínuo de conceitos e práticas.

Uma instituição firmemente ancorada em seus esteios centenários, tanto conceituais (corpo doutrinário) quanto práticos (sistema de governo, modo de operação clerical, serviço pastoral e litúrgico), costuma não tolerar indagações, questionamentos, instabilidades, provocações. Dificilmente admitirá revisão em seu aparato teológico. Por mais que existam fortes mudanças nos paradigmas culturais, teóricos e epistemológicos circundantes, as denominações tradicionais se mostram pouco abertas a revisar algum elemento de sua confissão doutrinária. Assentam-se numa ortodoxia exagerada, cheia de conservadorismo e arrogância institucional. Em geral, extrapolam na defesa de seu patrimônio e de sua identidade litúrgico-teológica, resvalando na presunção; se sentem no dever de proteger tudo que foi herdado de gerações anteriores porque julgam que conceitos e práticas antigas são naturalmente melhores, já foram depuradas.

Manutenção da tradição garante segurança, conforto e pureza. Em compensação (ou também em prejuízo), asfixia o dinamismo e a vivacidade. Quando pilares tradicionais são reforçados para que continuem inabaláveis, apesar dos ventos fortes de inquietação e renovação que sopram constantemente, o movimento da vida é cerceado, ares frescos são rechaçados. Apego exagerado à tradição força a pessoa a respirar ar empoeirado e envelhecido, sob a alegação de qualquer novidade embute risco de heresia. Quanto a mim, prefiro o risco de heresia ao embotamento que cerca o tradicionalismo.

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